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Passado indígena de Itacoatiara é investigado em filme que participa de mostra de cinema ambiental na Espanha
Documentário, que será exibido no começo da semana, ressalta a ancestralidade do lugar que tem origem tupi-guarani e o processo de apagamento dessa história ao longo dos tempos
Muitas das pessoas que vão a Itacoatiara, uma das praias mais atraentes de Niterói, localizada no bairro de mesmo nome na Região Oceânica da cidade, não fazem ideia do passado indígena do lugar, cuja denominação vem do tupi-guarani e significa "pedra pintada, esculpida ou riscada". Este e outros aspectos da história local — assim como as afinidades com uma cidade de mesmo nome na região metropolitana de Manaus — são explorados no documentário "Itacoatiaras", dirigido pelo cineasta amazonense Sérgio Andrade e pela artista e pesquisadora fluminense Patricia Goùvea. Nas próximas segunda e terça-feira, o filme participa na Espanha da mostra competitiva de longas-metragens do Ecozine, prestigiado festival internacional de cinema ambiental que acontece em Zaragoza.
Na orla de Copacabana:
Cão Hulk:
O longa busca investigar os dois espaços com nome em comum —a Itacoatiara fluminense e a amazonense — estudando suas realidades e desafios locais distintos, mas ao mesmo tempo ligados por histórias de ancestralidade indígena em diáspora, apagadas por séculos de colonização. Além disso, a produção aponta a fragilidade ambiental dos dois lugares.
— O filme mostra como os territórios são importantes para a gente, como precisamos defender os sítios arqueológicos, a nossa natureza, ou tudo vai acabar. Se a gente deixar à mercê da especulação imobiliária tudo vai ser destruído. A história do Rio de Janeiro é de sucessivo apagamento — aponta Patrícia Goùvea, que tem uma forte ligação com a Itacoatiara fluminense, que frequenta desde a infância e para onde se mudou há três anos.
Malha cicloviária:
A diretora diz que só depois fazer o filme conseguiu entender porque sempre sentiu que Itacoatiara transmitia para ela e outros frequentadores da praia um sentimento de conexão espiritual bastante forte. O documentário mostra, segundo ela, o que faz dali um local especial:
—O documentário mostra que foi um lugar de passagem dos ancestrais. As pedras de Itacoatiara são lugares de conexão com o sagrado, através dos povos originários — afirmou.
Entenda novas regras:
O escritor e jornalista Rafael Freitas da Silva, autor do livro "O Rio antes do Rio", que serviu de base para as pesquisas para o filme, reafirma essa ligação com a ancestralidade e diz que não só Itacoatiara, mais várias outras localidades de Niterói têm ligação com o passado indígena, assim como a própria cidade.
—Há fontes históricas que apontam Niterói como uma antiga comunidade tupinambá. A costa da cidade, interiores, lagoas e toda a área que vai até a Região dos Lagos esteve sob domínio total dos tupinambás durante pelo menos 2 mil anos. Ali eles criaram o que podemos chamar de civilização tupinambá, com as aldeias e as estradas que as ligavam. Se for olhar no mapa, todos os nomes (dos bairros) são indígenas porque, mesmo após a conquista do Rio de Janeiro pelos portugueses, a população continuou sendo indígena por pelos mais mais duzentos anos — explicou Rafael, citando Pendotiba, Itaipuaçu, Piratininga, Jurujuba e Icaraí como exemplos de localizadas no município com nomes de origem indígena.
Rafael, que também participa do filme, acha que muita gente já naturalizou os nomes desses lugares e não questiona mais sua origem. Sobre Itacoatiara, ele considera que essa denominação vai além da simples referência à natureza do lugar.
— Ita é "pedra" e coatiara seria "riscada". Mas essa segunda palavra tem muitos outros significados. Pode ser atribuída também a coisas feitas a mão ou certas marcas. Minha hipótese é que Itacoatiara era um lugar de culto dos caraíbas tupinambás, que tinham marcas específicas nas pedras, que eles mostravam para os jesuítas, as marcas dos deuses que estavam à beira-mar.
Pergunte ao GLOBO:
O filme começou a ser feito em 2021, ainda durante pandemia, teve uma interrupção de três anos, por falta de recursos, foi retomado em 2024 e concluído no primeiro semestre de 2025. Lançado no segundo semestre do ano passado, teve sua première mundial na Suécia, no Festival de Cinema Latino-americano de Estocolmo, e participou de importantes mostras e competições nacionais e internacionais, incluindo o Festival do Rio do ano passado, na Mostra COP 30.
Na Ecozine, na Espanha — onde a diretora chegou na manhã desta sexta-feira —, o filme brasileiro compete com outros sete longa-metragens do mundo inteiro que têm como foco a discussão sobre emergência climática, meio ambiente e futuros possíveis. Patrícia diz que para este semestre a ideia é levar o filme para outros festivais de cinema ambiental.
Nas alturas:
— Esse (Ecozine) é o primeiro e eu estou viajando graças a todo um esforço da embaixada do Brasil na Espanha e ao apoio do Instituto Guimarães Rosa — conta a diretora.
Na mostra espanhola, serão duas sessões na cidade de Zaragoza, com a presença de Patricia Goùvea, seguidas de bate-papo com o público: segunda-feira, às 10h30, na Aula Magna da Faculdade de Filosofia e Letras; e terça-feira, às 20h, na Filmoteca de Zaragoza.
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