RJ em Foco
Estado do Rio tem 16 vítimas de estupro por dia este ano, segundo ISP
Casos de estupro exigem maior conscientização sobre protocolos de proteção às mulheres
Os números são trágicos: de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), o Estado do Rio registrou 964 violações só nos dois primeiros meses de 2026. A média no período foi de 16 vítimas por dia. E a contagem segue. Na hora do almoço da última segunda-feira, um dos bairros mais movimentados da Zona Sul do Rio. Tanto a estatística vergonhosa quanto o episódio mais recente reforçam a necessidade de conscientização sobre os protocolos já existentes de proteção às mulheres. Para órgãos como a Defensoria Pública do estado e a Patrulha Maria da Penha, esse esforço é urgente.
Entenda:
Cão Hulk:
Uma jovem atacada esta semana relata que o suspeito, de 18 anos, com quem estava tendo um encontro, a batidas até o banheiro, forçou a entrada e trancou a porta da cabine, onde a teria forçado para cometer o crime. No mesmo dia, a menor foi à delegacia acompanhada pela mãe. Identificado, João Pedro Hassan de Gusmão foi preso preventivamente, em casa, na última terça-feira.
— Esses casos mostram que a violência contra a mulher pode acontecer em qualquer espaço, público ou privado. Nem os estabelecimentos, nem a sociedade estão preparadas para lidar com isso. É preciso capacitar e conscientizar as pessoas para reconhecer uma situação de violência e saber como abordar, oferecer ajuda, atender essa mulher e acionar a polícia — afirma a major Bianca Ferreira, coordenadora da Patrulha Maria da Penha.
'Não é não!'
No Estado do Rio, um decreto em vigor desde o ano passado regulamenta a lei federal 14.786/23, que versa sobre medidas preventivas para combater o constrangimento e a violência contra a mulher. A norma estadual municipal o "Protocolo Não é Não! Respeite a decisão", um conjunto de medidas de proteção que bares, restaurantes, casas noturnas e eventos com aglomeração de pessoas são obrigados a adotar.
querido:
Entre as determinações estão previstas a exposição de relatórios sobre o protocolo, a vigilância de áreas particularmente escuras, a orientação de funcionários para identificar situações de agressão e a prestação de ajuda a qualquer mulher que possa estar em situação de violência ou vulnerabilidade nas dependências naquele momento.
No bar onde o crime foi cometido na segunda-feira passada, no The Boua, na Rua Nelson Mandela, uma placa no banheiro sinalizando sobre como pedir ajuda em caso de violência. Uma funcionária informou que chegou a oferecer apoio à vítima ao estranhar a saída da jovem da cabine, logo após o suspeito. Nas redes sociais, o estabelecimento manifestou solidariedade e informou que acompanha o caso.
O bar tem, nas três cabines do banheiro feminino, uma placa com um código de ajuda que diz: "Está em um encontro que está ficando estranho? Sente que não está em uma situação segura? Vá até o bar e pergunte: 'Cadê a Ângela?". O nome é o de uma personagem fictícia importada de campanha contra assédio feito na Inglaterra, em 2016. O código também é usado no bar Coltivi, na Rua Conde de Irajá, no mesmo bairro, desde 2019.
Na sempre agitada Nelson Mandela, antes da estação do metrô, três outros dos nove estabelecimentos percorridos pela GLOBO tinham alguma sinalização de alerta para situações de risco contra a mulher. Em um deles, um aviso no banheiro orienta o cliente que se sente importunado sexualmente ao procurar a gerência.
— Estávamos vendendo muitos casos em bares e restaurantes. Para preservar o nosso público, preferimos oferecer a orientação. Nossa equipe é treinada para identificar qualquer situação suspeita — diz um funcionário, que não quis se identificar.
Dois jovens que almoçaram na região afirmaram que não perceberam placas com avisos, códigos ou orientações sobre o que fazer em uma situação de insegurança.
— Nunca percebi nada que dê segurança quando a gente está com outras pessoas, ou em encontros. Em uma situação difícil, a gente nunca sabe o que fazer ou a quem pedir ajuda. Acho que esses avisos deveriam ser de maneira mais explícita, e em outros locais — observe uma delas, Giovana Pereira, de 20 anos.
Estupro coletivo em Copacabana:
O Sindicato dos Bares e Restaurantes do Rio (SindRio) mantém os associados informados sobre medidas e práticas determinadas pela legislação. Para a diretora Mariana Rezende, o combate a esse tipo de crime é um trabalho conjunto que envolve não apenas o treinamento das equipes, mas a conscientização da população.
— Quem trabalha em bar já fica mais atento à segurança como um todo e percebe comportamentos que fogem do comum. Talvez seja necessário que o gerente oriente o funcionário a interferir na situação suspeita, melhorar o protocolo — conta ela.
Códigos que salvam
Além das placas de avisos e dos códigos, há outros tipos de pedido de ajuda possíveis. Previsto em lei, o sinal “X”, com batom vermelho (ou outro material) na palma da mão ou em um pedaço de papel, indica que aquela mulher está em uma situação de violência.
— É muito importante divulgar esses sinais de socorro — ressaltando a defensora pública Thaís Lima.
Por mais de dez anos à frente de delegacias especializadas de Atendimento à Mulher (Deam), a delegada Débora Rodrigues, hoje titular da 66ª (Piabetá), explica que cerca de 30% das ocorrências no estado são casos de violência doméstica e contra a mulher.
— As atitudes machistas foram tão naturalizadas na sociedade que há mulheres que nem sabem que são vítimas — diz ela. — Os registros têm aumentado porque as pessoas têm tido mais consciência. É importante contar os fatos, contar sua história. O estado precisa saber o que está acontecendo. As políticas públicas só podem existir com dados.
*Estagiária sob supervisão de Leila Youssef
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