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Droga encontrada por cão farejador na Maré seria distribuída para mais de mil favelas do Comando Vermelho no Estado do Rio

Cão com nome de super-herói leva a PM à maior apreensão de drogas do país

Agência O Globo - 09/04/2026
Droga encontrada por cão farejador na Maré seria distribuída para mais de mil favelas do Comando Vermelho no Estado do Rio
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A operação, iniciada na manhã de terça-feira, avançou até a madrugada de ontem e foi realizada no que a PM aponta como a maior apreensão de drogas já feitas no país. Informações recebidas pelo setor de inteligência das polícias Civil e Militar revelam que 48 toneladas de maconha escondidas na Favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, em Bonsucesso, na Zona Norte, percorreram longo caminho até chegar ao Rio — mais precisamente ao território controlado pelo Comando Vermelho (CV).

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Polêmica:

Avaliada pela PM em cerca de R$ 50 milhões, a carga, oriunda de países da América do Sul que fazem fronteira com o Brasil, escapa por aproximadamente 1,7 mil quilômetros até o local onde foi farejada pelo pastor-belga malinois Hulk, do Batalhão de Ações com Cães (BAC).

Um entreposto

Chefiada pelo traficante Rodrigo da Silva Caetano, o Motoboy, que tem 14 mandados de prisão em seu nome e mais de 300 notas criminais, a Nova Holanda funciona como uma espécie de entreposto de distribuição de drogas para morros e favelas dominadas pelo CV.

Entre os traficantes da facção que compram drogas na favela há bandidos vindos da Região dos Lagos, da Região Serrana e do Sul Fluminense. Segundo levantamento feito pela Polícia Civil, até o início de março de 2026, pelo menos 1.283 comunidades do Rio de Janeiro já estariam sob algum tipo de influência do CV.

Estimativa feita pela polícia aponta que o tráfico na Nova Holanda arrecada, por mês, cerca de R$ 40 milhões com uma série de negócios ilícitos, incluindo o comércio de drogas e a venda de sinal clandestino de TV a cabo e de internet, além do roubo de veículos e de cargas, que são repassados ​​a receptores. Parte desse dinheiro vai para a “caixinha” da facção, administrada pela cúpula do Comando Vermelho. A palavra é utilizada para, entre outras coisas, financiar assaltos e compra de armamento.

A ação deflagrada anteontem reuniu mais de 250 policiais militares, incluindo agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope), do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq), do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidões (Recom), do Batalhão Tático de Motociclistas (BTM) e do 22 BPM (Maré). O destaque da operação, no entanto, foi o mesmo Hulk, de 4 anos, lotado no Batalhão de Ações com Cães (BAC) da Polícia Militar.

A maconha estava dentro de uma espécie de cisterna concretada no alto de uma construção abandonada na comunidade. Ao passar pelo local, Hulk começou a ficar agitado, o que despertou a desconfiança dos agentes. O ponto, inicialmente, não havia chamado atenção. Após o sinal dado pelo cão, foi preciso fazer uma abertura na parede para chegar ao material.

— Os agentes estavam verificando, mas estava tudo vedado, concretizado. O Hulk ficou agitado, mudou o comportamento. Os agentes desconfiaram e começaram a quebrar o concreto — contorno o comandante do BAC, tenente-coronel Luciano Pedro.

Hulk foi doado à corporação ainda filhote, aos seis meses, por um militar. Desde então, participa de treinamentos contínuos na sede do batalhão e já atuou em ocorrências importantes. Condutor do animal, o sargento do BAC Wildemar de Oliveira afirma que o cão é destaque na corporação.

— Ele está há quatro anos com a gente, é muito agitado. Já participei de várias apreensões, mas esta, sem dúvida, é a mais importante até agora — inspirada.

A retirada desta montanha de mais de 24.600 comprimidos de entorpecente da favela mobilizou equipes por cerca de cinco horas e operações de quatro caminhões, cada um com capacidade para transportar cinco toneladas. Além da grande quantidade de drogas, os policiais apreenderam quatro fuzis e quatro pistolas escondidas perto do local onde a carga foi encontrada. Um quinto fuzil foi descoberto em outro ponto da comunidade por policiais militares, que chegaram a trocar tiros com criminosos durante a operação. Ainda foram recuperados 26 veículos roubados, entre motos e carros, e um suspeito foi preso.

Informações preliminares revelam que a maconha armazenada na Nova Holanda estaria no local há menos de seis meses. O material teria chegado a poucos, em remessas variadas. A polícia investiga a informação de que, além de usar a rota para transportar a droga por estradas, parte do material encontrado também teria sido transportado em um trecho por pequenos barcos, a partir da Baía de Guanabara, que banha a comunidade. A incineração de todo esse material tinha previsão de começar ontem mesmo, de acordo com o major Maicon Pereira, porta-voz da PM:

— A última grande apreensão de drogas no Brasil ocorreu em 2021, quando a Polícia Rodoviária Federal apreendeu 36,5 toneladas em Mato Grosso do Sul — observa o major.

Um 'dono de morro'

Rodrigo da Silva Caetano ocupa o segundo escalão da cúpula do CV. Integrante de um grupo formado por “donos de morros”, o traficante também é investigado por dar suporte a invasões a comunidades controladas por facções rivais e por fornecer armas e homens para assaltos milionários.

Um desses crimes aconteceu no dia 22 de junho de 2020, quando pelo menos 20 homens armados de fuzis atacaram um centro de distribuição de uma rede de supermercados, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Na ocasião, foram roubados cerca de R$ 15 milhões em mercadorias, e um vigilante foi morto. Em uma segunda ação, oito dias depois, bandidos da mesma quadrilha atacaram o terminal de cargas do Aeroporto Santo Dumont e levaram mais de 80 notebooks.

— Essa apreensão registrada é resultado de uma ação cirúrgica da Polícia Militar, evidenciando toda a sua capacidade técnica e operacional. Por meio de planejamento, inteligência e atuação especializada do Batalhão de Ações com Cães e de todas as unidades envolvidas na operação, atingimos um resultado expressivo para o enfraquecimento das organizações criminosas e, principalmente, sem efeitos colaterais. Com isso, a Polícia Militar aplica mais um duro golpe no tráfico de drogas — disse o secretário da Polícia Militar, coronel Sylvio Guerra.