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Trânsito caótico, população de rua e ocupação das calçadas: a desordem urbana que marca uma das principais vias de Copacabana; vídeo

A equipe de reportagem do GLOBO percorreu a via de ponta à ponta, à tarde e à noite, na quarta e na quinta-feira passadas

Agência O Globo - 23/03/2026
Trânsito caótico, população de rua e ocupação das calçadas: a desordem urbana que marca uma das principais vias de Copacabana; vídeo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Carioquíssima, “purgatório da beleza e do caos”, como diria Fernanda Abreu, é uma definição que, apesar de curta, dá conta, com maestria, da complexidade do Rio de Janeiro. Nos últimos anos, a descrição tem se encaixado perfeitamente na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, que se tornou um microcosmo da desordem urbana que assola a cidade. No coração da Zona Sul, a uma quadra da praia e farta em comércio e hotéis — ali, fica a parte de trás do Copacabana Palace —, a via, uma das principais do bairro, reúne em seus 4km de extensão os mais diversos exemplos de desorganização: do trânsito à segurança pública, passando por população de rua e ocupação irregular das calçadas. Sem falar em dois episódios trágicos recentemente: a queda de uma marquesa e o choque elétrico de uma turista chilena durante um temporal.

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trânsito caótico

A equipe de reportagem do GLOBO percorreu a via de ponta a ponta, à tarde e à noite, na quarta e na quinta-feira passadas, e constatou que o único trecho onde há um mínimo de ordenamento é no início, no Leme, até pacato em relação ao restante. Os problemas, porém, já começam na esquina com a Avenida Princesa Isabel, onde os veículos avançam o sinal, fecham os preços e o trânsito dá um nó. O mesmo ocorre na altura da Rua Rodolfo Dantas, atrás do Copacabana Palace, sobretudo após as 17h.

Outra questão que embola o trânsito são as paradas de veículos para embarque e desembarque e carregamento e descarga na pista da esquerda, restando apenas um para carros comuns, já que as outras duas são exclusivas para ônibus e táxis com passageiros. Na quarta-feira, o GLOBO organizou sete veículos parados, sendo cinco carros, uma moto e um caminhonete, em um único quarteirão, entre as ruas Barão de Ipanema e Bolívar. A CET-Rio informa que equipes atuam diariamente na fluidez do trânsito e no monitoramento da via. A Guarda Municipal, por sua vez, disse que atua diariamente no bairro, onde já aplicou 14.127 multas este ano, com ações de fiscalização. A reportagem, porém, não viu nenhum agente da prefeitura.

Ocupação irregular das calçadas

O cenário caótico da pista de rolamento se repete nas calçadas. É comum se deparar com pessoas circulando com bicicletas e motos elétricas pelo passeio, os quais ainda são feitos de estacionamentos para esses veículos, que se acumulam em diversos trechos. Na altura da Rua Paula Freitas, por exemplo, há sempre algumas motos elétricas estacionadas em frente a uma imobiliária. Moradores dizem que já denunciaram diversas vezes à Central 1746, sem sucesso.

A Guarda Municipal afirma que nenhum tipo de bicicleta ou moto elétrica pode circular pela calçada. Em caso de flagrante, esclarece, os agentes orientam os condutores. Se houver desobediência, o infrator pode ser prorrogado para a delegacia da área. Os equipamentos devem ser estacionados em bicicletas. Na falta dessas, não devem ocupar as calçadas. Podem ser amarrados em postes e grades, desde que não atrapalhem os pedestres, orientam o órgão.

A profusão de vendedores ambulantes, que disponibilizam os mais diversos produtos no chão das calçadas, também torna a circulação de pedestres uma árdua missão, sobretudo aqueles com dificuldade de locomoção, como cadeirasntes e idosos com andadores. Da esquina com a Rua República do Peru, é possível encontrar desde livros a boneca de casa de segunda mão e acessórios para celular. Os pontos mais críticos estão na altura de Siqueira Campos e de Santa Clara. Neste último, há mais de dez barracas disputando espaço. Já parte em frente a uma loja de departamento no número 749, resta apenas um corredor para os pedestres, que precisa passar entre camelôs e o abrigo do ponto de ônibus.

— Tem camelô que fica bem na altura da faixa de pedestres, ocupando espaço. E, além deles, tem as bicicletas na calçada. É um acidente hoje em dia. É tanta desordem que a gente acaba se sentindo impotente para reclamar de alguma coisa. Cada dia está pior — reclamou a moradora Samantha Helena Pecsen, de 28 anos, que é cadeirante.

A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) garante a realização de rondas diárias de patrulhamento no combate aos ambulantes irregulares no bairro. Cresce que, na avenida, 35 carrocinhas itinerantes são autorizadas, além de três pontos fixos. Diz ainda que 552 multas a ambulantes ilegais foram aplicadas na região este ano. E orienta: o caminho para a regularização é o aplicativo Carioca Digital. Outra moradora, abordada pelo GLOBO em frente à Praça Serzedelo Corrêa, saiu em defesa da categoria.

— É melhor eles estarem trabalhando do que roubando — disse, enquanto carregava o neto num carrinho de bebê.

Presidente da associação de moradores Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães atribuiu a sequência de desordem na avenida à falta de presença ostensiva da Guarda Municipal.

— Já há algum tempo, a Guarda Municipal saiu do combate ao comércio ambulante e ao controle de tráfego. Você não vê mais agentes na rua. Daí essa situação este tipo de situação: um mar de camelôs nas calçadas e confusão nos cruzamentos. O que se vê são apenas ações pontuais, que não surtem efeito — pontua. — Agora, a prefeitura está dando uma nova função à Guarda Municipal, que é a segurança, mas a corporação não faz aquilo que deveria fazer em essência, que é cuidar do logradouro público.

Moradores de rua e infestação de ratos

Além da Serzedelo Corrêa, que fica no meio do caminho, a Nossa Senhora de Copacabana abriga duas praças: a do Lido, no início, e a Sara Kubitschek, no final. Esses espaços simbolizam um outro problema que preocupa moradores e transeuntes: a população em situação de rua, que se concentra nesses pontos de referência, mas está espalhada por toda a via.

— É muito desagradável conviver com esse tanto de morador em situação de rua. Vivemos com medo. Não saio de casa com celular, e conto com a ajuda de Deus. Uma vez, um cracudo jogou uma pedra em mim. Outro dia, uma mulher puxou uma garrafa d'água da mão da minha filha à força. Há dez anos, isso aqui não era assim. Eu andava às 4h sozinha na rua. Agora, já estou aqui com receio — relatou a dona de casa Leila Carvalho, de 59 anos, que passeava com o cachorro na rua.

A Sara Kubitschek, uma das mais afetadas pelo abandono, além da presença de moradores em situação de rua e usuários de drogas, vive uma infestação de ratos. Em menos de cinco minutos no local, a reportagem viu mais de cinco roedores circulando livremente. Há ainda problemas de conservação, com calçadas esburacadas, que se repete ao longo de toda a via, acúmulo de lixo e grades do entorno cortadas. O local abriga um restaurante, um bar, um hostel, uma igreja e um prédio comercial. Donos de negócios se dizem aflitos com a situação.

— O que mais me atrapalha é a questão do forte cheiro de urina e de fezes na praça, que virou um banheiro público. Todos os dias, limpo cocô pelos cantos. Essa situação espanta clientes. Eu já tive algumas avaliações públicas no Google dizendo que a comida é deliciosa, mas que o ambiente fede. Dá vontade de chorar. O sentimento é de um fracasso total, porque você se esforça para fazer uma comida bacana, o cliente reconhece, mas aí um fator que depende de terceiros acaba impactando o seu negócio — lamentou.

A Comlurb diz que mantém uma rotina diária de limpeza nas praças. Em relação à infestação de ratos, afirma que fará um trabalho de controle de vetores na Praça Sarah Kubitscheck. A Secretaria de Conservação, por sua vez, informa que fará reparos nas pedras portuguesas e nas grades danificadas no local esta semana.

Em relação à população em situação de rua, a Seop informa que abordou 2.067 pessoas na via este ano. Destas, 35 aceitaram acolhimento da prefeitura, e cinco foram designados para delegacia. A Secretaria Municipal de Assistência Social diz que realiza abordagens sociais diárias em todo o bairro de Copacabana, incluindo orientação, escuta ativa e acolhimento, que, por força de lei, não é obrigatório. Quando o acolhimento é aceito, a pessoa é levada a uma unidade da secretaria, onde pode se alimentar, fazer sua higiene e dormir. Em seguida, é orientado a tirar documentos, encaminhada aos serviços de saúde e incentivada a fazer cursos de capacitação e inserção no mercado de trabalho.

Debaixo da marquesa de um imóvel que está para alugar no número 721, vive ao menos três homens e um cãozinho. Um deles é Rafael Justino dos Santos, de 34 anos, que vivia com a mãe em Bonsucesso, mas foi parar nas ruas após a morte dela, há cerca de um ano. Ele, que já trabalhou como auxiliar de serviços gerais, lia um jornal ao ser abordado pela reportagem, e reclamou que falta estrutura nos abrigos municipais.

— No momento, eu não tenho planos. Eu não vou para o abrigo porque não tem uma estrutura boa. Se quisessem realmente tirar a gente da rua, tinham que oferecer pelo menos um curso profissionalizante para as pessoas se desenvolverem — queixou-se.

Roubos e furtos de cada

As mazelas da avenida vão além e alcançam a segurança pública. Quem precisa aguardar nossos pontos de ônibus, por exemplo, teme os assaltos. A sensação encontra explicação nos dados. O Instituto de Segurança Pública aponta altos índices de roubos e furtos de rua na região. Na área da 12ª DP, os roubos de celulares dobraram de 7 para 15, em fevereiro deste ano, na comparação com o mesmo mês de 2025. Já os furtos desses aparelhos subiram 27%, de 118 para 150.

— Muitas vezes, as pessoas estão com o celular na mão, passa alguém, puxa e vai embora. Uma vez, um garoto pulou do ônibus e furtou uma garota que estava aqui. Eu, graças a Deus, nunca fui vítima. Quando chego aqui, ponho uma mochila para a frente e fico abraçada a ela. Sempre andando de mochila, porque acho mais seguro. E o celular fica lá embaixo, desligado. Aqui, tem que ter atenção no nível máximo — contou a cozinheira Francisca Alves, 55 anos, que pega ônibus na Praça do Lido.

Questionada sobre a alta criminalidade, a Polícia Militar disse que o comando do 19º BPM (Copacabana) atua por meio de seus setores de inteligência, identificando os horários de maior incidência criminal e ampliando a presença policial com abordagens e rondas realizadas por viaturas e motopatrulhas. Ao percorrer a avenida, a reportagem apresentou apenas duas viaturas paradas no final, e no mesmo quarteirão: nas esquinas com as ruas Almirante Gonçalves e Sá Ferreira. Três agentes do Segurança Presente também foram vistos caminhando na via.