RJ em Foco
Vivi para contar: 'Meu filho contou chorando na creche que o pai batia em mim', diz jovem vítima de violência doméstica
Com apenas 22 anos, Gabriela da Silva possui medida protetiva contra seu ex-companheiro e tenta reconstruir sua vida com apoio de sua família e amigos
Criada no Morro da Providência, no Centro do Rio, Gabriela da Silva, de 22 anos, viveu por quatro anos em um relacionamento marcado por diferentes formas de violência. O silêncio que a mantinha refém do ex-companheiro foi quebrado por quem também presenciava o desrespeito e a fragilidade de uma mãe tão jovem: o filho, de apenas 2 anos. Na creche, a criança conto às professoras, chorando, que via “papai bater na mamãe”. Agora estudante de Fisioterapia, bolsista da Universidade Celso Lisboa, e jovem aprendiz no projeto Music Camp, uma parceria entre a Sony Music e o CAMP Mangueira, ela tenta reconstruir a vida após denunciar o ex-companheiro. Ao GLOBO, conta como conseguiu romper o ciclo de violência e como tem batalhado para recomeçar.
Compartilhando Sin:
Censo das estátuas do Rio:
"Antes de sofrer violência, eu associava essa palavra apenas à agressão física. Foi só depois de abrir uma cartilha sobre os tipos de violência contra a mulher que a equipe que me atendeu me mostrou que eu entendi que tinha passado por todas elas, exceto a sexual. Foi ali que percebeu que a violência tem uma camada muito mais profunda do que eu imaginava.
Eu vivi um relacionamento que já começou errado. Eu tinha 17 anos e meu ex-namorado, 27. Hoje percebi que a violência já estava ali desde o início. Ao longo dos anos, vivi todo tipo de agressão possível: psicológica, moral e patrimonial. Demorei muito a pedir ajuda e a contar para a minha família o que estava acontecendo. Para os meus pais, foi um choque descobrir o tamanho das atrocidades que eu estava vivendo.
Esse ciclo durou quatro anos.
O estopim
O momento que mudou tudo aconteceu na creche do meu filho, que hoje tem dois anos. Um dia fui buscá-lo e descobri que ele tinha contado para a professora, chorando, tudo o que acontecia em casa. Ele disse: 'Meu papai bate na minha mamãe e ela chora'. Aquilo foi devastador para mim.
Quando uma pessoa está vivendo a situação, acredita que consegue proteger a criança, que consegue esconder o que está acontecendo ou evitar que ela perceba. Mas a verdade é que eles sentem e entendem tudo. Naquele momento, percebi que a violência que eu estava vivendo tinha ultrapassado uma barreira e estava atingindo diretamente o meu filho.
Naquele período eu estava participando de um processo seletivo para jovem aprendiz. Acabei indo trabalhar praticamente fugida. Sai de casa e não voltei mais. Eu sabia que eu precisava dar o primeiro passo para mudar aquela situação.
Fui muito acolhida pelos meus pais. Eles me receberam e me deram todo o apoio para que eu conseguisse reorganizar a minha vida. Procurei o Centro Especializado de Atendimento à Mulher, o CEAM, onde comecei a receber orientações sobre como fazer uma denúncia e quais eram os caminhos legais que eu poderia seguir.
proteção
Meu ex-companheiro não aceitou o fim do relacionamento. Ele começou a me perseguir, aparecer na minha casa e monitorar minhas redes sociais. Chegava a me mostrar relatórios sobre quantas pessoas me seguiam. Em um momento, ele invadiu minha casa e exigiu que eu entregasse meu filho para ele. Foi quando percebeu que a situação chegou a um limite e precisou registrar um boletim de ocorrência.
A partir de dali começou uma longa caminhada. Passei horas na delegacia e vi muitas outras mulheres irem embora por causa da demora no atendimento. Mesmo assim, eu sabia que precisava sair dali com algum tipo de proteção. Consegui uma medida protetiva e aquilo representou o primeiro passo para eu começar a me libertar da sensação constante de medo e impotência.
Mesmo depois disso, ainda escutei deboches do meu agressor. Por meio da minha mãe, que hoje faz a mediação das visitas dele com o meu filho, ele chegou a dizer que eu tinha 'tempo demais para ficar indo à delegacia'. A verdade é que eu não queria estar ali e nem tenho esse tempo. Ninguém quer passar horas em uma delegacia. Mas eu preciso arrumar esse tempo porque era necessário para garantir a minha segurança e a do meu filho.
'Existe uma Gabriela'
Para sair da situação de violência, o apoio foi fundamental. Receba apoio da minha família, dos amigos e também dos meus colegas de trabalho. Antes mesmo da medida protetiva sair, meus amigos me acompanharam até a saída para garantir que eu estivesse seguro.
Nenhum trabalho também recebeu apoio psicológico e orientação sobre os caminhos jurídicos que eu precisava seguir. Muitas pessoas dizem que mulheres vítimas de violência doméstica acabam perdendo desempenho profissional, e isso realmente acontece, porque você precisa conciliar as coisas ao mesmo tempo. Eu precisei sair mais cedo para ir à delegacia, chegar mais tarde porque tinha reunião no CEAM e reorganizar completamente a minha rotina.
Essas redes de apoio são fundamentais para que as pessoas não se sintam sozinhas durante esse processo. Não existe apenas a Gabriela profissional, a Gabriela mãe ou a Gabriela responsável pela casa. Existe a Gabriela como pessoa, e eu tive uma espécie de ter gente ao meu redor que entendeu isso.
Acredito que, para que situações como a que eu vivi deixem de acontecer, é fundamental que exista apoio em todos os níveis: nas leis, na família e na sociedade. O acolhimento sem julgamento faz toda a diferença. Minha família nunca perguntou por que eu não contei antes ou tentou me culpar por algo. Eles simplesmente me apoiaram desde o primeiro momento.
‘Poderia ser eu’
Quando vejo um caso de violência doméstica nas notícias, a primeira coisa que sinto é tristeza pela vítima. Mas também vem uma sensação muito forte de que poderia ser eu. Acredito que as jovens da minha geração convivem tanto com a violência quanto as gerações anteriores. A diferença é que hoje talvez nos sintamos um pouco mais preparadas para denunciar.
Na minha opinião, muitos desses casos continuam acontecendo porque os agressores se sentem seguros da impunidade. Eu já ouvi muitos deboches do meu agressor, como se ninguém fosse fazer nada contra ele. É como se desafiasse a Justiça o tempo todo.
Reconstrução
Hoje estou tentando me curar das marcas emocionais e psicológicas que ficaram. Ainda estou em um processo de reconstrução. Existe uma vontade muito grande de resolver tudo rapidamente, de mudar a vida de uma vez só, mas a realidade não funciona assim. É preciso dar tempo ao tempo.
Tenho que lidar com muitas responsabilidades ao mesmo tempo: a faculdade, o trabalho, os cuidados com o meu filho e também o processo de reorganizar a minha própria vida. Mesmo assim, continuo participando das reuniões do CEAM para manter minhas informações atualizadas. Se você deixa de comparecer, pode parecer que tudo já foi resolvido, e isso pode afetar as medidas de proteção".
Atendimento a mulheres vítimas de violência
Centro de Atendimento Multidiciplinar Integrado (CAMI)
O CAMI é um serviço integrado à Atenção Primária à Saúde e ao Grupo Articulador Regional, voltado ao acolhimento e acompanhamento de pessoas em situação de violência encaminhadas por órgãos de garantia de direitos, Justiça e unidades de saúde. A equipe é formada por assistente social, psicóloga e enfermeiro, com funcionamento de segunda a sexta, das 8h às 17h, sem atendimento de urgência ou emergência.
AP 3.1: Clínica da Família Felippe Cardoso (Av. Nossa Senhora da Penha, 42 – Penha)
AP 3.3: Clínica da Família Souza Marques (Praça do Patriarca, s/nº – Madureira)
AP 4.0: CMS Raphael de Paula Souza (Estrada de Curicica, 2000)
AP 5.1: CMS Waldyr Franco (Praça Cecília Pedro, s/nº – Bangu)
AP 5.2: CMS Belizário Penna (Rua Franklin, 29 – Campo Grande)
AP 5.3: Clínica da Família Sérgio Arouca (Rua Império, s/nº – Santa Cruz)
Patrulha Maria da Penha
O programa conta com 50 equipes nos BPMs. O trabalho inclui visitas regulares às residências de vítimas com medidas protetivas, assim como o monitoramento para garantir o cumprimento das determinações judiciais.
Maria da Penha virtual
O web app gera automaticamente uma petição para medida protetiva de urgência, que é distribuída na mesma hora ao juizado competente, sendo passível de consulta pela vítima. É acessado pelo link.
Aplicativo Rede Mulher
Disponível para Android e iOS, o aplicativo permite a solicitação de ajuda à Polícia Militar. No app, também é possível cadastrar uma rede de proteção de amigos e parentes, assim como cadastrar uma solicitação de medida protetiva. Pela Rede Mulher, a vítima ainda pode acessar o serviço de registros de ocorrências.
Central de Atendimento à Mulher
Ligue 180, de segunda a segunda, 24 horas por dia. São últimas orientações sobre leis e direitos das mulheres, assim como informações sobre rede de atendimento. Também é feito o registro e o encaminhamento de denúncias.
Centros de atendimento
A Secretaria estadual da Mulher mapeou a rede de proteção e atendimento em 67 endereços no estado, como os Centros Integrados de Atendimento à Mulher (CIAMs). Uma lista com todos os locais e telefones está aqui.
Casas da Mulher Carioca
Ligadas à Secretaria de Política para Mulheres e Cuidados do município, as unidades oferecem atendimento psicossocial, orientação jurídica e assistência social na capital. Também há orientação sobre encaminhamentos para atendimento psicoterapêutico e para abrigo sigiloso para mulheres sob risco de morte.
As Casas da Mulher estão em Madureira (Rua Júlio Fragoso 47), Realengo (Rua Limites 1.260), Padre Miguel (Rua Marechal Falcão da Frota s/n), Campo Grande (Rua Mario Barbosa 137) e Coelho Neto (Avenida Pastor Martin Luther King Jr 10.055), com funcionamento de segunda a sexta, das 8h às 20h. Dúvidas podem ser sanadas pelo WhatsApp da massa: (21)96659-3810.
Núcleo Especial de Direito da Mulher e de Vítimas da Violência (NUDEM)
Órgão da Defensoria Pública do Rio especializado na promoção e defesa dos direitos das mulheres. Funciona de segunda a sexta, das 10h às 16h, na Avenida Marechal Câmara 271 - 7º andar - Centro do Rio. Telefone: (21)2526-8700.
*Em depoimento a Lívia Nani.
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