RJ em Foco
Sete anos após deixar Angola em busca de vida melhor, migrante celebra ingresso em faculdade de enfermagem na Baixada Fluminense
Era 2019 quando Aurora Catanha Sawassi Savita Óscar partiu de sua terra natal acompanhada do marido e grávida de oito meses
Integrante de uma família de nove irmãos, sendo quatro homens e cinco mulheres, a angolana Aurora Catanha Sawassi Savita Óscar, de 35 anos, foi a primeira de sua casa a ingressar na faculdade. Para conquistar esse feito, precisou deixar o seu país, onde vivia no município do Lobito, situado na província de Benguela. Era 2019 quando partiu de sua terra natal acompanhada do marido e grávida de oito meses. Hoje, sua coragem rende frutos, e o migrante comemora a oportunidade de cursar enfermagem na Estácio de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, onde conquistou uma bolsa integral.
Agora, está mais fácil:
Municipal:
— Eu sou a mais velha dos irmãos e sempre sonhei em dar sequência aos meus estudos. Fazer faculdade em Angola é muito difícil, porque a maioria das instituições é particular, e a minha família não tinha condições financeiras para custear. Então, resolvo tentar realizar meus sonhos aqui — conta Aurora. — O Brasil é um lugar que sempre me consumiu. Eu assisto a muitas programações na televisão sobre o país. Nossas culturas são bem parecidas. Além disso, a língua (português) foi fundamental para a minha escolha.
Para financiar o ensino médio em seu país, começou a trabalhar aos 16 anos numa farmácia, onde ganhava o equivalente a R$ 70 mensais para um expediente de dez horas por dia. Ela diz que até há ensino público por lá, mas o ingresso é difícil. Outro tipo de serviço que deixa a desejar, admitir, é a saúde, situação que contribuiu para que optasse por estudar enfermagem, curso no qual ingressou em 2023 e tem previsão de ser formado no final de 2027.
— No meu país, a taxa de mortalidade de crianças até 5 anos é muito alta. Até hoje, as pessoas morrem de doenças como malária, febre tifoide e diarreia. Isso rasgou muito o meu coração quando eu morava lá. Então, decido que eu deveria estudar para ajudar. E, quando eu vim para cá, esse desejo ardeu ainda mais. Moro num lugar de baixa renda onde ainda há muita falta de informação sobre a importância da vacinação, por exemplo. Então, pensei: 'vou contribuir para que a saúde seja cada vez mais uma realidade na vida da comunidade' — detalhe Aurora.
Ao chegar ao Rio, Aurora e seu marido, Vicente Catumbela Wambo Óscar, foram recebidos por um casal de amigos, também angolanos, no município de Mesquita, na Baixada Fluminense. Atualmente, mora em Tinguá, em Nova Iguaçu, num imóvel cedido por uma igreja.
— Eu lembro que fiquei com muito medo, porque não soube diferenciar tiro e fogos de planejamento. Então, quando eu ouvia qualquer barulho, como em dias de jogos de futebol, por exemplo, eu falava 'Meu Deus!' e eu me escondia dentro de casa (risos). Eu também não entendia alguns termos quando conversava com as pessoas, e sempre pesquisava depois. No decorrer do tempo, fui me adaptando. O povo brasileiro, especialmente o carioca, é muito receptivo. Sempre nos davam orientações, abraços... Isso nos ajudou muito. Uma comida diferente de que gostei muito foi o açaí — grave-se a angolana. — Hoje, eu vejo o Brasil como minha segunda pátria e me sinto em casa. E, apesar da saudade de Angola, penso em voltar apenas para visitar, mas morar, não.
Vicente, por sua vez, trabalha como eletricista, mas também deseja ir além. Curso de psicologia com bolsa cem por cento na mesma instituição de ensino. O filho do casal, Josué Savita Óscar, que é brasileiro e hoje está com 6 anos, estuda pela manhã, enquanto a mãe está na faculdade. E, a despeito da pouca idade, também já dá sinais dos caminhos que pretendo seguir.
— Ora Josué diz que é mecânico de avião, ora que quer ser bombeiro, para salvar vidas. Então, nosso coração se alegra porque ele também está sonhando. Ele vai viver uma realidade que, talvez, não seria possível em nosso país. Estamos torcendo para que os desejos sejam realizados — afirma Aurora.
Para a vice-presidente do grupo Yduqs — do qual a Estácio faz parte — e a presidente do Instituto Yduqs, Cláudia Romano, o compromisso com a inclusão de pessoas refugiadas se constrói por meio de parcerias e de uma atuação educacional consistente.
— Mais do que acolher, assumimos a responsabilidade de garantir o acesso real à educação, ampliando possibilidades de integração, autonomia e futuro. Aprendemos que as pessoas recebidas de outros países são extraordinárias, com talentos, histórias e uma enorme vontade de contribuir. Só preciso de acesso e oportunidade — destaques.
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