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Censo das estátuas do Rio: das 376 personalidades homenageadas, só 6,9% são mulheres e 8,5% negros

Maioria absoluta dos homenageados (93,1%) é composta por homens. Militares e políticos têm destaque, mas nos últimos anos a tendência mudou: artistas passaram a ganhar espaço e obras são, em geral, menores e sem pedestais

Agência O Globo - 22/03/2026
Censo das estátuas do Rio: das 376 personalidades homenageadas, só 6,9% são mulheres e 8,5% negros
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Pergunte aos pombos: a oferta de esculturas ao ar livre no Rio é um colosso. Na ausência de números oficiais, O GLOBO cruzou dados disponíveis em sites alimentados por aficionados pelo tema e chegou a 376 personalidades eternizadas em 440 obras — há várias figurinhas repetidas — que vão desde modestos bustos a estátuas monumentais em bronze, mármore e resina, entre outros. Elas estão em ruas, praças e parques. Em conjunto, ajudam a contar parte importante da História da cidade e do país, seja pela própria trajetória dos homenageados, ou pelas escolhas feitas ao longo do tempo para determinar quem era ou não merecedor da honraria.

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Pérolas da Zona Norte:

Se fizermos, como numa espécie de censo, um primeiro recorte por gênero e raça, o desequilíbrio grita. Em 164 anos de representação de pessoas em esculturas dispostas em locais públicos na cidade — o marco inicial é a estátua equestre de Pedro I, na Praça Tiradentes, inaugurada em 30 de março de 1862 —, são apenas 26 mulheres retratadas, o equivalente a 6,9% do total. A primeira a receber a deferência foi a pianista e compositora Chiquinha Gonzaga (1847-1935) passados 80 anos da homenagem ao primeiro imperador do Brasil. Seu busto, de autoria do escultor fluminense Honório Peçanha (1907-1992), foi instalado no Passeio Público em 1942.

Militares ainda nas ruas

Para que fique clara a discrepância, é importante mencionar o percentual de homens nessa conta: são 93,1%. E geralmente brancos. No país cujo crescimento foi, por séculos, forjado na exploração do trabalho de escravizados, a representação de negros entre homenageados no Rio está na casa de meros 8,5%. São apenas 29 homens e 3 mulheres — Chiquinha Gonzaga entre elas. O número de indígenas é ainda menor, em torno de 1%.

— Há questões ligadas à nossa história colonial e imperial, à ocupação da cidade e às políticas de memória e patrimônio. A demarcação da memória urbana foi moldada a partir de um ideal masculino, branco e das elites, muitas vezes também ligado a figuras militares ou religiosas católicas. Esse imaginário foi consolidado por políticas ativas de produção e conservação da memória. Não se trata apenas de representar o passado, mas de valorizar determinados elementos dele — diz a antropóloga Roberta Guimarães, professora do Departamento de Antropologia Cultural do IFCS/UFRJ.

Crueldade:

A presença de militares entre as esculturas é bastante relevante. São 47 estátuas mapeadas, o equivalente a 12,5%. Entre eles, 11 marechais, sete almirantes, cinco generais e dois brigadeiros. Há ainda os que tiveram mais destaque fora dos quartéis e estrangeiros. Entre os de baixa patente, apenas dois: os marinheiros João Cândido, líder da Revolta da Chibata, promovido a Almirante Negro pelos braços da cultura popular, e Marcílio Dias. Há ainda o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, que homenageia 462 praças mortos no conflito.

A distribuição territorial dos monumentos também diz muito sobre como os espaços da cidade ganharam maior ou menor notoriedade ao longo do tempo. Quando se analisa o número de personalidades homenageadas, a maior parte se concentra no eixo entre as zonas Sul (38,5%) e central (28,4%). Somadas, representam 66,9%. Na Zona Norte são 22,1 %, na Zona Oeste, 8,2% e na recém-criada Zona Sudoeste, 2,8%.

Essa conta leva em consideração o total de esculturas e não o número de homenageados. Isso porque há gente que não cabe numa estátua apenas. O recordista é o presidente Getúlio Vargas: são cinco bustos do ditador do Estado Novo espalhados pela cidade. O mais conhecido, por sua localização e pelo tamanho, é o que fica na Glória, na Praça Luís de Camões. Os demais estão na Penha Circular, na calçada do hospital que leva o nome do político gaúcho; em Benfica; na Ilha de Paquetá; e na Cinelândia. Quando o assunto são os bairros, o Centro é imbatível: são 105 obras. Em seguida vêm Glória (25), Botafogo (22) e Copacabana (21).

Além das 376 personalidades imortalizadas, a cidade também é repleta de imagens religiosas. Algumas delas, embora estejam expostas ao ar livre, nem sempre entram nos catálogos. É o caso da que fica no topo da torre principal da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no Centro. Trata-se de uma Nossa Senhora da Imaculada Conceição — e não do Carmo, como seria fácil supor — instalada no início do século XX após uma reforma conduzida pelo arquiteto italiano Rafael Rebecchi. Não há menção ao autor da obra em bronze. Já no Largo do Machado há outro tributo a Nossa Senhora da Conceição, esse em mármore, na praça desde 1954. Antiga, a peça tem sua autoria atribuída ao genovês Giuseppe Navone (1855-1917).

São mais de 50 as obras públicas na cidade com referências católicas, incluindo muitos oratórios. Só São Jorge tem pelo menos 11 versões. As religiões de matriz africana passaram a ocupar mais espaço. Iemanjá tem quatro obras em exposição pública, sendo a mais antiga de 1976, em Sepetiba, e a mais recente catalogada, de 2016, na Barra.

Alerta aos turistas:

A galeria a céu aberto do Rio não para de crescer. E o que se percebe é que aos poucos o perfil, tanto dos representados quanto da forma como as representações são concebidas, tem passado por transformações. A quantidade de escritores, músicos e outras figuras populares tem substituído o padrão anterior, concentrado em políticos e militares. A escultura mais recente na cidade é a do cineasta Cacá Diegues (1940-2025), inaugurada no Largo da Flora, no Alto da Boa Vista, no início do mês. Executada por Mário Pitanguy, mostra o diretor de “Bye Bye, Brasil” de braços abertos, quase pronto para um abraço.

Essa, aliás, é outra característica que difere as obras contemporâneas das anteriores. Há tempos, os velhos e distantes pedestais sustentando figuras humanas descomunais, como é o caso da estátua que representa Irineu Evangelista de Sousa, o Visconde de Mauá (1813-1889), no Centro, vêm perdendo espaço. No lugar surgem criações em tamanho real (ou quase) instaladas de forma a permitir interação e... fotos, muitas fotos. Carlos Drummond de Andrade sentado num banco na Avenida Atlântica; Tom Jobim caminhando com seu violão em Ipanema; e Clarice Lispector na mureta do Caminho dos Pescadores, no Leme, são exemplos claros dessa tendência.

— A escultura reflete a sociedade. Antigamente era só general, rei, imperador, embaixador... e só homens. Era aquele ser superior, idealizado, em cima de um pedestal e normalmente num tamanho maior do que o natural. Aos poucos ela foi descendo para a terra, para ficar entre as pessoas, entre nós — analisa o escultor Edgar Duvivier, autor da obra que retrata Clarice e cerca de outras 40 que povoam a cidade.

Thiago Gomide:

Ainda este ano uma nova escultura de Duvivier deve ganhar as ruas. Dessa vez será a dramaturga Maria Clara Machado (1921-2001) que ficará bem em frente ao seu Tablado, no Jardim Botânico. Outras três estão no horizonte para 2026. A artista Mazeredo trabalha em uma homenagem ao campeão de voo livre Philip Haegler (1965-2025), a ser instalada em São Conrado, e a prefeitura promete uma grande celebração em vida a Martinho da Vila, na Praça Barão de Drumond, em Vila Isabel, e outra ao também sambista e líder umbandista Tancredo da Silva Pinto, o Tata Tancredo (1904-1979), no Largo do Estácio.

Como se vê, o número de homenageados não para de crescer. O certo é dizer que são 376 e contando... Tem gente que se incomoda.

— É uma grande besteira dizer que o Rio tem muita estátua. O que tem é muita gente tirando fotos com estátuas, descobrindo histórias por meio delas. E eu me pergunto: qual é o problema disso? Há tantos mil outros problemas na frente — diz Duvivier.

Um deles, só para ficar no tema, é a própria conservação das obras, alvos frequentes de vandalismo. O busto do poeta Abai Qunanbaiuly, no Leblon, foi furtado, , no GLOBO. Anteontem, Duvivier recebeu o telefonema de um funcionário da prefeitura dizendo que alguém havia arrancado as mãos da escultura de Betinho (1935-1997) na Praia de Botafogo.

Em seu site, no texto sobre a limpeza da estátua de Zico, em Quintino, que havia sido pichada, a Secretaria municipal de Conservação (Seconserva) informa que no ano passado foram registrados 16 casos de vandalismo desse tipo na cidade. A pasta diz ter R$ 1,8 milhão de orçamento para reparos.

As obras de arte — no fim das contas é isso que são — ajudam os visitantes a conhecer a cidade. O guia de turismo e pesquisador Alex Belchior usa seus conhecimentos a respeito das esculturas nos passeios que conduz. Ele conta que as perguntas sobre representatividade, especialmente por parte de estrangeiros, são comuns.

Reparação:

— Sim, questionam muito, e eu abordo essa questão nos roteiros. Muitas vezes, os visitantes também não têm conhecimento de aspectos básicos da História do Brasil, como o período monárquico. Nem todas as agências oferecem roteiros que aprofundem esses temas, o que seria importante para a formação dos profissionais de turismo — diz.

Trabalho voluntário

Desde 2010, Belchior se dedica a compilar e disponibilizar on-line informações sobre os monumentos da cidade em monumentosdorio.com.br. Nesse tempo, diz, já percorreu por conta própria 66 bairros da cidade para documentar mais de mil obras, entre estátuas e outros monumentos.

— Em 2015, a prefeitura publicou um catálogo físico, que hoje está desatualizado. Atualmente, muitas iniciativas de pesquisa perderam continuidade, mas mantenho meu site no ar — diz.

Outra página que disponibiliza dados bastante completos sobre esculturas do Rio é feita pelo programador Matheus Avellar. No seu monumentos.rio.br estão disponíveis informações sobre 346 monumentos em 50 bairros do Rio. A consulta pode ser feita por categorias e há fotos e uma pequena ficha de cada obra.

Tiros, cueca e beija-mão:

— O número de monumentos no Rio é grande, mas não é infinito. É algo que você pode listar. Comecei o meu projeto em meados de 2023. Envolve muito trabalho de pesquisa, procurar em jornal antigo, fotos antigas. É algo que me diverte. A gente passa pelos monumentos e nem percebe o que tem ali às vezes. Depois que comecei o site, passei a notar tudo. Em qualquer lugar eu fico atento — diz Matheus.

Os sites de Alex e Matheus foram usados pelo GLOBO no levantamento para esta reportagem. O jornal pediu a lista atualizada à Seconserva, mas não houve resposta.