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'A prefeitura do Rio continua aliada do governo federal e do presidente Lula', diz Cavaliere ao comentar sobre críticas que já fez ao presidente

Confira na íntegra a entrevista que o sucessor de Eduardo Paes deu ao GLOBO após sua posse

Agência O Globo - 21/03/2026
'A prefeitura do Rio continua aliada do governo federal e do presidente Lula', diz Cavaliere ao comentar sobre críticas que já fez ao presidente
Eduardo Cavaliere

Depois de o prefeito mais longevo da história do Rio, Eduardo Paes (PSD), deixar o cargo nesta sexta-feira (20) para disputar o governo do estado, Eduardo Cavaliere (PSD) assumiu como o mais jovem que a cidade já teve. Aos 31 anos, o xará e pupilo do antecessor garante que a nova gestão é de continuidade, com as mesmas metas a serem cumpridas até 2028 e definidas no Plano Estratégico do município, mas com novidades no ordenamento urbano. Os agentes da Guarda Municipal (GM) que não forem para a Força Municipal, tropa de elite armada, reforçarão as ações da Secretaria de Ordem Pública (Seop), como a fiscalização do comércio ambulante e o combate ao estacionamento irregular, maior reclamação dos cariocas por meio do serviço 1746. Para inibir os flanelinhas, a ideia é digitalizar o Rio Rotativo, que hoje é pago em dinheiro.

Ao assumir:

Eduardo Cavaliere inicia governo pela Zona Oeste e parafraseia Paes:

Uma crítica ao seu antecessor é que houve falhas na ordem urbana. O que vai mudar?

É óbvio que não está tudo perfeito. A gente tem que continuar avançando. A Secretaria de Ordem Pública (Seop) terá mais foco no ordenamento da cidade, com apoio dos agentes da GM que não forem selecionados para a Força Municipal, que vai absorver 70% do pessoal. Vamos ter cerca de 600 guardas vinculados à Seop. E o outro efetivo vai se concentrar na operação de trânsito. Estamos concluindo essa reformulação.

Hoje a Força Municipal tem 600 agentes, mas a meta é chegar a 4,2 mil até 2028. Isso teria um impacto de R$ 600 milhões na folha de pagamento por ano. Há dinheiro?

Vamos selecionar mais 600 agentes treinados e focados no combate a roubos e furtos, para chegarmos a 1,2 mil agentes até o fim deste ano. Com boa gestão, teremos recursos. Assumimos o compromisso e vamos entregar.

Como os flanelinhas serão combatidos?

Vamos digitalizar o Rio Rotativo, usando a plataforma do Jaé, da mesma forma que o sistema é usado nos ônibus. O valor do tíquete permaneceria em R$ 2 sendo pago por meio da geração de um token referente à vaga. O carioca vai saber que não precisa pagar diretamente a ninguém, acabando com a extorsão. Isso facilitará nossa fiscalização contra os flanelinhas. Os guardadores legalizados, vinculados a sindicatos, vão passar a fiscalizar (se os motoristas pagaram pela vaga) pelo aplicativo.

A principal queixa da população no 1746 é o estacionamento irregular. Há poucos reboques em operação. O que pretende fazer a respeito disso?

Com a reorganização da Seop e da GM, a gente vai ter uma divisão voltada exclusivamente para isso. Pelo perfil da Seop, o uso de informações do 1746 é muito mais eficaz. Vamos em breve detalhar esse plano, mas antecipo que teremos mais agentes e reboques com esse foco.

A previsão é demolir o Elevado Trinta e Um de Março até 2028 como parte do projeto Praça Onze Maravilha. Vai acontecer? Haverá mudanças no Reviver Centro?

Enviamos para a Câmara do Rio o projeto. Ele também prevê mudanças nas regras para construção no projeto Reviver Centro. A ideia é oferecer em contrapartida a quem investir no Centro mais incentivos urbanísticos para projetos na Zona Norte. Há propostas da prefeitura e do mercado nesse sentido que serão analisadas, e vamos aprimorar o projeto de lei. Depois de votado, vamos discutir a questão do elevado.

Enquete:

Os serviços do BRT melhoraram, mas o que esperar das linhas tradicionais?

A principal reclamação da população na campanha pela reeleição em 2024 era a qualidade do serviço prestado pelos ônibus. O primeiro passo para fazer essas mudanças foi ter o controle da bilhetagem eletrônica (a troca do Riocard, controlado pelas empresas, pelo Jaé). (Com as novas licitações) já teremos este ano 500 ônibus novos chegando à Zona Oeste. E vamos chegar a 2028, com toda a frota renovada ou, pelo menos, com os contratos de concessão assinados.

Dados do Sisreg mostram que ainda há filas para exames e atendimentos na rede. A promessa lá de 2020 era zerar. O que fazer?

A gente acaba de inaugurar na Zona Oeste o segundo Super Centro Carioca de Saúde (polo de referência para exames e consultas), em Campo Grande, que era compromisso da campanha. Vamos construir outro na Zona Norte. Além disso, voltamos a ampliar a rede de atenção básica e acabamos de municipalizar dois hospitais federais (Andaraí e Cardoso Fontes) que estão sendo reformados com vários serviços já tendo sido reabertos.

O Plano Estratégico prevê que 70% da população que sofre de obesidade mórbida, 90 mil pessoas, terá tratamento com canetas emagrecedoras até 2028. Como será?

As primeiras doses de Ozempic já foram aplicadas dentro de uma versão ainda em forma de projeto de pesquisa. A gente tem uma licitação para acontecer para dar escala ao programa.

Semana passada, a prefeitura fechou acordo que trocou dívidas do Jockey Club pela antiga sede social na Avenida Almirante Barroso. O que será feito do prédio?

Nossa visão é que ele pode ser uma âncora para revitalizar o Centro do Rio. Ainda faremos um estudo. Mas pode ser hospital, faculdade, shopping. A ideia é fazer uma operação semelhante à que fizemos com o edifício A Noite, na Praça Mauá, que nós adquirimos e revendemos ao setor privado.

Com quais marcas pretende chegar à eleição de 2028?

Não estou pensando na eleição, e sim no dia de amanhã. A mensagem muito clara: represento o projeto apresentado nas urnas em 2024.

Haverá agora a saída de diversos secretários para disputar eleição, entre eles nomes do núcleo duro de Paes. O que pretende fazer?

Todos deixarão seus sucessores na prefeitura. É uma sucessão natural, com continuidade. As políticas vão continuar. Já a sucessão estadual, bem diferente da nossa, está completamente incerta.

Mas pretende, em algum momento, deixar a gestão mais com a sua cara?

A minha cara é a cara do governo Paes, que já era o governo Cavaliere. Fomos eleitos como Paes-Cavaliere, assumo como Paes-Cavaliere e vou chegar a 2028 como Paes-Cavaliere.

O histórico de rompimentos e traições entre aliados no Rio não assusta? Tivemos diversos parceiros de Cesar Maia virando dissidentes, o mesmo com Leonel Brizola…

Tenho total certeza da confiança do prefeito Eduardo Paes em mim. Aqui da cidade do Rio, faremos de tudo para o projeto estadual dele. Com Eduardo Paes governador, tenho certeza de que não haverá terceirização da responsabilidade na segurança pública para os prefeitos e o presidente da República, como há hoje.

O PSD entrou no STJ pedindo até o afastamento de Cláudio Castro por causa do suposto uso da Polícia Civil no caso da prisão do vereador Salvino. Concorda que cabe punição?

Sem dúvida. A cada dia que passa fica mais comprovada a ausência de provas para se justificar uma prisão completamente arbitrária, violenta contra um vereador eleito. Já vimos isso em outros momentos da História do Brasil e sabemos que não dá para aceitar nada que flerte com esse tipo de autoritarismo.

O senhor fez críticas duras ao presidente Lula na última entrevista ao GLOBO. Depois, fez vários acenos. Qual é, afinal, sua visão sobre Lula e o PT?

Não fiz críticas duras. Só disse que sou do PSD, como Eduardo Paes é, e ele é do PT. Obviamente não pensamos tudo igual. O que posso garantir é que a prefeitura do Rio continua aliada do governo federal e do presidente Lula para os projetos que são fundamentais para o Rio. Isso vai ter continuidade. O presidente Lula defende o Rio, e o que sempre cobramos do governo federal é que o governo como um todo precisa fazer mais defesas do Rio, como conseguimos no caso do Galeão.