RJ em Foco
Paes defende 'neutralizar mais 200' para resturar ordem e intensifica críticas a Castro
Prefeito do Rio, que está de saída do cargo para concorrer a governador, tem criticado a gestão do atual ocupante do Palácio Guanabara
O primeiro turno da eleição deste ano está marcado para 4 de outubro. Mas a disputa eleitoral já está a todo vapor entre as autoridades, sete meses antes do pleito. Nesse cenário, o prefeito Eduardo Paes (PSD) — que deixa a prefeitura na sexta-feira, para concorrer a governador — tem usado suas redes sociais e discursos em agendas para enumerar críticas à gestão do atual ocupante do Palácio Guanabara, Cláudio Castro (PL), assim como para adotar um discurso que se aproxima da direita. Nas últimas 24 horas, o prefeito fez pelo menos duas publicações defendendo que a polícia deveria matar bandidos, graças em que aproveitou para alfinetar Castro, que deve concorrer ao Senado Federal.
A primeira publicação de Paes foi feita na tarde de quarta-feira, repercutindo a publicação de uma notícia de que uma carga de carne roubada havia sido levada para dentro do Complexo do Alemão, considerada uma base do Comando Vermelho (CV). O conjunto de favelas, na Zona Norte do Rio, junto ao vizinho Complexo da Penha, foi alvo de uma megaoperação em outubro do ano passado, ação com 122 mortos: cinco policiais e 117 suspeitos.
“Ué!
A publicação, que teve mais de 6 mil curtidas e 418 mil visualizações, termina citando que o governador Cláudio Castro "está aí há oito anos": "Tudo gente com gogó e conversinha de valente, mas sem ação eficaz", descobriu o prefeito do Rio, em postagem que termina com um tom de candidato: "Isso vai mudar". Eleito vice-governador na chapa de Wilson Witzel em 2018 (derrotando Eduardo Paes no segundo turno), Castro assumiu o cargo de governador em maio de 2021, após o impeachment de Witzel. Em 2022, o atual ocupante do Palácio Guanabara foi reeleito no primeiro turno.
Já na manhã desta quinta-feira, a Segurança Pública foi reforçada em pauta na rede social de Eduardo Paes, que disse ter denunciado o fechamento de uma base policial no Morro dos Prazeres em 2024. O gancho para a citação à comunidade é uma operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) que terminou com oito mortos: entre eles, um morador e Claudio Augusto dos Santos, o Jiló, antigo chefe do tráfico local.
"Por que permitiram que esse vagabundo retomasse o território e lá ficasse em paz até o dia de ontem? O território, a ordem e o monopólio da Força do Estado foi retomado ontem ou foi só mais uma operação para enxugar gelo? Qual a estratégia do Governo Castro na Segurança Pública?", questiona Paes, citando os agentes empregados nas operações como "nossos bravos policiais", com "suas vidas colocadas em risco" por não haver "nenhuma estratégia" nas operações, segundo o prefeito.
Além das críticas ao governo estadual atual — de "falta gestão, falta planejamento, falta comando e autoridade" à afirmação de que o "problema é falta de política de segurança" —, Paes ainda voltou a defender a morte de crimes, saindo em defesa dos policiais. “Aliás, chegou a hora de terminar com a hipocrisia tradicional no Rio: se um delinquente ameaça a vida de um agente do Estado ou de um cidadão, só o Estado constituído tem o dever e o direito de neutralizar esse delinquente. Paremos com essa falsa assimetria de tratar policiais como devem ser tratados os delinquentes”, escreveu.
Nesta semana, durante entrevista à imprensa em reunião com o balanço dos dois primeiros dias de atuação da Força Municipal — nome da guarda armada, que o município colocou nas ruas no último domingo, criado no momento em que a segurança pública despontava como a maior preocupação dos brasileiros, segundo pesquisas — o prefeito também defendeu que os agentes da tropa de elite municipal têm direito de "neutralização de um marginal" em caso de "ameaça concreta ao cidadão ou ao agente público".
Nos últimos dias, houve uma escalada nos debates entre Paes e o governo estadual. Até ao parabenizar uma operação contra o tráfico de drogas na Lapa nesta semana, o prefeito do Rio alfinetou a demora até a ação. Segundo disse, dois de seus secretários foram entregues ao Estado um relatório detalhando os pontos de venda de drogas "há cerca de um ano".
O prefeito ainda chamou o Estado do Rio de um “território sem lei e sem autoridade” ao comentar um caso envolvendo o seu secretário de Defesa do Consumidor, João Pires, episódio classificado pelo prefeito como “tentativa de atentado”. A polícia registrou o caso como tentativa de roubo.
Na semana passada, o vereador Salvino Oliveira (PSD) — ex-secretário da Juventude do governo Paes — foi preso. Na ocasião, Cláudio Castro definiu o parlamentar como braço do CV na prefeitura. O parlamentar acabou solto após a Justiça entender que as acusações apontadas pela Polícia Civil eram "precárias". Agora, o PSD, partido de Paes e Salvino, entrou com uma representação no Superior Tribunal de Justiça (STJ) solicitando investigação contra o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), por abuso de autoridade e denúncia caluniosa envolvendo a prisão do vereador.
Além do discurso a favor da “neutralização” de bandidos, Eduardo Paes também faz afagos aos cristãos. O prefeito adicionou à sua biografia no Instagram um trecho bíblico, Mateus 20:26-28, que passa uma mensagem de que qualquer um veio à Terra "para servir e dar a sua vida em resgatar por muitos". O Diário Oficial do município desta quinta-feira, por exemplo, destaca o início das obras do Parque Terra Prometida, em Santa Cruz, espaço temático de 200 mil metros quadrados, inspirado em passagens da tradição judaico-cristã.
Outra iniciativa para essa parte da população foi a inauguração de um batistério público no Méier, em dezembro, espaço que conta com uma bíblia feita em resina e cascata d'água. O local (o Jardim do Méier) é o mesmo em que nasceu a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada pelo bispo Edir Macedo, que participou da conferência por videoconferência. Macedo é tio do ex-prefeito do Rio, Marcelo Crivella. O último Censo aponta que 56,7% dos brasileiros são católicos. A segunda religião com mais adeptos é a evangélica, com 26,9% da população.
Procurado, o Palácio Guanabara não comentou as declarações até a publicação desta reportagem. No último dia 12, após Paes citar a prisão de secretários da gestão de Castro e chamar o governador de ''delinquente'' e ''frouxo'', o governo estadual emitiu uma nota oficial, comentando especificamente a prisão de Salvino Oliveira. Na ocasião, o posicionamento foi seguido por critérios técnicos. "A análise da prisão passou por três esferas diferentes e independentes: Polícia Civil, Ministério Público e Judiciário. Não é decisão de governo, é decisão de Justiça. (...) O Governo do Estado estranha que o prefeito esteja tentando politizar a investigação feita de forma totalmente legal", destacou uma nota.
“A Polícia Civil atua de forma independente e tem como missão combater o crime organizado, inclusive quando há declarações de ligação entre agentes públicos e facções criminosas”, completa a nota emitida pelo Palácio Guanabara há uma semana. "Tentar transformar uma investigação série em narrativa de perseguição política é uma tentativa inaceitável de desviar o foco de fatos graves, apurados pelas forças de segurança."
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