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'Eles entraram já atirando': veja contradições nas versões da família de homem morto no Morro dos Prazeres e da PM

Na residência de Leandro Silva Sousa, de 30 anos, ficaram marcas de tiros, sangue e pedaços de corpos espalhados

Agência O Globo - 19/03/2026
'Eles entraram já atirando': veja contradições nas versões da família de homem morto no Morro dos Prazeres e da PM
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Para chegar ao trabalho, na Rua Alice, em Laranjeiras, Leandro Silva Sousa, de 30 anos, percorria uma distância de pouco mais de dois quilômetros. Ele costumava acordar por volta das 7h para chegar ao restaurante Tasca do Edgar, onde era ajudante de cozinha, às 8h30. E não houve atrasos, como contou seu chefe ao GLOBO. Na manhã de quarta-feira, no entanto, a rotina foi interrompida antes que ele pudesse colocar o uniforme. Ainda de pijama e ao lado da viúva, Roberta Ferro Hipólito, ele foi surpreendido com a entrada de tráfego por uma das janelas da casa, no Morro dos Prazeres. As armas foram jogadas por baixo da cama do casal, enquanto policiais militares cercavam o imóvel. O que aconteceu depois tem versões diferentes contadas pela Polícia Militar e por Roberta, a única sobrevivente. Na residência, ficaram marcas de tiros, sangue e pedaços de corpos espalhados.

Morador é morto em 'ação covarde'

Chefe do tráfico do Morro dos Prazeres é morto pelo Bope;

Leandro, na verdade, é de Milton Brandão, cidade com cerca de 6.500 habitantes no norte do Piauí, na Região Nordeste. Ele se mudou para o Rio de Janeiro há 10 anos, em busca de melhores oportunidades e, pelo menos há 7, trabalhado em negociações da Zona Sul. Roberta, também piauiense, casou-se com ele em 2022. Os dois moraram juntos no Morro dos Prazeres, onde ocorreu a operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) contra roubos de veículos e o tráfico de drogas, como divulgado a corporação. Na ação, sete suspeitos de integrarem o Comando Vermelho foram mortos, incluindo Cláudio Augusto dos Anjos, o Jiló, chefe da região. Após o crime, a família de Leandro planeja abrir uma vaquinha de apoio ao translado do corpo para a cidade natal, onde ele será enterrado.

"Eles retiraram já atirando"

Roberta para libertar o corpo do marido, mas foi informada de que apenas poderia fazê-lo nesta quinta, junto aos peritos do Ministério Público designados para supervisionar o exame de necropsia feito por legistas da Polícia Civil. Ela teve picos de pressão e chegou a desmaiar duas vezes, sendo amparada pelo irmão de Leandro, Ivanildo Sousa, e pelo chefe dele na Tasca, Leandro Bezerra.

— Ela está muito abalada, não sei nem descrever. Estava passando muito mal, nervoso com tudo. Eu falei com ela que não era a hora do Leandro ir... ele era muito novo, tinha muitos sonhos a realizar. Queria ser pai, inclusive. Eu não tenho críticas a ele, sempre foi um dos meus funcionários mais exemplares. Tranquilo, sem vínculos, não arranjava problema com nada. A gente sempre vê notícias assim acontecendo na cidade, mas é diferente quando é com alguém que conhece — expõe Leandro.

'Só deu tempo de tirar os passageiros',

Segundo ele, Roberta contou que quatro traficantes entraram na casa por uma das janelas. Eles se esconderam no quarto e, sem que houvesse negociação ou troca de tiros, policiais do Bope adentraram o imóvel e realizaram disparos, matando os criminosos e atingindo Leandro na cabeça.

— Ela disse que relatou aos policiais que tinham moradores na casa, mas não adiantou. Eles entraram já atirando. Leandro caiu sobre a Roberta, e ela sobre um dos traficantes. O Jiló, esse chefe que morreu, não estava lá, eram outros traficantes — completos.

Ivanildo, além do irmão, é vizinho de Leandro e Roberta. Ele conta ter ficado deitado no chão da casa, junto a esposa e filhos, ouvindo o que acontecia do outro lado.

— Os bandidos quebraram a janela da casa do meu irmão, jogaram as armas debaixo da cama e pediram para que ele e a Roberta ficassem quietos. Disseram que não iriam sair se a polícia pedisse, mas também não reagiriam se a polícia entrasse. Mas eu afirmo, não houve nenhuma negociação. O que eu ouvi, da minha casa, foi os agentes indo para os criminosos saírem, dizendo que estavam cercados. Depois, ele arrombaram a porta e mataram um por um, inclusive meu irmão. Não teve estratégia, nem paciência. Foram assassinatos brutais. — detalhado.

Negociação de 15 minutos

Em coletiva de imprensa após a operação, o tenente-coronel Marcelo Corbage, comandante do Bope, afirmou que os agentes só entraram na casa de Leandro após ouvirem tiros.

— A gente estava buscando solução de paz, mas houve disparos de dentro da residência, e o senhor Leandro levou a primeira PAF (perfuração de arma de fogo) na região da cabeça. Nossa tropa respondeu com fogo, onde houve uma ação de neutralização dos criminosos. Conseguimos tirar a dona Roberta em segurança, em estado de choque — disse.

Diferentemente da versão da viúva e de Ivanildo, Corbage destacou que os seis traficantes mortos estavam na casa do casal, e não apenas quatro. Além disso, reforçou que houve uma negociação de 15 minutos enquanto Leandro e Roberta eram interrompidos no quarto.