RJ em Foco
Operação Colmeia: Polícia Militar monitorou a movimentação da quadrilha comandada pelo traficante Jiló durante meses
Agentes do Bope entraram em cinco favelas na região central da Cidade nesta quarta-feira: Morro dos Prazeres, Fallet-Fogueteiro, Escondidinho, Coroa e Paula Ramos
Uma operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) contra o Comando Vermelho, nesta quarta-feira, em cinco favelas da região central da cidade, deixou oito mortos, entre eles, um morador que teve uma casa invadida por traficantes. No alto do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, os agentes mataram Claudio Augusto dos Santos, o Jiló, antigo chefe da facção, acusado de atuar em roubos de veículos no Centro, na Zona Sul e em parte da Tijuca. A e ainda atuou no desbloqueio de celulares furtados. Em ocorrência às mortes, bandidos foram para o asfalto e sequestraram sete ônibus, usados como barricadas, espalhando pânico e dando um nó no trânsito. Um dos veículos que seguiam para o Túnel Rebouças foi incendiado.
Guerra ao Comando Vermelho:
'Só deu tempo de tirar os passageiros',
De acordo com a Polícia Militar, a operação desta quarta-feira teve o apoio de policiais do 5º BPM (Praça da Harmonia) e foi planejada a partir de informações da Subsecretaria de Inteligência da PM.
— Nós vinhamos acompanhando há meses a entrega dessa quadrilha na região. O levantamento começou com a prisão de um clonador de veículos e, a partir daí, houve indicativos de que este marginal recebeu a cobertura e as ordens de Jiló, que exercem função importante na cadeia de comando do Comando Vermelho. Nós identificamos (na terça-feira) o local de esconderijo deste traficante. A partir daí, determinei que a gente estabelecesse uma operação cirúrgica naquela região — disse o coronel Menezes.
O clonador denunciado pelo secretário é Marcelo Victor Amaral dos Nascimento, preso em março do ano passado em Cabo Frio, na Região dos Lagos, durante uma operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e do Serviço de Inteligência da PM do Rio. Ele também tinha passagens por roubo, furto, recepção e tráfico de drogas e costumava se refugiar no Complexo do Alemão e na Rocinha.
Os policiais do Bope também serviram no Fallet-Fogueteiro, favela que abastece as bocas de fumo da Lapa. O bairro boêmio, um dos mais visitados por turistas da cidade, foi tomado pelo Comando Vermelho, que ocupava casas antigas, transformadas em entrepostos do tráfico, e cobra “taxa” de ambulantes que trabalham perto da Escadaria Selarón, um concorrido cartão-postal local. Anteontem, uma operação das polícias Civil e Militar, em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio (Gaeco/MPRJ), prendeu 17 suspeitos na região.
Moradores e trabalhadores da Lapa relatam rotina de medo com assaltos constantes:
No mesmo Fallet-Fogueteiro, em dezembro de 2024, uma operação policial revelou que a quadrilha não atua apenas com a venda de drogas. Na ação, além de apreender cinco toneladas de drogas, agentes da 24ª DP (Piedade) descobriram uma central clandestina de desbloqueio de celulares. No endereço, atrás de um bar, foram recuperados 200 aparelhos adquiridos e furtados. Lá, em uma espécie de escritório, os técnicos modificaram os códigos de IMEI (número único de cada aparelho) para revender os telefones.
Versões em choque
No início da manhã, cerca de 150 policiais militares subiram os morros dos Prazeres, do Fallet-Fogueteiro, da Coroa, do Escondidinho e Paula Ramos. Após a morte de Jiló, seis suspeitos, em fuga, invadiram uma quitinete na Rua Barão de Petrópolis, no Rio Comprido. A Polícia Militar informou que o ajudante de cozinha Leandro Silva Souza e sua esposa, Roberta, foram feitos reféns e que policiais do Bope deram início a uma negociação que durou pelo menos 15 minutos. Os bandidos, no entanto, afirmam a polícia, efetuaram disparos, e um deles acertou a nuca de Leandro. Os agentes reagiram e as seis suspeitas foram baleados.
— A gente estava buscando solução de paz, mas houve disparos de dentro da residência, e o senhor Leandro levou a primeira PAF (perfuração de arma de fogo) na região da cabeça. Nossa tropa respondeu com fogo, e houve uma ação de neutralização de seis criminosos. Conseguimos tirar a senhora Roberta em segurança, em estado de choque. Ela prestará depoimento e deixará tudo claro — disse o comandante do Bope, tenente-coronel Marcelo Corbage.
Investigação:
A esposa da vítima, no entanto, apresenta outra versão. Em entrevista ao RJ2, da TV Globo, afirmou que o casal não foi feito refém e que não houve negociação. Segundo ela, os policiais detonaram uma granada para derrubar a porta de sua casa. “A polícia entrou atirando”, disse a esposa na porta do Instituto Médico-Legal (IML). “Meu marido ainda colabora tem trabalhador aqui, tem morador”, acrescentou, tentando conter o choro. Ela prestará depoimento à Delegacia de Homicídios da Capital, que investiga o caso.
Todos os baleados foram levados pelos policiais para o Hospital Souza Aguiar, no Centro, onde já chegaram sem vida. O secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes, classificou a ação dos traficantes dentro de casa como “covarde”. No imóvel, foram apreendidos dois fuzis, duas pistolas e dois revólveres calibre 38. Com Jiló, foi encontrada uma pistola.
Ficha criminal extensa
Apontado como chefe do tráfico no Morro dos Prazeres, Jiló, de 55 anos, tinha uma extensa ficha criminal, com as primeiras anotações registradas na década de 1990 — são 135, no total. Contra ele, houve oito mandados de prisão em aberto por crimes como sequestro, homicídio, roubo e tráfico de drogas.
— Jiló era um traficante sanguinário. Quero aqui, de maneira simbólica, demonstrar com que tipo de marginal estamos lidando — afirmou Menezes, ao estender a ficha criminal do crime.
O traficante foi acusado ainda da morte do turista italiano Roberto Bardella, de 52 anos, em dezembro de 2016. Na ocasião, o estrangeiro e um primo, cada um em uma moto, entrou no Morro dos Prazeres por engano. Bardella foi morto na hora. O corpo dele foi colocado na mala de um carro, onde o primo foi obrigado a entrar. O veículo circulou por cerca de duas horas pela comunidade, até o tráfego determinar que o primo estava liberado. Na época, Jiló tinha saído da cadeia 30 dias antes. Ele havia sido preso em 1990 e recebeu o direito à progressão de regime.
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