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'Ela era luz e alegria', diz amigo no velório de médica morta durante uma perseguição policial na Zona Norte

Colega há mais de dez anos e escolhido como porta-voz da família, o anestesiologista Armando Novais destacou a dedicação de Andrea à profissão e pediu esclarecimentos sobre as circunstâncias da morte

Agência O Globo - 17/03/2026
'Ela era luz e alegria', diz amigo no velório de médica morta durante uma perseguição policial na Zona Norte
Andrea Marins Dias - Foto: Reprodução / Instagram

O velório da médica Andrea Marins Dias, no Rio, reuniu parentes e amigos na tarde desta terça-feira no Cemitério da Penitência, na Zona Norte. A família estava mais reclusa e preferiu não falar com a imprensa. Coube ao anestesiologista Armando Novais, que por mais de dez anos acompanhou Andrea pelas salas de cirurgia e acabou virando amigo, falar sobre ela, a quem descreveu como um ser “de luz e alegria” e cuja morte definiu como a de “uma pessoa da família”. Ele também pediu que as investigações esclareçam o caso. As apurações sobre o caso estão a cargo da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC). Procurada, a Polícia Civil disse que não tem nenhuma atualização para divulgar e que as investigações seguem em andamento.

Entenda:

Mais sobre:

— Era uma pessoa muito viva, tinha luz, energia e dedicada ao outro. A morte dela foi uma catástrofe, algo ainda difícil de compreender. É como perder uma pessoa da família — afirmou Novais, que realizaria mais uma cirurgia ao lado de Andrea na próxima sexta-feira.

O médico afirmou que amigos e familiares aguardam esclarecimentos sobre as circunstâncias da morte e defendem que eventuais falhas na ação policial sejam apuradas. Sem atribuir responsabilidade direta, ele disse que a prioridade, neste momento, é entender o que aconteceu.

— Todo mundo quer justiça. É o que as pessoas de bem buscam. Não posso acusar ninguém, não sou investigador. Mas, se teve um erro, que seja corrigido. E que a verdade venha à tona — concluiu o amigo.

Ele relata que os pais de Andrea, ambos em idade avançada, eram cuidados de perto por ela. Agora, amigos e familiares já se mobilizam para não os deixar desamparados. Assim como a filha dela, que ainda está na faculdade.

Câmeras dos PMs estavam descarregadas

Há pouco, a Polícia Militar do Rio confirmou ao GLOBO que, de acordo com as análises preliminares dos setores técnicos da corporação, foi identificado que as baterias das câmeras corporais utilizadas pela equipe estavam descarregadas no momento da ocorrência. Segundo a nota, esses fatos seguem sob apuração e os policiais seguem afastados dos serviços nas ruas.

"Existem normas rígidas que determinam que os policiais, ao perceberem que há qualquer tipo de falha ou mau funcionamento das câmeras, devem regressar à unidade de origem para substituição dos equipamentos", diz um trecho do documento.

'Não vai sair? Vai tomar! Vai morrer aí dentro!'

A médica foi vista voltando em alta velocidade à rua onde moram seus pais, de onde havia saído pouco antes. Segundo relatos de moradores e comerciantes da região, os agentes teriam efetuado mais de dez disparos antes de retirar a médica já sem vida de seu carro, um Corolla Cross. As informações foram obtidas pelo GLOBO junto a testemunhas que preferiram não se identificar.

— Foram mais de dez de disparos. Antes, deu para ouvir a polícia dizendo: 'Não vai sair? Vai tomar! Vai morrer aí dentro!' — relatou um comerciante.

Imagens mostram o momento em que policiais militares cercam o carro da médica e chegam a bater com um fuzil na porta do motorista. Ao abrirem o veículo, os agentes encontraram o corpo de Andrea no banco do motorista. Uma testemunha também registrou em vídeo a abordagem: “Desce, irmão! Vai morrer! Vai morrer, irmão, desce!”, grita um dos policiais.

Em São Gonçalo:

De acordo com o relato dos policiais do 9º BPM, a equipe fazia um patrulhamento de rotina quando foi informada por um pedestre de que ocupantes de um Corolla Cross faziam assaltos na região. Os PMs começaram a buscar pelo carro. No cruzamento das ruas Araruna e Cupertino, eles viram um Jeep Commander, um Corolla Cross e uma motocicleta.

Os veículos, segundo os policiais fluminenses, fugiram com a chegada da viatura. Os PMs afirmam que deram uma ordem de parada e que os ocupantes dos veículos, então, atiraram contra eles. Houve confronto, segundo os agentes.

Após rebocar ônibus da Prefeitura do Rio em Mesquita:

O Corolla Cross seguiu pelas ruas Eufrásio Corrêa, Columbia, Goiás, Cupertino, Mendes e, no início da Rua Palatinado, a poucos metros da casa dos pais, de onde ela teria saído pouco antes, parou. O automóvel passou por uma perícia.

Na segunda-feira, durante a visita da reportagem, uma patrulha da PM estava estacionada na entrada da via em que Andrea foi morta.

Em vídeo:

Mais cedo, ela teria passado em uma padaria para comprar um refrigerante. Segundo moradores, a médica seguia para a casa dos pais para um almoço de domingo. Vizinhos afirmam que Andrea cuidava sozinha dos dois, ambos idosos.

A PM destacou que os policiais que faziam parte da equipe envolvida na perseguição portava câmeras corporais. "Os dispositivos e as armas utilizadas pelos agentes estão à disposição do procedimento investigativo pela Polícia Civil", diz a nota da corporação.