RJ em Foco
Mãe diz que filha sofreu racismo em escola particular; colega recusou lanche tocado por menina alegando estar 'contaminado'
Aluna de dez anos já havia sido alvo de comentários vexatórios sobre a cor da pele e seu cabelo. Caso foi registrado na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância
A jornalista Aída Barros comparou a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) nesta segunda-feira para abrir um boletim de ocorrência após sua filha de dez anos ter sido, segundo ela, mais uma vez vítima de racismo por colegas do Colégio Elite, em Madureira, na Zona Norte. Segundo a mãe, foi o terceiro caso desde o ano passado, quando a menina ingressou na unidade, onde cursa o 5º ano do ensino fundamental. Ela acusa a escola de omissão.
Os dois primeiros casos, ambos relacionados ao cor e ao cabelo da menina aconteceram no ano passado. Da primeira vez, em agosto, uma aluna relatou que três coleguinhas fizeram comentários vexatórios a respeito de seu cabelo, chamado de “horrível” e de “ninho”. No mês seguinte, durante uma atividade em que foram distribuídas viseiras com o tema do Dia da Independência, um colega teria dito aqui que o elástico do adereço não coube na garota por conta do cabelo dela.
O caso mais recente aconteceu no começo do mês, pouco tempo depois do início do ano letivo. A menina relatou à mãe que um colega teria dito que não comeria o seu lanche porque ela havia tocado na lancheira dele que, por esta razão, estaria "contaminada". A Aída, que relatou a situação num vídeo em sua rede social, interpretou o episódio como mais um caso de racismo contra a filha.
— Eu percebo que cada vez que acontece um caso de racismo com a minha filha é mais violento. No dia que isso aconteceu (o terceiro episódio) eu conversei com ela. Disse que sentia muito, que ela era uma criança especial, não merecia estar passando por aquilo e prometi a ela que iria fazer alguma coisa — afirmou a mãe.
Aída contou que sua filha é uma das poucas alunas negras da turma, sendo a única com cabelo natural e com estilo preto. Por isso, acredita ser ela o único alvo dos colegas. O jornalista contou ainda que relatou os dois primeiros casos à direção e se colocou sempre em posição de parceira, chegando a proporção de ajuda para montar um projeto pedagógico antirracista para escola. Ela disse ter sugerido para a tarefa uma amiga, que enviou um orçamento para uma instituição de ensino, mas esta alegou não ter verbalizado para levar a iniciativa futura.
Depois disso foram realizadas reuniões, sendo que na primeira, de forma virtual, ela foi a única responsável que participou. Outra medida adotada pela escola foi convidar um policial militar para conscientizar os alunos de que racismo é crime. Aída disse não ter procurado os pais dos estudantes responsáveis pelos ataques à filha por entender que a escola deveria adotar iniciativas de conscientização, como a implementação da Lei 10.639/2003 (que estabelece a obrigatoriedade do ensino de "história e cultura afro-brasileira" dentro das disciplinas que já fazem parte das séries curriculares dos ensinos fundamental e médio).
Ela afirmou que a filha reagiu pior aos dois primeiros casos de racismo, tendo inclusive se tornado agressivo com os colegas. Ela conta que com apoio profissional e da família, a menina conseguiu superar. Apesar desses episódios, Aída não pretende tirar a menina da escola. Pelo menos não por enquanto.
—Mantenho minha filha nessa escola porque sou uma mãe solo com uma rede de apoio reduzida e, dentro da minha logística e situação financeira, é a que atende às minhas condições — diz.
Aída acrescenta que seu desejo é colocar a filha no Colégio Pedro II ou na Escola Maria Felipa, unidade localizada em Vila Isabel e reconhecida por seu ensino afro-referenciado.
—Enquanto eu não consigo uma outra situação ideal para minha filha, um mantenho na escola. Até porque eu acho que não é ela que tem se mexer. É uma estrutura que tem de se movimentar. O sistema que tem que se mexer e não minha filha sair correndo porque sofreu racismo — diz acrescentando que vai continuar lutando para que a filha possa existir na plenitude dela, "com o cabelo que ela tem, com essência e a cor da pele dela". —Não vou prejudicar minha filha no início do ano letivo porque ela sofreu racismo numa escola que não sabe o que fazer com a situação.
No boletim de ocorrência, apenas a escola é responsabilizada. O caso foi registrado como fato atípico tendo como motivo presumível intolerância étnica, racial ou de cor.
A escola foi procurada, mas preferiu se manifestar através da assessoria de imprensa, que encaminhou nota lamentando o ocorrido e reafirmando seu "compromisso com uma educação pautada no respeito e no combate a qualquer forma de discriminação".
A nota diz ainda que todas as situações reportadas foram tratadas com seriedade e imediata atuação da escola, "com aplicação das medidas disciplinares previstas em regimento, acolhimento dos estudantes e contato com as famílias." Nenhum caso ocorreu no ano passado a escola diz ter acionado o Conselho Tutelar, "diante da gravidade do episódio", além de ter implementado medidas pedagógicas, incluindo encontro com famílias e ações de conscientização com os alunos atendidos ao respeito à diversidade.
Veja, a seguir, a íntegra da nota do Elite
A Elite Rede de Ensino lamenta profundamente os episódios relatados e reafirma seu compromisso com uma educação pautada no respeito e no combate a qualquer forma de discriminação. Todas as situações reportadas foram tratadas com seriedade e atuação imediata da escola, com aplicação das medidas disciplinares previstas em regimento, acolhimento dos estudantes e contato com as famílias. No caso ocorrido em 2025, além de acionar o Conselho Tutelar diante da gravidade do episódio, a instituição implementou medidas pedagógicas, incluindo encontros com famílias e ações de conscientização com os alunos voltados ao respeito e à diversidade. A Elite segue promovendo ações contínuas sobre o tema e permanecendo à inteira disposição da família e das autoridades para esclarecimentos.
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