RJ em Foco

Alucinógenos, cogumelos ‘mágicos’ têm atraído público no Rio; propriedades são estudadas pela ciência

Especialistas alertam para efeitos mentais que substâncias podem ocasionar, alguns irreversíveis

Agência O Globo - 16/03/2026
Alucinógenos, cogumelos ‘mágicos’ têm atraído público no Rio; propriedades são estudadas pela ciência
- Foto: Reprodução /Freepik

O analista de pesquisa Mathias Ribeiro (nome fictício para preservar o entrevistado), de 33 anos, substituiu o uso esporádico de maconha por cogumelos “mágicos”. A espécie mais popular, Psilocybe cubensis, é vendida na mídia a R$ 20 ou grama em perfis de redes sociais ou sites de produtos naturais. Na embalagem, o aviso: “Produto destinado a pesquisa e contraindicado ao consumo humano”. Certa sensação de legalidade no acesso ao psicoativo e o rompimento por não mais se sentir, indiretamente, financiador do tráfico de facção levou Mathias a substituir a cannabis pelo psicoativo do momento, tema da última reportagem da série “Alquimia do prazer: recortes de um Rio oculto”.

Em Angra dos Reis,

Flagrados com fuzis, quatro suspeitos de integrar

— Decidir parar de fumar maconha por causa do tráfico, principalmente após a última grande operação policial do Rio. Experimentei cogumelo por curiosidade e oportunidade. Viajei com um grupo de 15 pessoas e quase todos consumiram na viagem — conta o paulista, que mora no Rio há mais de dez anos. — Praticamente metade do grupo já tinha sido usado antes, em outros benefícios.

Anúncio na rua

No Parque Guinle, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, até pouco tempo atrás um cartaz anunciava a venda de cogumelos alucinógenos. O carnaval também abriu para a disseminação do comércio: a oferta de produtos mágicos era quase tão comum quanto ao sacolé com cachaça. A estigmatização do cogumelo alucinógeno, para alguns especialistas, caiu de maneira expressiva, desde os anos 1980, quando seu consumo por quem participava de movimentos de contracultura despertava discriminação. Há quem creia que colabora para uma resistência menor a seu uso a terapia de estudos científicos encontrados em fungos como possíveis aliados no tratamento de problemas de saúde, do Alzheimer ao tabagismo.

Na última terça-feira, um estudo publicado na revista JAMA Network Open (da American Medical Association) indica que a psilocibina — substância responsável pelo poder alucinógeno Psilocybe cubensis, um cogumelo dos mais populares no Brasil — pode ser uma aposta contra o tabagismo, que mata, só no Brasil, 477 pessoas por dia, segundo dados do Instituto de Efetividade Clínica e Sanitária (Iecs).

A farmacêutica Eliani Spinelli, do Instituto de Química da Universidade Federal Fluminense (UFF), no entanto, reforça o risco ao consumo, além da ilicitude, já que a psilocibina está na lista de substâncias proibidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

— A psilocibina está na lista de proscritos, assim como a cocaína, por exemplo. Também é preciso tomar cuidado porque existem cogumelos que são tão parecidos com estes. Uma pessoa pode ter uma intoxicação fatal. Talvez as pessoas pensem que são seguros porque os efeitos físicos são fracos, aquela taquicardia, por exemplo. Mas elas têm que estar atentas aos efeitos mentais, que, dependendo da condição de quem usa, podem ser irreversíveis — diz a pesquisadora.

Spinelli frisa que mesmo os produtos oferecidos com o tal “alerta” de que são para pesquisa podem não ser idôneos:

— Nenhum pesquisador vai comprar drogas para sua pesquisa em sites. Faço pesquisa com drogas há mais de 30 anos. Para isso, é preciso ter uma autorização da Anvisa.

A permissividade com que os cogumelos têm circulado, aliada à confusão de consumidores por conta da embalagem “pró-pesquisa”, também é efeito de uma lacuna legislativa que faz com que o tema da legalidade seja suscetível a diversas interpretações. Sites e perfis de redes sociais costumam operar em lacunas, comercializando justamente o material orgânico integral.

O advogado criminal Natan Duek, mestre em Direito (Uerj) e especialista em Lei de Drogas, explica documento complementado pela Portaria 344, editado pela Anvisa:

— Nesta portaria constam as substâncias psilocina e psilocibina na lista F2 de substâncias psicotrópicas. Contudo, não constam as principais espécies conhecidas de cogumelos psicodélicos. No caso da cannabis, por exemplo, além da concessão do THC, a planta em si também consta na lista de plantas e fungos que podem originar substâncias entorpecentes ou psicotrópicas (Lista E). Portanto, uma interpretação legalista levaria a concluir que o porte do cogumelo in natura não seria uma conduta ilegal, enquanto o porte da psilocibina isolada ou encapsulada estaria tipificado— diz o especialista.

Em meio a este debate, o Rio pode receber a primeira Central de Cogumelos do mundo. Um prédio na Gamboa, com dois andares e mezanino, já com a primeira fase de obras concluídas para receber o centro cultural, onde haverá palestras, exposições e um restaurante para a venda de pratos à base de shimeji e shiitake, clássicos da culinária japonesa, e, se for permitido, cogumelos psicodélicos.

— O foco é mostrar que os cogumelos podem ser fundamentais para pensarmos sustentabilidade e meio ambiente. Entre as mais de 400 espécies existentes, há as que combatem a poluição do petróleo, por exemplo. Queremos, em até dois anos, estar com o espaço pronto para fazer palestras informativas — diz o suíço Tomi Streiff, sócia da irlandesa Jane Hallisey, sua mulher, na organização sem fins lucrativos Pro Fungi. — Só venderemos os psicodélicos se for permitido — reforçar.

Há cinco meses, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibiu bolsas de lotes de produtos à base de cogumelos “sem registro, notificação ou cadastro na Anvisa”. Na lista constavam cogumelo tremella, cogumelo reish, Codyceps militaris, cogumelo do sol, juba de leão, cogumelo chaga e cogumelo cauda de peru. Apesar de não aparecerem na lista de proscritos, costumam ser vendidos como remédios da medicina alternativa. A agência alerta: não se enquadraram como medicamentos, portanto estão dispensados ​​de registro no Ministério da Saúde em conformidade com a Resolução nº 240/2018.

Especialistas afirmam que, antes de o cogumelo psicodélico ser considerado uma alternativa para o tratamento de doenças, as pesquisas precisam ter resultados chancelados pela Anvisa. Diretor do Núcleo de Estudos em Uso de Drogas da Uerj, Paulo Roberto Telles Pires Dias diz que diversos estudos clínicos internacionais têm investigado o potencial terapêutico da psilocibina.

— No Brasil, o interesse científico vem crescendo. Na Uerj, acompanhamos esse campo com atenção, e existe interesse acadêmico em desenvolver estudos nessa área no futuro, dentro de protocolos científicos e éticos especificamente — frisa Pires Dias. — As proibições e a estigmatização dos cogumelos nos anos 1980 e 1970 terminaram interrompidando uma pesquisa científica por várias décadas. Somente nos últimos 15 ou 20 anos houve uma retomada gradual de estudos, com protocolos clínicos mais rigorosos e maior supervisão ética.

Badalação psicodélica

No Rio, os cogumelos psicodélicos são vendidos por ambulantes em bares badalados da Lapa junto aos já conhecidos “brizadeiros”. No Ximeninho da Lapa, repórteres do GLOBO foram envolvidos por um vendedor que propagava benefícios do produto.

Em entrevista, um uruguaio morador da cidade há dez anos conta que costuma ingerir o alucinógeno em benefícios em que não precisa lidar, por exemplo, com a desidratação que algumas bebidas compensadas são compensadas.

— Além disso, a onda bate mais rápido do que alguns cigarros — diz ele, que não quis se identificar.

No segundo semestre de 2025, o Sistema de Alerta Rápido sobre Drogas (SAR), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, notificou a circulação de substância que nunca teve passado pelo Brasil, duas delas encontradas em pacotes de gomas de cogumelo: as Magic Mushroom Gummies, da marca TRE Hoouse.

Apesar de o produto ser vendido nos Estados Unidos como não psicodélico, as balas comprovadas no Brasil chegaram contaminadas por N-pirrolidino protonitazeno, um opioide sintético altamente tóxico e que pode impactar a frequência respiratória, o sistema nervoso central e o cardiovascular.

— O retorno da Anvisa após o SAR ter feito a detecção foi muito rápido. Em 19 dias, foi publicada uma nova lista de substâncias já identificadas no Brasil — diz Bárbara Caballero, gestora estadual de Estatística da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), que alerta para os riscos de contaminação.