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Atendimentos a vítimas de tiros nas emergências municipais do Rio cresce 66%

Hospitais da Prefeitura do Rio atenderam 1.840 feridos por arma de fogo em 2025

Agência O Globo - 15/03/2026
Atendimentos a vítimas de tiros nas emergências municipais do Rio cresce 66%
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Sete meses após ser baleado enquanto trabalhava, Valério de Souza Júnior ainda convive com as sequelas do tiro que atingiu seu tornozelo direito. Ele fazia uma de suas últimas entregas na noite de 30 de agosto do ano passado quando o policial penal José Rodrigo da Silva Ferrarini desceu armado do apartamento e disparou contra o motoboy, que se recusara a subir até o imóvel para entregar o lanche. Levado ao Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, Valério foi um dos 1.840 baleados atendidos nos hospitais municipais do Rio em 2025 — um aumento de 66% em relação ao ano anterior. Somente este ano, já são 315 vítimas.

Perfil das vítimas

Segundo dados inéditos da Secretaria Municipal de Saúde, 83% dos baleados atendidos nas emergências cariocas são homens entre 20 e 40 anos. Mais da metade dos casos envolve moradores da Área de Planejamento 5.1 (como Realengo, Bangu e Padre Miguel) e da Área de Planejamento 3.3 (como Costa Barros e Pavuna), esta última marcada por uma disputa entre facções pelo controle das favelas locais.

Esses dados não integram o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. Outro painel recém-lançado traz os números de amputações na cidade: desde 2024, 19 vítimas da violência armada perderam alguma parte do corpo.

Consequências físicas e emocionais

Além das marcas físicas, Valério relata as dificuldades para retomar a rotina de entregas:

— A psicóloga da plataforma me ajudou a enfrentar o medo e voltar à ativa. Nos primeiros dias, sentia paranoia de sofrer retaliação — conta.

O médico chegou a questionar Valério sobre sua fé, ao destacar que o projétil passou a menos de um centímetro de uma veia importante, o que quase resultou na perda do pé.

Na semana passada, o acusado do disparo foi condenado a cinco anos e quatro meses de prisão, além da perda do cargo público. No processo, a defesa alegou legítima defesa.

Procurada, a Secretaria de Administração Penitenciária informou não ter sido oficialmente notificada da decisão e acrescentou que há um processo administrativo em andamento contra o policial penal na Corregedoria.