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Antigos sobrados, casarões e salas comerciais da Lapa são ocupados por artistas plásticos para montar seus ateliês

Bairro reconhecido pela vocação para a boemia e como berço do samba tem registrado um movimento crescente da chegada de artistas de diferentes tendências e gerações

Agência O Globo - 15/03/2026
Antigos sobrados, casarões e salas comerciais da Lapa são ocupados por artistas plásticos para montar seus ateliês
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A Lapa, reconhecida por sua vocação para a boemia e como berço do samba, também está se tornando celeiro das artes visuais. Na região, onde uma obra de arte pública —a escadaria Selarón— se transformou num dos pontos turísticos mais concorridos da cidade, é crescente o movimento de ocupação de antigos sobrados, casarões e salas de prédios comerciais por ateliês e galerias, que abrigam trabalhos de artistas de diferentes tendências e gerações. São ao menos 12, somente nas ruas Joaquim Silva, Teotônio Regadas, Morais e Vale e Sílvio Romero, além da própria escadaria. A esses espaços se somam os existentes nos vizinhos bairros da Glória e Santa Teresa, formando uma espécie de nascente distrito artístico local.

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— A Lapa sempre teve uma cena de ateliês, mas agora eu acho que ela é mais numerosa e articulada — avalia Raul Mourão, um dos pioneiros naquela região.

Mourão, em parceria com Cabelo, também artista plástico como ele, ocupa o número 71 da Rua Joaquim Silva. O prédio de quatro andares funciona como misto de galeria, ateliê, centro cultural e pista de dança. No térreo, abriga o coletivo Rato. O projeto, que está completando uma década, proporciona aos jovens artistas a oportunidade de mostrar suas obras.

É o caso de Matheus Ribs, de 31—cujo ateliê fica no quarto andar do número 26 da Rua Teotônio Regadas. Foi lá que Maxwell Alexandre realizou sua primeira exposição. Marcela Cantuária também já expôs no local, que recebeu ainda trabalhos de nomes consagrados como Luiz Zerbini e Carlos Vergara.

Uma vez por mês, o espaço abre as portas para exposições, animadas por DJs e muita música, bem ao estilo descontraído da Lapa. A mostra de Vergara, por exemplo, que teve como tema o Cacique de Ramos, foi embalada pelo clarinetista Dirceu Leitte e do cantor Moyseis Marques.

— A gente convive com os contrastes desse lugar denso, com suas belezas e contradições. Estamos abertos a dialogar com isso e trazer o nosso benefício através da arte. Sem idealismo, mas com alegria — diz Cabelo.

Matheus Ribs, que ganhou notoriedade ao ter um dos trabalhos censurado em exposições— a releitura da bandeira nacional com a inscrição “KilomboAldeya” no lugar de “Ordem e Progresso” —, instalou seu ateliê na Lapa em janeiro do ano passado. O espaço, onde funcionou um estúdio fotográfico, é num imóvel de fundos de um prédio na vizinhança da Sala Cecília Meireles. Da janela, o artista avista, enquanto trabalha, um imenso pé de jenipapo, cuja copa vai até o 5º andar. A árvore, que faz companhia a uma mangueira, cresceu num terreno vazio ao lado, proporcionado um clima bucólico em meio ao burburinho da Lapa.

—É um espaço silencioso e tem essa relação com a natureza — afirma o jovem, cria da Rocinha e atualmente morando em Botafogo, acrescentando que os aluguéis mais baratos, em relação à Zona Sul, e a facilidade de acesso pesaram na escolha pelo local.

No mesmo prédio, Artur Barrio, de 81, ocupa duas salas. A do quinto andar é utilizada como ateliê. Já a do oitavo é para organizar sua biblioteca, coleções de arte, objetos pessoais e receber visitas. Na pandemia, o artista deixou o apartamento em Copacabana e foi morar num veleiro, que fica ancorado na Marina da Glória, perto da Lapa, com Cristina Motta, de 56, sua companheira há 34 anos,

—Num lado degradado e esquecido da cidade há uma qualidade de vida interessante — diz, sobre o espaço, onde não raro, recebe visita de periquitos, maritacas e até urubus que pousam nos galhos da vizinha área arborizada em meio ao caos da Lapa.

Dois andares do edifício vizinho, com entrada pelo número 98 da Joaquim Silva, é ocupado pelo ateliê de Laura Lima, uma das fundadoras da Gentil Carioca. Artista cuja obra tem perfil performático, com ênfase em instalações, ela precisava de espaços amplos e optou pela Lapa, porque além de ficar perto do Catete, onde mora, há prédios antigos com essa característica. Laura e sua equipe, de dez colaboradores, dividem um espaço de 400 m² no quarto andar. Recentemente, sentiu necessidade de expandir o ateliê para andar de cima.

— O ateliê foi uma descoberta. Achei que seria um lugar barulhento, mas não. É uma alegria estar na Lapa— conta a artista que chegou no bairro em 2022 e já teve ao menos uma obra sua “Disco Voador” influenciada pela convivência com artesãos de rua do local.

Uma das primeiras vias do Rio, a Morais e Vale—que já foi endereço de figuras ilustres como a compositora Chiquinha Gonzaga, o poeta Manuel Bandeira e o lendário Madame Satã — virou novo point na cidade, após recente revitalização pela prefeitura. O público que chegou depois das obras descobriu o que os antigos frequentadores já sabiam: a arte que pulsa por ali vai além dos sambas que ecoam do vizinho Beco do Rato.

—Troquei o Leblon pela rua, que era sinistra, mas que hoje está transformada — testemunha Paulo Branquinho, que chegou há 16 anos e há dez comanda uma galeria no número 8, que por conta da vocação boêmia do lugar tem uma atividade mais noturna que diurna, a ponto de nas sextas-feiras e sábados estender o expediente até a meia-noite.

Pouco mais afastado dali, Arthur Chaves, de 40, que desenvolve sua arte em tecido, ocupa na Rua Sílvio Romero, local que serviu de depósito do pintor Daniel Senise, do qual era assistente.

Em pleno burburinho da escadaria Selarón, com seu vai e vem de turistas, um sobrado de dois andares e 300 m² de área, localizado no número 18 e batizado de Casa da Escada Colorida, recebe há sete anos novos talentos para seus programas de residência artística. Cerca de 350 já passaram por lá.

—A Lapa é muito estimulante— constata Bruno Girardi, fundador do espaço.