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Reis da floresta urbana: macacos-prego intrigam a ciência e desafiam moradores do Rio na convivência

Animais sofrem com a violência urbana na forma de ataques por retaliação a furto de comida, atropelamentos e acidentes na rede elétrica

Agência O Globo - 15/03/2026
Reis da floresta urbana: macacos-prego intrigam a ciência e desafiam moradores do Rio na convivência
Reis da floresta urbana: macacos-prego intrigam a ciência e desafiam moradores do Rio na convivência - Foto: Depositphotos

O menu ao alcance da vista tinha frutos e flores silvestres e um saco com restos de biscoito jogado fora. Com a mão que lhe sobrou após uma briga, Maneta, como alguns dos frequentadores do Parque Nacional da Tijuca (PNT) o “batizaram”, escolhe o biscoito. E volta com o saco para seu posto de líder de um grupo de macacos-prego, no alto dos galhos das árvores da Mesa do Imperador, onde reina absoluto. Maneta e seu bando integram uma turma única do Rio de Janeiro, que se equilibra entre o urbano e o natural. Os macacos-prego da Floresta da Tijuca são cariocas-raiz. Não apenas nasceram no Rio, mas foram “inventados” aqui.

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Pecado original

A macacada carioca é fruto do pecado original de boas e más intenções humanas. Maneta também perdeu uma das patas traseiras, possivelmente num choque na rede elétrica. Mas não largou a pose nem a liderança, numa demonstração de que os malandros da floresta são mestres da arte da sobrevivência. Os macacos-prego da Floresta da Tijuca intrigam a ciência e desafiam moradores do Rio e turistas a aprender a viver em harmonia com animais que materializam a história e o espírito da cidade.

Involuntariamente, o ser humano produziu ao longo de muitas décadas um primata não humano à sua imagem e imperfeição. Pois bem: os pregos, gênios do mundo dos macacos, sofrem com a violência urbana na forma de ataques por retaliação a furto de comida, atropelamentos e acidentes na rede elétrica. Comem junk food ultraprocessada que ganham ou furtam. Raspas e restos sempre os interessam — e os adoecem.

Um dos primatologistas mais respeitados do Brasil, Alcides Pissinatti, chefe do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, do Inea, explica que a população atual da floresta é resultado da combinação de muitos anos de libertação de pregos de diferentes espécies, de outras partes do Brasil, com sobreviventes da população nativa da Mata Atlântica do Sudeste. Até os anos 70 do século XX, as solturas eram frequentes.

A esses macacos se somaram ao longo do tempo outros que escaparam do tráfico de animais ou de gente que até hoje insiste na prática criminosa de manter esses bichos como pet. Se não fosse o ser humano capturar e traficar, essas populações jamais teriam se encontrado.

— Sabemos muito pouco sobre eles. E até agora ninguém fez um estudo sobre a genética desses animais. Para saber que bicho é esse, seria preciso investigar o DNA de pelo menos uns 20 a 30 indivíduos. É possível, mas caro. A olho nu fica difícil saber, até porque as espécies de macaco-prego são parecidas — afirma Pissinatti.

Leandro Jerusalinsky, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB/ICMBio), concorda. Ele diz que essa população é fruto de muitas liberações desordenadas, no passado, ainda que bem-intencionadas. Além de tráfico e uso como pet. Por muito tempo se pensava que os macacos-prego eram todos de uma só espécie. Com o avanço da ciência, descobriu-se que não, e isso é importante para a conservação e o manejo, pois essas espécies têm adaptações, por exemplo, a diferentes tipos de clima, vegetação e até patógenos.

Mas ele ressalta que nada disso invalida a necessidade da convivência harmônica com esses animais, que merecem uma vida digna e são vítimas da ação humana. Os cientistas destacam que eles são parte da mata e a ajudam a se manter viva. Estão entre os poucos mamíferos que habitam a Floresta da Tijuca, ainda hoje depauperada de sua fauna.

— Temos a obrigação de lhes oferecer uma vida digna. E isso significa não agredir, não aprisionar, não oferecer alimento. A questão do alimento é muito grave — frisa Jerusalinsky.

O macaco-prego come de tudo. Folhas, frutos, flores, insetos, aves, ovos, anfíbios, cobras, pequenos mamíferos. E também adora qualquer tipo de comida humana, que é hipercalórica e pode adoecê-lo. A busca por doces e gordura faz com que se aproxime de residências. O resultado é conflito.

Os animais acabam sendo agredidos, atropelados, sofrem ataques de cães domésticos. Para o bem mútuo, não devemos nos aproximar deles, enfatizam cientistas. Mas se pode tirar fotos e gravar vídeos à vontade.

Como um vira-lata

O macaco-prego carioca representa para os primatas não humanos o que o caramelo é para os cães. Miscigenado, esperto, um herói da resistência da fauna de floresta urbana. E só nos domínios do Maciço da Tijuca. Na área da Pedra Branca, cerca de três vezes maior, não há nenhum prego à vista.

— São extremamente inteligentes. Usam pedras para quebrar coquinhos. Sabem espreitar, se beneficiar da falta de astúcia de alguns humanos — diz Pissinatti.

Ele adverte que nunca se deve chegar perto. Os macacos podem ser agressivos e têm dentes enormes: os caninos medem quatro centímetros.

É consenso entre especialistas que o contato com o ser humano representa risco para o macaco-prego e vice-versa. Por serem muito próximos de nós, podem transmitir patógenos e se contaminar.

Caso clássico é o vírus do herpes humano, pouco perigoso para nós, mas quase sempre letal para os macacos. Já o vírus dos macacos pode causar doença grave em pessoas, alerta o veterinário Jeferson Pires, chefe do Centro de Reabilitação de Animais Selvagens (Cras) da Universidade Estácio de Sá, referência em fauna silvestre no Estado do Rio.

— Eles são de fato uma população única e adaptada. Se acostumaram a ganhar comida e se alguém chega perto e não dá, podem atacar para pegar. Mas o macaco é sempre a vítima, o lado fraco. O ser humano pode perder um doce, eles perdem a vida ou a liberdade. Recebemos pregos feridos com frequência. Já recebi animais com facadas nas costas e tratamos de um que levou um tiro na cabeça. Tudo retaliação — lamenta Pires.

Macaco não é pet

Eles não são domesticáveis. Se tratados como pet, vão atacar um dia, por mais mansos que pareçam. É da natureza deles serem selvagens, diz Marcelo Rheingantz , diretor-executivo do Refauna (ONG dedicada ao repovoamento da Mata Atlântica) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os filhotes são, como qualquer criança, dóceis. Mas, quando ficam adolescentes, aumentam os hormônios, a vontade de namorar e de interagir com outros de sua espécie, e eles se tornam agressivos. E aí, quem pegou como pet, fica com medo e solta na mata, para se livrar.

— Macaco não é pet e jamais será. É uma relação ruim para eles e para a sociedade — diz Rheingantz.

Viviane Lasmar, chefe do PNT, ressalta que os macacos-prego são uma das espécies mais emblemáticas do parque e que a melhor interação é o respeito:

— Esperamos que o público admire, mas se mantenha distante. O respeito é benéfico para nós e para eles — diz Lasmar.

Ela sublinha a necessidade de desmistificar a ideia de que alimentar o animal é um ato de bondade.

— Eles são selvagens e sabem se alimentar sozinhos. Não precisam de nós. Quando oferecemos comida, seja natural ou industrializada, alteramos o comportamento instintivo de proteção do animal, forçando uma aproximação perigosa que aumenta o risco de ataques e de transmissão de doenças. É um risco para o visitante e uma sentença de vulnerabilidade para o macaco — frisa.

Mas o fato é que eles perderam o medo do bicho-homem. E entendem como lar tudo o que está nos limites de seu território, o que inclui casas e apartamentos.

Descobriram que é fácil ganhar e surrupiar alimento de casas e incautos. Sem predadores naturais, como gaviões-pega-macaco e gatos selvagens, expulsos pela ação humana, gastam a energia que lhes sobra com a comida fácil para se reproduzir e macaquear pela floresta e cercanias, para encanto de uns e irritação de outros. O segredo é aprender a conviver.

Morador do Jardim Botânico, Eduardo Menezes, está acostumado com os macacos que frequentam o jardim de sua casa. A habilidade deles o impressiona. Certa noite, Menezes recebeu amigos e decidiu deixar cumbucas com pastinhas e outras sobras na varanda, para recolher no dia seguinte. Havia ainda 12 taças de vinho.

— Os macacos levaram todas as cumbucas, mas as taças ficaram intactas. Foram muito educados e elegantes. São muito bem-vindos no jardim da minha casa, parte do privilégio de morar numa cidade como o Rio — afirma Menezes.

Ana Luiza Badaró mora há 35 anos na vizinhança da floresta e sempre se surpreende com as brincadeiras e a esperteza deles. A regra é não deixar comida exposta. Ela já perdeu um bolo inteiro. Um macaco o pegou na cozinha e saiu com ele pela janela enfiado no braço, como se fosse uma bolsa. Em outra ocasião, um prego foi surpreendido deitado numa cama, de patas cruzadas, cercado de pacotes de biscoito tirados do armário. Seu enlevo foi interrompido, porém, por uma funcionária da casa e ele fugiu.

— Sei que muitas pessoas temem ataques, mas nunca vi um. Precisamos despertar nas pessoas a consciência de que esses animais já moravam aqui. Vivemos num lugar verde, temos que manter o respeito pelas outras espécies — destaca Badaró, defensora da harmonia com os pregos.

Aparências enganam

Macaco brasileiro não quer banana e tampouco jaca, ambas de origem asiática. Ou não deveria querer. As devoram com prazer porque são muito doces. Mas elas aumentam seu risco de doenças metabólicas. Marcelo Rheingantz, da Refauna/UFRJ, explica que os pregos evoluíram para comer as bem menos doces frutas da Mata Atlântica, como jaboticabas e cambucás.

Macaco ri, macaco sofre. O risinho tão característico dos macacos-prego não é alegria. É nervoso. Marcelo Rheingantz diz que se trata de uma reação de medo e estresse. Caso do contato (indesejado para eles) com seres humanos.

Os pregos têm o maior tamanho relativo de cérebro entre todos os macacos e demonstram alta capacidade cognitiva, segundo a Universidade de Calgary (Canadá).

Eles empregam gravetos e pedras para cavar alimentos. Um estudo brasileiro publicado na prestigiosa Scientific Reports, em 2024, revelou que pregos da espécie Sapajus libidinosus capturam aranhas com gravetos, no Parque Nacional de Ubajara (Piauí).

Formam bandos de 20 a 30 animais e têm formas complexas de comunicação, com diferentes tons de voz. Na natureza, vivem cerca de 25 anos.

Há nove espécies de macaco-prego no Brasil, sendo o Sapajus nigritus, nativo do Sudeste e mais comum no Rio. Fisicamente muito parecidas, elas apresentam diferenças genéticas, na dieta e no comportamento, por exemplo. Miscigenado, o macaco do Rio é um eclético, mas a maioria tem a cara e o jeito do S. nigritus.

Os primatas das Américas, dos quais o Brasil tem 70% das espécies, vivem essencialmente nas árvores. No Rio, os macacos-prego esticaram o conceito de árvore... Escalam prédios de mais de dez andares, se equilibram em para-raios. Só não voam, mas quase. Pois saltam de um telhado para outro com destreza superior à de qualquer acrobata humano, a exemplo do que fazem em árvores.

Foto: https://depositphotos.com/