RJ em Foco
Bacellar: segundo PF, deputado atendia favores para criar 'posição de gratidão e vulnerabilidade'; entenda
O parlamentar fo acusado de vazar informações a respeito de operação da PF para o Comando Vermelho
No dia 28 de janeiro, a Polícia Federal enviou para o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e para o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o relatório final das investigações sobre crimes cometidos pelo presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar, o desembargador do TRF-2 Macário Judice e o ex-deputado estadual Thiego Santos, o TH Jóias, entre outros alvos de apuração. O delegado Guilherme Catramby, que assina o documento, escreve: “Constatou-se que o maior ativo de Rodrigo Bacellar é a sua capacidade de articulação espúria em todos os poderes fluminenses, a ponto de conseguir o atendimento de favores e contraprestações que colocam os pedintes em posição de gratidão e vulnerabilidade”.
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Cinco indiciados
A notícia foi publicada ontem no blog do jornalista Lauro Jardim. Junto com Bacellar e Thiego, foram formalmente indiciados Jéssica de Oliveira Santos e Thárcio Nascimento Salgado, respectivamente mulher e ex-assessor de TH Jóias, além de Flávia Ferraço Lopes Judice, mulher de Macário. Segundo informa o relatório, o magistrado não foi indiciado porque ocupa o cargo de desembargador federal. No seu caso, como a lei determina, os autos foram remetidos para a PGR. Esses são seis de muitos nomes mais ou menos conhecidos citados ao longo de 188 páginas na “articulação espúria” apontada pela PF.
Eleito por unanimidade para a presidência da Alerj, e até então cogitado como candidato a governador, o deputado estadual Rodrigo Bacellar foi preso em 3 de dezembro de 2025 e apeado do cargo, por determinação do Supremo Tribunal Federal. Ele foi acusado, assim como o desembargador Macário Judice, de vazar informações a respeito da operação que, em setembro do mesmo ano, também levou para a cadeia TH Jóias, apontado como integrante do Comando Vermelho. A Operação Unha e Carne, que levou Bacellar à cadeia, é considerada uma continuação da Operação Zargun, que prendeu TH. O relatório da Polícia Federal atribui a Bacellar a “liderança do núcleo político da organização criminosa em análise” — o CV, no caso.
No dia 8 de dezembro, a Alerj aprovou a revogação da prisão de seu presidente: o ministro Alexandre de Moraes concedeu liberdade provisória, mas determinou medidas cautelares como o afastamento do cargo (mas não do mandato) e o uso de tornozeleira eletrônica. O documento enviado pela PF aponta relação entre a votação — 42 deputados a favor, 21 contrários e duas abstenções — e a distribuição de cargos na máquina pública. A análise de um computador apreendido na sala do chefe de gabinete de Bacellar, Rui Carvalho Bulhões Junior, relevou planilhas que, de acordo com o relatório, sugerem isso.
Pedidos de cargos
A planilha intitulada “PEDIDOS EM 12-04-23” foi enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a PF, o documento funciona como um inventário detalhado do que cada deputado “possui” — cargos e espaços de comando já atribuídos — e os novos pleitos que cada parlamentar faria dentro da estrutura administrativa do governo estadual. Os pedidos estão organizados por nomes e demandas específicas por órgãos, cargos e poderes de influência em setores estratégicos. O relatório ainda destaca que 87,88% dos parlamentares cujos nomes constam na planilha votaram a favor da soltura de Bacellar em dezembro.
O documento ainda detalha pleitos específicos de parlamentares como Arthur Monteiro (União Brasil), que teria solicitado controle do Poupa Tempo em Duque de Caxias, além de postos no Detran e na Faetec. Já Carlinhos BNH (PP), de acordo com o registro guardado no computador, teria pedido o comando de unidades do Detran em Queimados e posições na Fundação Leão XIII em diversos municípios. Guilherme Delaroli (PL), presidente interino da Casa, aparece como responsável por uma lista de 15 cargos requeridos na Alerj, além do comando do Detran e da Faetec em Itaboraí e Rio Bonito. Parlamentar proeminente na Casa, presidente da Comissão e Justiça, Rodrigo Amorim (União Brasil) é apontado como o responsável pela solicitação de vagas no Detran da capital, nos programas Segurança Presente e Lei Seca, além de “cargos para compensar Ceperj”.
A Fundação Ceperj, como lembra o relatório da PF, é o centro de uma investigação sobre desvio de verbas públicas para pagamento de cabos eleitorais nas eleições de 2022, que pode ter ultrapassado R$ 220 milhões pagos em espécie. Atualmente, o caso “encontra-se pendente de julgamento no Tribunal Superior Eleitoral”, após pedido de vista, e “pode culminar com a cassação e a inelegibilidade de Cláudio Castro, Rodrigo Bacellar e outros relevantes atores da cena política fluminense”.
Futura administração
Na mesma operação Unha e Carne, agentes apreenderam um caderno de Bacellar com anotações que a PF classifica como “organograma de sua futura administração”, com nomes, cargos e setores que o deputado planejava ocupar caso assumisse o Governo do Estado. A lista vai de sugestões, como “um nome famoso” na Secretaria de Esportes, a políticos conhecidos: o deputado Douglas Ruas seria indicado para a pasta de Obras. Atual presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, é aventado para o cargo de vice. Não há indicação de que os citados tenham sido contactados ou soubessem de sua inclusão na lista. A Polícia Federal ressalta que a simples projeção de secretariado ou cenários de governo, isolada, não configura crime, embora a apreensão e análise do material faça parte de um contexto mais amplo de investigação.
O relatório funde os universos da política e da criminalidade. Em um caso sensível da segunda lista, a Polícia federal afirma que o ex-deputado TH Jóias teria confirmado para Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, acusado de ser um dos chefes do Comando Vermelho, o alerta sobre a iminência de sua prisão recebido pelo presidente afastado da Alerj Rodrigo Bacellar.
Em nota, o advogado Daniel Bialski, que defende Bacellar, afirmou que “inexiste qualquer elemento probatório para pretender lhe imputar qualquer participação em ilicitude e ou vazamento, ao contrário, só há ilações desamparadas”. A defesa acrescenta que o indiciamento é “arbitrário e abusivo”. Ao RJTV, o advogado de TH negou a participação de seu cliente em atividades criminosas e disse que ele não teve acesso a informações vazadas. Já o presidente em exercício da Alerj, Guilherme Delaroli, disse que considera ilegítima a inclusão de seu nome em uma planilha feita por terceiros, e que atua dentro da legalidade respeitando as instituições. O deputado Rodrigo Amorim, por sua vez, afirmou que é seu dever institucional manter diálogo e sugerir políticas públicas, e que qualquer alegação além disso significa tentativa de criminalizar a política.
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