RJ em Foco

'Uma pessoa fundamental': amigos e familiares lamentam a morte de Nelson Rodrigues Filho aos 79 anos

Carioca e tricolor, o diretor de teatro, produtor cultural, roteirista e agitador do carnaval de rua lutava desde 2024 contra sequelas de um AVC

Agência O Globo - 26/02/2026
'Uma pessoa fundamental': amigos e familiares lamentam a morte de Nelson Rodrigues Filho aos 79 anos
Nelson Rodrigues Filho - Foto: Reprodução / Instagram

Morreu, na madrugada desta quarta-feira, aos 79 anos, o diretor de teatro, produtor cultural, roteirista e agitador do carnaval de rua Nelson Rodrigues Filho, conhecido como Nelsinho. A informação foi divulgada pela coluna Ancelmo Gois. Carioca, tricolor e filho do consagrado escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980), Nelsinho enfrentava desde 2024 as sequelas de um acidente vascular cerebral (AVC).

No início da vida adulta, Nelson Rodrigues Filho também teve participação marcante na política. Durante a ditadura, militou no Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), atuando na clandestinidade até ser capturado e preso por sete anos. Em entrevistas, relatou que sobreviveu ao período graças à prestígio do pai junto aos militares, o que teria evitado um desfecho mais trágico.

— Ele foi um personagem importantíssimo na luta contra a ditadura — destaca o escritor, compositor e jornalista João Pimentel, o 'Janjão', amigo próximo de Nelsinho. — Ele pegou em armas, foi preso, mas também foi uma pessoa fundamental durante a reabertura política, quando o Rio finalmente pôde ir às ruas com música, poesia e alegria.

Após deixar a prisão, Nelsinho passou a se dedicar à adaptação de obras do pai, como a versão cinematográfica de 1981 do clássico "Bonitinha, mas Ordinária", dirigido por Braz Chediak. A partir dos anos 2000, trabalhou também na montagem teatral de “A Vida Como Ela É”, apontada como sua favorita entre as obras rodrigueanas.

Apesar da forte ligação profissional com o pai, Nelsinho construiu trajetória própria na cena cultural carioca. Entre seus legados mais conhecidos está o Bloco do Barbas, tradicional cortejo carnavalesco que desfila anualmente pelas ruas de Botafogo.

O bloco, criado em homenagem a um bar fundado por Nelsinho com amigos e companheiros de militância na Rua Álvaro Ramos, tornou-se referência por unir folia, bom humor e sátira política.

— Meu pai dizia que 'carnaval tem que ser sensual, carnaval tem que ser brincalhão e carnaval tem que dar um recado' — relembra Cristiane Rodrigues, a 'Crica', filha única do diretor e atual responsável por Barbas. — Cresci sob as barbas de Nelsinho e sempre percebeu o quanto ele era especial pela forma como era tratado pelos outros. Acho que o grande legado do meu pai é a relação dele com as pessoas.

Nas redes sociais, dirigentes de outras agremiações tradicionais do carnaval carioca também prestaram homenagens. "Salve Nelsinho e sua grande contribuição para a luta e para a festa nas ruas!", escreveu o bloco Cordão do Boitatá em comentário.

“Nelsinho esteve na linha de frente das lutas pelo direito de ocupar a cidade com alegria, crítica e irreverência”, destacou a Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua do Rio de Janeiro (Sebastiana), de qual foi um dos fundadores. Ao final da nota, a agremiação descreveu o diretor como alguém que "resistiu, criou, iluminou e manteve vivo o Carnaval de rua".

Nelsinho estava internado desde a Quarta-feira de Cinzas no hospital Unimed Barra, na Barra da Tijuca, tratando um quadro de pneumonia e infecção urinária. Ele faleceu na unidade hospitalar.

O velório de Nelson Rodrigues Filho será realizado hoje na sede social do Fluminense, em Laranjeiras, das 9h às 15h. O enterro ocorrerá no Cemitério São João Batista, em Botafogo, onde também é sepultado seu pai, às 17h.