RJ em Foco
Há 60 anos, 'maior temporal de todos os tempos' deixou 250 mortos e cicatrizes nas paisagens do Rio
Descrita assim na manchete do GLOBO, tragédia continua na lembrança de quem viveu naqueles cinco dias de fortes chuvas
Na portaria do Conjunto Residencial Santo Amaro, pacotes de todo tipo e tamanho aguardam para serem retirados pelos moradores. A maior parte é composta por miudezas compradas on-line. A coisa é organizada. O zelador anota em um caderninho tudo o que chega e sai. O esquema é comum e se repete em muitos prédios cidade afora. Mas neste condomínio, localizado no número 200 da Rua Santo Amaro, a meio caminho entre a Glória e Santa Teresa, um detalhe chama a atenção: não há registro de entregas para o apartamento 101. Nem para o 102, o 103 ou o 104. Não existem. A numeração começa no 105, e a mesma lógica se repete nos pavimentos seguintes, até o quarto andar. A peculiaridade é herança da maior tragédia climática da cidade do Rio, que esta semana completa 60 anos.
'Zona Sul' do Reviver Centro:
Mar e preço de Caribe:
As chuvas que desabaram sobre a cidade entre 10 e 15 de janeiro de 1966 — com maior intensidade nos primeiros três dias — destruíram um bloco inteiro da frente do conjunto. O pedaço não foi refeito. No seu lugar, hoje, há um pequeno jardim e um pátio cimentado. Pelo menos 38 pessoas morreram ali na manhã do dia 12. Entre as vítimas, moradores e operários que atuavam na limpeza da rua, castigada pela enxurrada dos dias anteriores. Na cidade toda foram 250 mortos, maior número já registrado até hoje na capital em ocorrências do tipo. Os desabrigados e desalojados ficaram entre 30 mil e 50 mil.
As descrições da época retratam um cenário de caos sem precedentes: casas e ruas destruídas por deslizamentos de terra e pedras — principalmente nas favelas —, alagamentos, colapso dos sistemas de transporte e comunicação, desabastecimento de água e energia elétrica, rodovias bloqueadas. Tudo ao mesmo tempo. Na edição que circulou em 11 de janeiro daquele ano, a manchete do jornal O GLOBO resumia o cenário até aquele momento: “Dezenas de mortes no maior temporal de todos os tempos”.
O professor e engenheiro Manoel Oliveira Sales, coordenador do curso técnico em Mecânica do Cefet Maracanã, tinha 10 anos quando a tragédia aconteceu. Ele morava com os pais no condomínio da Rua Santo Amaro.
— Uma massa de terra muito grande se deslocou do alto do morro, próximo ao local que chamam de Mirante do Rato Molhado, e chegou até aqui, atingindo esses apartamentos da frente. Muita gente morreu, moradores que todos conheciam — diz Manoel, que aos 70 anos segue morando no mesmo prédio e lembra bem do período em que a família precisou ficar no estádio do Maracanã enquanto o condomínio permaneceu interditado. — Foram de três a quatro meses até que a gente pudesse voltar para casa. Fizeram obras de contenção e nunca mais houve problema.
Rocinha
Outra área fortemente atingida foi a Rocinha, onde ocorreram 66 mortes e 1,5 mil famílias ficaram desabrigadas. O episódio mais grave aconteceu ainda nos momentos iniciais da chuva, na noite do dia 10, quando uma enorme pedra se desprendeu do morro e atravessou as ruas 1 e 2 da favela levando tudo o que encontrava pela frente, de árvores a casas. Só ali 29 pessoas morreram.
— O que eu tenho clareza na minha memória é que era muita chuva. Lembro que ficamos sem energia elétrica e dos óbitos... pessoas sendo retiradas — recorda a enfermeira Maria Helena Carneiro de Carvalho, de 68 anos.
Filha do português Aníbal Carvalho, dono de um armazém na localidade, Helena mora até hoje no mesmo endereço, na Rua 2, onde vivia com a família na época da tragédia:
— Isso ficou como um trauma para todos. Meu pai nunca esqueceu, perdeu amigos, foi uma coisa muito triste.
O arco de destruição foi grande. O bairro de Santa Teresa ficou praticamente isolado. Só dois acessos, um pela Rua Paula Matos e outro pela Santa Cristina, estavam abertos quatro dias depois do início das chuvas. Vinte e dois prédios foram interditados.
Na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, casas construídas na encosta, descritas como “modestas” no noticiário, vieram abaixo deixando 32 mortos. Por Engenho Novo, Méier e Piedade, 71 prédios foram afetados e 14 mortes registradas. No Centro, a água tomou conta das ruas e invadiu estabelecimentos comerciais. Na Rua da Assembleia, próximo à Avenida Rio Branco, uma cratera se abriu.
Em meio ao caos, até pedir socorro foi um desafio para muita gente. A Companhia Telefônica Brasileira estimou que 20 mil telefones — fixos, claro — ficaram mudos. O número equivale a pouco mais de 5% de todos os aparelhos existentes na época no então Estado da Guanabara. Quem tinha telefone funcionando em casa nem sempre conseguia ajuda. Já no primeiro dia da chuva, O GLOBO registrava em suas páginas ter recebido centenas de telefonemas com “apelos dramáticos” vindos desde Olaria até o Cosme Velho para que “os repórteres conseguissem contato com o Corpo de Bombeiros”, cujas linhas certamente estavam sobrecarregadas àquela altura.
Onda de solidariedade
Passados os primeiros dias da tragédia, ainda com a chuva caindo em alguns pontos da cidade, começou a ser formada uma onda de solidariedade.
— Morava na Rua Rosa e Silva, no Grajaú. Virou um rio. A gente via geladeiras, fogões e outros objetos sendo levados. Depois disso todo mundo se mobilizou para ajudar. A gente arrecadava tudo o que era possível na família, com os amigos, para doar. Houve uma união nesse sentido — recorda a professora Yvone Amaral Gomes Pires, de 88 anos.
Na série histórica das medições feitas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) desde 1961 em estações convencionais, a tempestade de 1966 aparece em sexto e sétimo lugares entre os maiores volumes de chuva na cidade do Rio, num período de 24 horas, com registros de 242,6mm e 237mm no dia 11 de janeiro daquele ano nas estações do Jardim Botânico e da Praça Quinze, respectivamente. É bastante coisa. Ainda de acordo com o Inmet, a média histórica para todo o mês de janeiro na região que abrange a capital do estado oscila entre 220mm e 260mm.
A enxurrada de 1966 encontrou a metrópole pouco preparada para uma chuva com aquelas proporções. Por isso, em maio daquele mesmo ano, foi criado o Instituto de Geotécnica, que hoje é a Fundação Geo-Rio, sob responsabilidade da prefeitura desde 1975.
— Hoje realizamos cerca de 1.500 a 1.600 vistorias por ano em caráter preventivo. O embrião do Alerta Rio foi a Geo-Rio, trouxemos 33 estações pluviométricas que nos fornecem um banco de dados muito importante. Desenvolvemos um plano de gestão de risco geotécnico. Isso não havia antes de 1966. Aquela chuva foi um marco. Depois dela, a cidade se preparou melhor. Tivemos índices maiores ou parecidos com aquele, e o Rio apresentou uma resiliência melhor e com menos ocorrências — diz Anderson Marins, presidente da Fundação Geo-Rio.
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