RJ em Foco
Circunstâncias do incêndio no Shopping Tijuca são investigadas pela Polícia Civil; frequentadores relatam pânico
Segundo informações dos Bombeiros, o foco do incêndio começou numa loja de decoração presente no subsolo e de difícil acesso, o que facilitou a concentração de fumaça
Numa luta contra o tempo, bombeiros de 15 unidades do Corpo de Bombeiros trabalharam por oito horas na busca pelos brigadistas Anderson Aguiar do Prado e Emellyn Silva Aguiar Menezes. Os dois morreram tentando combater o fogo que atingiu, na noite de anteontem, o Shopping Tijuca, na Zona Norte. Uma espessa nuvem de fumaça dificultou a ação das equipes. Emellyn, de uma empresa terceirizada, morreu no local. Anderson, chefe do grupo e contratado do centro comercial, foi socorrido e levado para o Hospital Municipal Souza Aguiar, onde chegou sem vida.
'Era um irmão para mim. Muito triste',
Sindicato cobra investigação sobre segurança
As duas mortes são investigadas pela 19ª DP (Tijuca), que solicitou perícia e diligências para apurar as circunstâncias do ocorrido. Outras três pessoas ficaram feridas. Uma mulher de 23 anos que foi levada para a UPA da Tijuca, onde foi atendida e liberada. Já o também brigadista Michael Oberdan Ramos Ribeiro e outro homem foram encaminhados para o Souza Aguiar. Oberdan foi transferido para um hospital particular.
Difícil acesso
Segundo o tenente-coronel Fábio Contreiras, porta-voz do Corpo de Bombeiros, o incêndio atingiu uma área de difícil acesso, com visibilidade zero e grande concentração de fumaça, o que exigiu atuação especializada. As equipes usaram câmeras térmicas, equipamentos de proteção respiratória autônoma e sistemas de ventilação mecânica para dispersar gases e garantir a segurança no combate às chamas. O quartel da Tijuca foi o primeiro a ser acionado às 18h28.
O serviço de rescaldo prosseguiu ontem e contou com apoio de 22 viaturas e até de um helicóptero, em razão da dificuldade de acesso por terra causada pela grande quantidade de fumaça. Uma retroescavadeira foi usada na abertura de buracos em diferentes pontos do edifício, para tentar acelerar a dissipação da fumaça.
O shopping ficou fechado para trabalho dos bombeiros e seguirá sem abrir hoje. Ontem, após 24 horas do incêndio, ainda saía fumaça do centro comercial.
Relatos de pânico
O fogo começou por volta das 18h, na loja Bell'Art Decorações, no subsolo. O piso abriga ainda quatro cafeterias, dois restaurantes e um espaço de recreação. Quando o incêndio estava no início, a área foi isolada com pedestais. Algumas lojas vizinhas fecharam rapidamente.
A situação foi se agravando, e as pessoas começaram a ser retiradas. Testemunhas relatam que não ouviram soar o alarme de incêndio, mas foram orientadas por seguranças a deixar o prédio. Imagens gravadas por clientes mostram consumidores descendo as escadas rolantes dos andares superiores, apreensivos, cobrindo o nariz e a boca para se protegerem da fumaça.
Funcionário de uma ótica no segundo andar, Marcos Vinicius Marinho disse que inicialmente houve incerteza sobre o que estava acontecendo.
— Estava terminando o almoço, quando pessoas surgiram gritando. Por um instante, fiquei em dúvida sobre o que estava acontecendo porque havia um grupo de jovens rindo.
Eliane Cordeiro, que tinha ido ao cinema com o filho, contou que a sessão iniciada às 18h foi interrompida após 30 minutos, com um grito de uma funcionária: "Fogo! O shopping está pegando fogo".
— O filme parou, as luzes foram acesas, e uma funcionária gritou. Não havia brigadista ou bombeiro para ajudar. Tampouco seguranças. Foi um desespero — relatou a mulher, que escapou com o filho por uma saída de emergência.
Kemilly Soares da Silva, de 23 anos, funcionária de uma loja de chocolates, entrou em pânico ao ver a correria.
— A fumaça tomou tudo, as pessoas corriam sem saber para onde ir. Achei que fosse morrer. Eram muitos correndo ao mesmo tempo. Me deu crise de pânico.
A Polícia Civil até ontem à noite não tinha conseguido acesso para perícia em função da persistente fumaça. Entre os pontos que devem ser esclarecidos, estão o tempo de acionamento do Corpo de Bombeiros; os equipamentos de segurança dos brigadistas, o funcionamento do sistema de exaustão, especialmente no subsolo, onde a fumaça se concentrou; e o acionamento do alarme de incêndio, descrito por testemunhas como inexistente, fraco ou confuso. Houve também declaração de pessoas sobre portas de emergência fechadas, além da falta de sinalização mais visível de rotas de fuga e possível demora para a evacuação dos andares.
Alguns frequentadores contaram que a orientação para deixar o prédio demorou, o que teria provocado correria quando o shopping foi tomado por uma “neblina” de fumaça. Houve congestionamento na escada de incêndio e a necessidade de seguranças interromperem a escada rolante que subia para permitir a descida do público.
Em nota, a superintendência do Shopping Tijuca informou que mais de 7 mil pessoas estavam no centro comercial quando o fogo começou na loja Bell’Art. Segundo a administração, a evacuação seguiu os protocolos de emergência, com acionamento de alarmes, e a brigada atuou rapidamente para esvaziar a área. O shopping afirmou que os bombeiros foram acionados imediatamente e seguem no local, com apoio de equipamentos adicionais de ventilação e exaustão. A direção lamentou as duas mortes, disse prestar apoio às famílias e afirmou colaborar com as investigações. A nota diz ainda que está oferecendo assistência aos internados.
Audiência pública
O presidente do Sindicato dos Bombeiros Civis do Rio, Marcos Paulo, pedirá a realização de uma audiência pública para investigar as reais condições encontradas pelos brigadistas que atuavam na sexta-feira. Ele frisa que os dois profissionais mortos receberam treinamento por empresa credenciada. Mas disse ser necessário saber as condições estruturais do edifício, como a existência de equipamentos adequados, rotas de entrada e saída e se houve suporte durante o processo de evacuação.
O corpo do brigadista Anderson foi o primeiro a ser localizado pelos bombeiros, duas horas depois de iniciadas as buscas. Ele estava no mezanino onde o incêndio teve início. Foi levado para uma ambulância, onde tentaram reanimá-lo com massagens cardíacas. Encaminhado ao hospital, chegou morto à unidade. O corpo de Emillyn estava no subsolo, perto do foco do incêndio.
O também brigadista Henrique Alves destaca que o amigo era admirado:
— Anderson era muito alegre, de sorriso fácil. Adorava ajudar as pessoas. Talvez por isso tenha escolhido a profissão. Era muito experiente e fazia um trabalho excepcional.
(Reportagem de Ana Branco, Bruna Martins, Carmélio Dias, Felipe Grinberg, Geraldo Ribeiro, Giampaolo Morgado Braga, Madson Gama, Vera Araújo e Walter Farias)
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