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Tráfico no Rio se organiza como empresa, com até 25 funções

Levantamento do GLOBO mapeou especialização de mão de obra, setorização para cuidar de barricadas e bailes funk e até contratação temporária para fins de semana

Agência O Globo - 04/01/2026
Tráfico no Rio se organiza como empresa, com até 25 funções
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

As facções do tráfico no Rio passaram a operar como grandes corporações, distribuindo tarefas, especializando mão de obra e criando setores internos tão definidos quanto os de uma indústria. Um levantamento feito pelo GLOBO — com base em informações da Delegacia de Repressão aos Entorpecentes (DRE) da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio (MPRJ), além de entrevistas com ex-traficantes do Rio, intermediadas pela Central Única das Favelas (Cufa) — identificou 25 funções distintas que compõem hoje a engrenagem do crime organizado no estado.

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Para fora do Rio:

Os cargos vão de gerente de logística a responsável por engenharia de barricadas, passando por encarregados do monitoramento por drones e dos bailes funk nas comunidades. Pelo menos 20 desses cargos foram mapeados pela DRE ao longo das grandes operações de 2024 e 2025, além de investigações e análises financeiras que permitiram acessar a cadeia de comando e a divisão de tarefas das facções. Segundo Moysés Santana, delegado titular da DRE, o tráfico de drogas funciona como “uma empresa de grande porte”.

— O modelo atual demonstra que o tráfico de drogas no Rio opera com uma estrutura funcional altamente segmentada e profissionalizada — explica ele.

Dentro dessa engrenagem, o tráfico mantém funções tradicionais conhecidas há décadas no Rio: chefe da comunidade, gerente geral, gerente administrativo (“síndico”), operadores logísticos, operadores financeiros, soldados, vapores, radinhos e matutos. Mas o avanço tecnológico das facções e o aumento da capacidade bélica e financeira criaram uma nova geração de cargos, desconhecidos até poucos anos atrás.

Presídio federal:

Segundo o coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Gaesp/MPRJ), promotor de Justiça Fabio Corrêa, essa transformação foi acelerada no pós-pandemia, quando o Comando Vermelho (CV), por exemplo, passou a adotar uma lógica muito semelhante à das milícias, priorizando o controle territorial como eixo central de atuação, e não apenas a comercialização de drogas

— O comércio de drogas passou a ser quase uma atividade secundária — resume o promotor, ao explicar como a facção entendeu que controlar ruas, vielas, moradores, ferros-velhos, internet, comércio e até bailes funk era mais rentável e estratégico do que disputar preços na venda de cocaína e maconha.

É dessa mudança de eixo de “venda” para “domínio” que nasce a proliferação de novas funções dentro da engrenagem criminosa. Veja abaixo quais são:

Gerentes ou o mentores de barricadas

Uma dessas atividades é a de gerente ou mentor de barricadas. Ele é o responsável pela montagem e reposição de obstáculos nos acessos às comunidades. Esses criminosos decidem o posicionamento das barricadas para atrasar ou desviar o avanço policial.

Em novembro passado, a Polícia Civil prendeu Cosme Rogério Ferreira Dias, apontado como um “mentor das barricadas”, num condomínio de luxo no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste do Rio. Segundo as investigações, ele operava como uma espécie de engenheiro-chefe da engrenagem financeira que mantém o bloqueio permanente em áreas dominadas pelo Comando Vermelho.

Vida breve nas mãos do crime:

Embora as investigações apontem para uma estrutura cada vez mais segmentada, ex-traficantes ouvidos pela reportagem, sob condição de anonimato, descrevem um funcionamento menos formal no discurso, ainda que igualmente organizado na prática.

Um deles, que atuou por anos em favelas da Zona Norte, afirma que, em algumas comunidades, as barricadas nem sempre são obra de um único responsável fixo.

— O chefe manda fazer, e todo mundo tem que ajudar. Seja morador, morador de rua, usuário de crack. Cada um leva um material e coloca na rua. Quando a barricada precisa ser mais elaborada, o chefe chama um pedreiro e paga para fazer — relata o ex-traficante.

Os ferros-velhos sob sua influência — muitos deles já investigados por receptação — são suspeitos de financiar e abastecer o tráfico com toneladas de sucata metálica usada para erguer barreiras em comunidades estratégicas.

Relato:

Embora ele apresentasse como empresário do ramo da reciclagem, a polícia afirma que Cosme atuava, na prática, como chefe do braço financeiro do CV. Ele seria responsável tanto pela circulação de recursos oriundos de lavagem de dinheiro quanto pelo apoio logístico que alimenta a cadeia de suprimentos das barricadas.

Durante a operação que levou à sua prisão, agentes apreenderam 20 toneladas de cobre, além de computadores e veículos — entre eles caminhonetes e uma BMW. De acordo com a investigação, parte significativa dos recursos usados para montar e reconstruir barricadas vinha justamente da receptação e comercialização ilegal de cobre e outros metais.

O promotor explica que as barricadas, hoje um símbolo do poder territorial, foram se sofisticando em camadas. Começaram rudimentares, avançaram para trilhos de trem e, agora, atingiram um nível de engenharia clandestina com:

estruturas eletrificadas,

explosivos acoplados,

sistemas de detonação remota para atingir viaturas e blindados.

Ele ainda explica que o fenômeno ganhou tamanha complexidade que o estado passou a contar com algo inexistente no restante do país: um batalhão da Polícia Militar destinado especificamente a enfrentar esse tipo de bloqueio. Do outro lado, essa resposta acabou estimulando a profissionalização do chamado ‘mentor das barricadas’, figura que atua com equipe própria, organiza logística, repõe materiais e define a estratégia dos bloqueios.

— É uma função nova, que nasce dessa guerra por território e da eletrificação das barreiras — disse o promotor.

Gerentes de monitoramento por drone

Segundo o delegado, existem criminosos responsáveis por captar equipes de operadores de drone e uso de jammers e detectores, que exercem função de monitoramento da comunidade e da polícia por meio da tecnologia. Eles são os gerentes de monitoramento por drone. Há ainda o operador e, segundo o coordenador do Gaesp, os responsáveis pela contrainteligência aérea — como a captura de drones das forças de segurança.

Em outubro de 2025, as denúncias que embasaram a megaoperação que deixou 122 mortos nos complexos do Alemão e da Penha descrevem que o CV faz o monitoramento em suas comunidades a partir da tecnologia. Drones e câmeras de segurança servem para tomar conta do território, e do posicionamento de viaturas da polícia.

Segundo a denúncia, Carlos Costa Neves, conhecido como Gadernal, homem de confiança de Edgar Alves Andrade, o Doca, chefe do CV no Complexo da Penha, “exerce chefia sobre a grande maioria dos traficantes” e, entre outras atividades, orienta a compra de drones de vigilância.

Em uma conversa com Washington Cesar Braga da Silva, conhecido como Grandão ou Síndico da Penha, em 2023, Gadernal alega a necessidade de a facção atualizar seus equipamentos, com a compra de um drone com visão noturna. A falta do aparelho era motivo de queixa do comparsa, que dizia que só iria “ver escuro” durante a noite: “A gente tem que se adequar à tecnologia, entendeu?”, respondeu Gadernal a Grandão.

Naquele mesmo dia, Gadernal também orientou que Grandão realizasse “um monitoramento com drone da comunidade”, conforme analisado pelo MP. Na troca de mensagens, Gadernal manda: “Levanta o drone”. E é atendido por Grandão, que responde: “No alto”.

Já um relatório da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) aponta que Geovane Ribeiro dos Anjos, conhecido como Pinguim ou Du Gelo, um soldado do CV, utiliza drones para monitorar a polícia no Complexo da Penha. Isso ajuda aos criminosos se prepararem contra possíveis incursões dos agentes de segurança, diz o documento.

Outro responsável por monitoramentos é Juan Breno Malta Ramos, o BMW, apontado como gerente do tráfico na Gardênia Azul e chefe do grupo de matadores Equipe Sombra, aponta o Ministério Público. Segundo a denúncia, BMW tem "controle de diversas câmeras de monitoramento no Complexo da Penha e na comunidade Gardênia", graças à sua ascensão na facção: alguns dos equipamentos têm até sensor de movimentação, destaca o MPRJ.

— É um setor que não existia. Hoje, há grupos que planejam voos, monitoramento e até ações de contrainteligência aérea. Há pilotos de drone, responsáveis por monitorar equipes policiais, e grupos destinados não só a vigiar, mas a capturar drones das forças de segurança — detalha o coordenador do Gaesp.

Gerentes de eventos e bailes

Segundo o delegado Moysés Santana, há investigações em andamento que apontam a existência de um gerente de bailes e eventos do tráfico nos complexos da Penha e do Alemão, usados para lavar recursos de origem ilícita.

Fabio Corrêa destaca que os bailes e eventos comunitários, originalmente manifestações culturais, foram apropriados pelas facções.

— O baile é um movimento cultural. O que acontece é uma apropriação, que vem de muito tempo. O tráfico se vale desse espaço para produzir pertencimento, difundir valores e criar uma narrativa que facilite a cooptação dos mais jovens — explica o promotor.

Um produtor de eventos, que preferiu não se identificar, rejeita a classificação de “gerentes de bailes”:

— A gente produz evento como em qualquer lugar. Precisa de aval do chefe? Precisa. Mas todo morador precisa de autorização para tudo. O chefe do morro não sai da comunidade e quer ver o show. Então, eles autorizam.

Grupos de combate antiaéreo

Paralelamente ao uso dos drones, com a chegada de helicópteros cada vez mais presentes em operações policiais, o tráfico montou seus próprios grupos de combate antiaéreo. Segundo Corrêa, investigações apontam que esse núcleo reúne dois perfis distintos — os atiradores de elite, responsáveis pelos disparos de precisão, e os operadores de munição traçante, que corrigem a trajetória do tiro em pleno ar.

O grupo atua com táticas de guerrilha, estudando ângulos, rotas e vulnerabilidades dos helicópteros, numa tentativa de impor ao espaço aéreo o mesmo controle territorial que exercem no chão. É uma função nova, moldada pela disputa tecnológica entre crime e o estado.

— Com o uso crescente das aeronaves tripuladas, com helicópteros pelas polícias, eles passaram a desenvolver uma equipe justamente para fazer esse combate antiaéreo. São atiradores que se posicionam em lugares estratégicos e com munição traçante, que é aquela munição que vai corrigindo o tiro. A ideia é justamente derrubar a aeronave — contou o promotor.

Em junho deste ano, durante uma tentativa da Polícia Civil de capturar Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefe do tráfico no Complexo de Israel, um conjunto de favelas na Zona Norte do Rio, agentes encontraram uma igreja de fachada cuja estrutura era usada como abrigo para traficantes e ponto de ataque antiaério na comunidade de Parada de Lucas.

Em uma das salas, havia um buraco na parede voltado para a rua, usado como seteira — fresta por onde armas são apoiadas para garantir maior precisão nos disparos. A polícia explica que havia grupos que atuavam dentro dessas construções, com fuzis e lunetas. Essas equipes ficavam protegidas em pontos da comunidade, cobertas por muros de concreto, em posições privilegiadas.

Na época, o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi contou que, nos últimos cinco anos, os ataques às aeronaves policiais aumentou 700%.

Gerentes de extorsões

Na esteira da ocupação territorial, o tráfico passou a incorporar práticas típicas das milícias, criando uma função específica para organizar cobranças e impor regras econômicas nas áreas dominadas, de acordo com a DRE. Essa é uma função já mapeada pelo MP, que explica que há hoje a figura do gerente de "bairros", responsável por estruturar extorsões a comerciantes — e, em alguns casos, a moradores —, centralizar a arrecadação e fazer o repasse dos valores à liderança da facção. É um cargo de natureza administrativa, que opera como elo entre o controle territorial e o caixa da organização criminosa.

— Em investigações também foram identificadas a figura do gerente da área, responsável pela cobrança das extorsões. Para implementar as restrições impostas a comerciantes e, em alguns casos, até a moradores, há uma logística estruturada. Trata-se de uma organização que mantém controle da arrecadação, registra a contabilidade e realiza o repasse sistemático à liderança — explica Fabio Corrêa.

Gerentes de roubos de veículos e cargas

Segundo o subcoordenador do Gaesp, investigações mostram que os roubos passaram a integrar de forma estruturada a engrenagem financeira das facções, deixando de ser uma atividade periférica.

— Quando essa lógica mais agressiva se consolida, surge também a busca por ampliar as fontes de lucro. É nesse contexto que entram os roubos. A organização passa a destinar equipes específicas para essa atividade, integrando-as à própria engrenagem criminosa — afirma.

De acordo com o promotor, o roubo de veículos, em especial, cumpre múltiplas funções e "alimenta de muitas formas o tráfico" no Rio. Segundo ele, há articulação direta entre os assaltantes e a facção que domina o território.

— Há um liame entre a facção, que dá inclusive segurança para que se leve a carga roubada ou o carro roubado. Eles passam a operar esses subordinados. Existe aluguel de galpões, tudo isso em nome de laranjas. É uma engrenagem que passou a fazer parte da estrutura da organização criminosa — conta Corrêa.

Responsáveis por túneis, esconderijos ou bunkers

A especialização é tamanha que, segundo Santana, há forte indicação de mão de obra dedicada à construção e manutenção de túneis, bunkers e rotas de fuga subterrâneas. Diversas operações recentes encontraram "bunkers subterrâneos, rotas de fuga escavadas, compartimentos camuflados e verdadeiros depósitos subterrâneos de armas e drogas".

— Embora nem sempre os responsáveis pela escavação sejam encontrados no momento da operação, o padrão repetitivo observado indica que há mão de obra especializada na construção e manutenção desses espaços, seja por criminosos com experiência prévia em obras ou por terceiros cooptados para essa finalidade — disse Santana.

Funções auxiliares

Existem também funções auxiliares, como a do “formiguinha”, que transporta pequenas quantidades de droga com rapidez para lugares; o “fiel”, encarregado de circular pelas ruas durante a madrugada para observar o território e identificar movimentações consideradas estranhas; e o “sabadão” ou “malandrex”, a depender da comunidade — que são jovens recrutados apenas aos fins de semana ou em períodos de grandes eventos.

Entre as tarefas apontadas, estão:

passar recados internos e avisos rápidos;

dar suporte aos vapores e vendedores nos momentos de maior movimento;

monitorar discretamente a circulação no ponto;

fazer pequenas entregas dentro da comunidade;

organizar a logística interna, facilitando o fluxo entre setores.

Por que o tráfico se sofisticou tanto?

A Polícia Civil aponta dois motores centrais para a modernização dessa “empresa criminosa”: a proteção contra o estado, diante de operações especializadas, investigações telemáticas e ações de alta complexidade das polícias, e proteção interna, já que facções rivais mantêm disputas constantes por território e atacam estruturas umas das outras.

— As organizações criminosas passaram a investir em mecanismos próprios de contrainteligência criminal. Esse processo é contínuo e retroalimenta-se da impunidade percebida e da capacidade financeira das facções — enfatizou o delegado.

Para a DRE, o atual nível de profissionalização do tráfico é resultado direto da combinação entre poder econômico, domínio territorial e baixa percepção de risco por parte das facções. Segundo Moysés Santana, o mapeamento das funções só se tornou possível porque a DRE passou por um processo de fortalecimento em três pilares: pessoal, tecnologia e atuação operacional.

Nos últimos anos, a chegada de novos policiais formados em concursos recentes ampliou a capacidade técnica da unidade, especialmente para investigações telemáticas, financeiras e patrimoniais.

— Nenhuma ferramenta tecnológica substitui o empenho humano. O trabalho da DRE evoluiu porque seus policiais demonstram coragem, resiliência e profundo comprometimento institucional, enfrentando facções de alto poder bélico e atuando em áreas conflagradas. Investigações conduzidas pela DRE foram, inclusive, o ponto de origem da megaoperação no Complexo da Penha e Alemão, deflagrada no dia 28 de outubro, o maior golpe recente contra o Comando Vermelho — disse o delegado.

O delegado explica ainda que a estimativa de 20 funções distintas pode ser ainda maior em áreas com domínio consolidado de facções poderosas.

— As funções variam conforme a complexidade operacional da comunidade, o grau de domínio territorial da facção e a capacidade financeira do grupo criminoso. Em grandes complexos, como a Penha, esse número tende a ser ainda maior, dada a existência de setores estruturados dedicados a logística, finanças, defesa, comunicação, eventos e inteligência criminal — afirma Moyses Santana.