RJ em Foco
Meu escritório é na praia: cariocas trocam espaços fechados pelo trabalho à beira-mar
Dar expediente com o pé na areia é cada vez mais uma opção para quem consegue trabalhar de forma remota. Quem vem ao Rio a passeio também aproveita a oportunidade para curtir e faturar ao mesmo tempo
A água de coco está quase acabando, mas de onde vem tem mais. Assim como o wi-fi, que dá conta do funcionamento do notebook e do sinal de celular. Aquele barulhinho chato das notificações nem incomoda tanto, porque se mistura ao vaivém das ondas. Sim, o equipamento de trabalho, devidamente conectado, está sobre uma mesa de plástico e sob uma barraca na orla de Ipanema, Zona Sul do Rio. Ainda não dá para bradar “trabalhadores do mundo, uni-vos”, mas, para um grupo cada vez maior, as paredes do escritório desabaram e o ar-condicionado virou brisa. Praia e horário de expediente já não são mais opostos entre si.
Réveillon 2026:
Resgates no mar:
Carlos Eduardo Ernanny, por exemplo, garante que trabalha de pé na areia todos os dias. O empreendedor de 51 anos, criador do Tooda, sistema de digitalização das comandas de vendas das barracas de praia, transformou a orla em sede do seu negócio, além de ganha-pão.
— Tive a ideia em 2019. Trabalhava na área financeira e, quando saí, pensei: por que não digitalizar os barraqueiros? Antes, os pedidos eram anotados no papel, dava confusão. Hoje é tudo no sistema, como em restaurante. Transformei as barracas em espaços mais profissionais. No começo, só três aderiram. Agora, quase todas usam. A praia é literalmente o meu escritório — afirma o empresário, que trocou as reuniões em torno de uma mesa e cafezinho no escritório da Gávea por ambiente mais arejado.
Público recorde, shows incríveis, barracas na areia:
Pandemia
Por causa da pandemia de COVID-19, doença que causou 700 mil mortes no Brasil, a Organização Mundial da Saúde declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional entre 30 de janeiro de 2020 e 5 de maio de 2023. Mundo afora, o isolamento foi incentivado como medida de prevenção e impulsionou a prática do home office. Daí para a areia foi um pulo, a partir do calçadão. Vinícius Nascimento Coutinho, de 32 anos, produtor de eventos e músico, mora em Piedade, na Zona Norte do Rio, e aderiu ao que define como um refúgio produtivo. A caminho do mar, ou melhor, do trabalho, ele calcula o deslocamento com precisão para driblar trânsito, calor excessivo e multidões.
— Trabalhar na praia não é só para eliminar o estresse. Às vezes me salva. Em casa, além do trabalho, tem as demandas domésticas, das pessoas próximas. Aqui, não. Aqui você escolhe o ambiente — reconhece ele.
Vinícius, que tem a vantagem de fazer seu próprio horário, costuma “abrir os trabalhos” depois das 10h. Aproveita o metrô mais vazio e evita dias cheios. Ele revela outra estratégia, essa um jeitinho todo nosso: leva extensão para usar a energia de um comerciante cujo estabelecimento costuma frequentar. Seu point profissional é a Barraca da Denise, no Posto 9, em Ipanema.
— De segunda a quarta é o ideal. De quinta em diante começa a complicar. Sexta, sábado e domingo não existem. Cada um programa horário e local mais adequados e, para os iniciantes, aconselho trabalhar do quiosque, onde a estrutura é melhor — entrega sua escala Vinícius, antes de deixar mais uma dica: — Não dá para vir com muita coisa. Você está trabalhando, mas dividindo com lazer. Se exagerar, não faz bem nem uma coisa, nem outra.
A empresária Zilda Zompero, 53 anos, gostou da ideia: ela, que tem uma empresa de iluminação em Mato Grosso, escolheu Copacabana para fazer suas reuniões online, com clientes de vários estados.
— Estou sempre conectada. De frente para o mar o trabalho flui melhor. De manhã eu caminho, coloco o pé na areia. Isso muda a energia do dia. O Rio é um cartão-postal que inspira — diz.
’Networking’
A empresária, que estava hospedada no Copacabana Palace, preferiu trabalhar em um quiosque logo em frente, na altura do posto 3. Ela explica que, além da segurança, pode aproveitar para carregar o notebook e o celular. O mesmo “combo”, no mesmo ponto, atraiu Alisson Rodrigues, de 33 anos, cantor sertanejo que se prepara para fazer shows na cidade.
— É bom para pensar, para refletir, para compor e fazer reuniões. Sempre que venho ao Rio, venho para a praia. Mas é a primeira vez que vou trabalhar do quiosque. Acho que esse movimento abre a cabeça das pessoas — afirma ele, enquanto divide espaço com a empresária Zilda Zompero.
Como se vê, além de inspiração para o trabalho, o escritório na praia ainda favorece o “networking”.
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