Política
Izael contrapõe arena de R$ 600 milhões à educação de Maceió e acusa gestão de Cunha de priorizar “obras-vitrine”
Candidato a deputado federal pelo PT critica projeto da Arena dos Corais e cobra valorização dos servidores; dados confirmam baixos indicadores da capital, salários defasados, progressões atrasadas e problemas com vale-transporte
O candidato a deputado federal Izael Ribeiro (PT), presidente licenciado do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (Sinteal), utilizou as redes sociais para fazer um duro contraponto entre o projeto de uma arena de R$ 600 milhões anunciado pela Prefeitura de Maceió e a situação da educação pública municipal.
No vídeo, Izael questiona as prioridades estabelecidas durante a gestão iniciada por JHC e atualmente comandada pelo prefeito Rodrigo Cunha. Para ele, enquanto projetos de grande impacto visual recebem espaço privilegiado na propaganda e nas redes sociais, problemas antigos das escolas e dos profissionais da educação continuam sem solução.
“Vamos falar de Maceió: R$ 600 milhões para um estádio, mas uma das piores educações entre as capitais do país”, afirma o candidato.
A declaração foi feita depois que a Prefeitura anunciou o Parque e Arena dos Corais, previsto para Riacho Doce, no Litoral Norte da capital. O empreendimento terá uma arena para mais de 30 mil pessoas, integrada a um parque, e investimento inicial estimado em R$ 600 milhões.
Há, contudo, uma diferença importante: não se trata, até o momento, de R$ 600 milhões que a Prefeitura anunciou que retirará diretamente dos cofres municipais. O projeto está estruturado para uma Parceria Público-Privada (PPP), e o modelo econômico definitivo dependerá do processo de concessão. O leilão está previsto preliminarmente para o primeiro semestre de 2027.
É nesse contraste entre um projeto dessa dimensão e as reivindicações da educação que Izael concentra o ataque político.
Ideb melhora, mas Maceió permanece na parte de baixo
No vídeo, Izael afirma que os números do Ideb colocaram Maceió na última posição entre as capitais brasileiras.
Esse ponto, literalmente, não está correto.
Os dados do Ideb de 2025, divulgados pelo Inep em agosto, mostram que Maceió alcançou 5,6 nos anos iniciais do ensino fundamental e 4,3 nos anos finais, contra 5,3 e 4,1, respectivamente, na avaliação anterior. Portanto, houve crescimento dos indicadores.
O próprio Sinteal, entidade que Izael presidia antes de se licenciar para a campanha, publicou análise afirmando que Maceió ocupou a quinta pior posição entre as capitais nos anos iniciais, e não a última.
A correção, entretanto, não elimina o ponto central de sua crítica: mesmo com a evolução, a capital alagoana continua posicionada entre os piores desempenhos do grupo analisado.
Izael utiliza justamente essa situação para questionar se a prioridade administrativa deveria estar numa arena de centenas de milhões de reais ou na recuperação dos problemas estruturais da rede municipal.
“Obras-vitrine”
“Enquanto esses projetos de luxo ganham prioridade e vitrine nas redes sociais, a realidade das nossas escolas é o abandono”, afirma Izael.
O candidato chama o projeto da arena de uma política de “vitrine” e diz que equipamentos de grande porte podem correr o risco de se transformar em “elefantes brancos” quando serviços essenciais continuam apresentando deficiências.
A Prefeitura apresenta uma visão diferente. Segundo o Município, a Arena dos Corais poderá receber aproximadamente 1,5 milhão de pessoas por ano, provocar cerca de R$ 200 milhões em movimentação econômica e gerar milhares de empregos. O complexo terá ainda espaços públicos de esporte, cultura e lazer.
É, portanto, uma disputa clara sobre prioridades administrativas: enquanto a gestão vende a arena como investimento capaz de movimentar a economia, Izael sustenta que o tamanho do empreendimento contrasta com demandas básicas ainda não resolvidas na educação.
Servidores com vencimento-base abaixo do mínimo
É justamente na situação dos trabalhadores que o discurso do candidato encontra alguns de seus dados mais fortes.
No vídeo, Izael afirma que há profissionais da educação municipal com remuneração inferior ao salário mínimo.
A reivindicação não surgiu durante a campanha.
Em março deste ano, o próprio Sinteal denunciou que funcionários da educação iniciavam a carreira com vencimento-base abaixo do salário mínimo, necessitando de complementação para atingir o valor legal. Na ocasião, Izael já cobrava a reformulação da tabela salarial.
É importante a distinção: não significa necessariamente que o Município efetivamente deposite menos que o salário mínimo ao trabalhador, porque há mecanismos de complementação. A crítica sindical é que o vencimento-base da carreira começa abaixo do mínimo, o que tem repercussão sobre toda a estrutura remuneratória.
Essa reivindicação aparece em documentos e mobilizações sindicais desde os primeiros anos da gestão JHC.
Vale-transporte atrasado
Outro ponto levantado por Izael também encontra registro anterior à campanha eleitoral.
Em maio, representantes do Sinteal reuniram-se com a Secretaria Municipal de Educação e colocaram entre as principais reivindicações os “atrasos constantes no vale-transporte”, além das progressões, licença-prêmio, estrutura das escolas, auxílio para internet e revisão de benefícios.
Dias antes, o sindicato havia convocado paralisação cobrando justamente solução para o vale-transporte atrasado.
Portanto, nesse ponto, a fala eleitoral de Izael reproduz uma reivindicação formal que o sindicato já vinha apresentando à própria administração municipal.
Progressões com pendências desde 2009
Izael também acusa a gestão de manter progressões funcionais represadas durante anos.
Há documentação sindical que sustenta a existência de um passivo antigo.
Durante protesto realizado em maio, o Sinteal cobrou “pagamento imediato das progressões que não foram efetivadas” e afirmou existirem retroativos pendentes desde 2009.
Em outra assembleia, a entidade relatou casos de trabalhadores que tiveram a progressão reconhecida formalmente, mas ainda não receberam a repercussão financeira correspondente.
“É uma progressão somente no papel”, afirmou Izael naquela ocasião.
A Prefeitura, por sua vez, já divulgou ações de regularização. Em janeiro de 2022, por exemplo, anunciou a homologação de progressões de mais de dois mil servidores e informou que vinha implementando biênios no contracheque de profissionais do magistério e administrativos.
Ou seja: houve pagamentos e regularizações, mas o sindicato sustenta que ainda existe um passivo não solucionado.
Reajuste de 6% foi parcelado
Outro dado citado por Izael é objetivo.
Neste ano, os servidores municipais receberam reajuste de 6% dividido em três parcelas de 2%: julho, setembro e novembro, com efeitos financeiros retroativos à data-base de maio. A medida foi transformada na Lei Municipal nº 7.754/2026.
A educação, entretanto, manteve mobilização própria.
O Sinteal afirmou que os 6% foram encaminhados sem negociação específica com os profissionais da educação e decidiu continuar pressionando pela reestruturação do Plano de Cargos e Carreiras.
É esse contexto que Izael transforma agora em argumento eleitoral.
Sucessivas mudanças na Educação
O candidato ainda critica o que classifica como instabilidade administrativa da Semed, mencionando sete mudanças no comando da pasta.
Os registros públicos confirmam que a secretaria passou efetivamente por sucessivas mudanças de titulares desde o início da administração JHC.
Elder Maia iniciou a gestão em 2021; Luís Rogério Lima estava no comando em 2022; Jó Pereira assumiu posteriormente; Victor Braga foi nomeado em junho de 2024; Rogério voltou ao cargo; e, em maio deste ano, João Folha assumiu a secretaria.
O número exato de “sete trocas” citado no vídeo depende de como são contabilizadas passagens, retornos e eventuais períodos interinos. O que é verificável é uma sequência significativa de substituições no comando da Educação municipal.
Prefeitura apresenta avanços
A crítica de Izael encontra contraponto nos números divulgados pela administração municipal.
A Prefeitura afirma ter ampliado o número de vagas da rede de cerca de 60 mil em 2025 para uma perspectiva superior a 68 mil em 2026, além de elevar de 159 para 172 o número de unidades escolares. Também divulgou a convocação de mais de 1.500 profissionais somente nos primeiros meses deste ano.
A administração também comemora a evolução do Ideb de 5,3 para 5,6 nos anos iniciais e de 4,1 para 4,3 nos anos finais.
São justamente esses resultados que a gestão utiliza para sustentar que a educação avançou, enquanto o Sinteal considera que os indicadores continuam insuficientes diante da posição relativa de Maceió e dos problemas trabalhistas ainda existentes.
“A foto bonita na internet”
Izael encerra o vídeo transformando o debate administrativo em discurso eleitoral.
Segundo ele, as administrações de JHC e Rodrigo Cunha teriam priorizado projetos de grande apelo visual e de comunicação enquanto problemas essenciais permanecem sem resposta.
“A gestão do JHC e Rodrigo Cunha prioriza a foto bonita na internet, mas abandona quem precisa do serviço público no dia a dia”, afirma.
A partir daí, o presidente licenciado do Sinteal apresenta sua própria candidatura como alternativa e pede votos para deputado federal.
Izael se afastou da presidência do sindicato em julho para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados. Está registrado como Izael do Sinteal, número 1300, pelo PT.
A candidatura transforma um embate que já existia há anos entre o Sinteal e a gestão municipal em tema direto da campanha eleitoral.
E a comparação escolhida por Izael é politicamente simples e de fácil compreensão: de um lado, uma arena projetada com investimento inicial de R$ 600 milhões; do outro, uma rede de educação que, apesar de ter melhorado no Ideb, continua entre os piores desempenhos das capitais e convive com reivindicações antigas de seus trabalhadores.
É esse contraste que o candidato pretende levar agora das assembleias sindicais para as urnas.
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