Política
Wadson Correia diz que ausência de JHC pode colar imagem de “candidato-fujão”
Jornalista avalia que tucano tenta controlar exposição e evitar ambientes imprevisíveis, mas alerta que faltar a sabatinas abre espaço para adversários e eleitores definirem o significado da ausência
A decisão de JHC (PSDB) de não comparecer à entrevista que abriria a série de sabatinas da TV Gazeta ganhou uma nova leitura nesta terça-feira (1º). Em vídeo publicado nas redes sociais, o jornalista Wadson Correia analisou as consequências políticas da ausência e alertou que, em uma eleição equilibrada, deixar uma cadeira vazia diante da imprensa pode custar mais do que simplesmente perder 30 minutos de exposição na televisão.
Para Wadson, o episódio não precisa ser interpretado automaticamente como medo, despreparo ou ausência de propostas. Há outra hipótese, segundo ele: uma estratégia deliberada de controle da exposição pública, na qual o candidato prioriza ambientes previsíveis, como suas próprias redes sociais, e reduz a participação em espaços onde não controla as perguntas.
O problema, segundo o jornalista, é que uma eleição para governador exige justamente o contrário.
“Uma sabatina existe justamente para testar propostas”, argumenta Wadson, ao lembrar que o candidato precisa explicar quanto seus programas custarão, de onde sairão os recursos, quais serão os prazos e se aquilo que promete durante a campanha é realmente viável para Alagoas.
Ausência em espaço definido previamente
JHC deveria ter aberto, na manhã desta terça-feira, a série de entrevistas da Organização Arnon de Mello com os candidatos ao Governo de Alagoas.
A participação estava prevista para as 7h30, no Bom Dia Alagoas, e teria duração de 30 minutos. Segundo a TV Gazeta, as regras, a ordem e as datas foram discutidas previamente com representantes das candidaturas. A assessoria do tucano comunicou na noite de segunda-feira (31) que ele não compareceria.
É justamente esse contexto que, na avaliação de Wadson Correia, transforma uma ausência aparentemente simples em um problema político.
Em uma disputa apertada, cada gesto passa a ser interpretado pelo eleitor.
E, quando o próprio candidato não explica suas posições em um ambiente jornalístico independente, deixa o espaço aberto para que adversários, jornalistas e eleitores façam suas próprias interpretações.
Ambiente controlado x perguntas imprevisíveis
Wadson chama atenção para uma característica cada vez mais presente nas campanhas políticas: candidatos conseguem construir grande presença digital sem necessariamente se submeter a entrevistas tradicionais.
Nas redes sociais próprias, a campanha escolhe o assunto, o momento da gravação, o cenário, as imagens que serão utilizadas e até quais trechos chegarão ao público.
Uma entrevista ao vivo funciona de maneira diferente.
O jornalista pode interromper uma resposta, pedir números, confrontar uma promessa com o orçamento disponível, cobrar explicações sobre episódios anteriores e perguntar sobre temas que não estavam previstos pela equipe de comunicação.
Para Wadson, evitar esse ambiente pode até fazer sentido dentro de uma estratégia de marketing eleitoral. Politicamente, entretanto, há um preço.
Quanto mais um candidato busca controlar a própria exposição, maior pode se tornar a percepção de que não deseja enfrentar perguntas que não foram previamente escolhidas.
Iprev e relação com a imprensa são assuntos que precisam de respostas
O jornalista cita exemplos de questões que JHC precisaria enfrentar numa sabatina.
Uma delas envolve a relação do candidato e de seu grupo político com jornalistas e veículos de comunicação, tema que voltou ao debate público diante do crescimento de ações judiciais na campanha.
Nesta terça-feira, inclusive, o colunista Edivaldo Júnior, da própria GazetaWeb, publicou análise sobre a multiplicação de medidas judiciais da Federação PSDB/Cidadania contra jornalistas, veículos, adversários e responsáveis por perfis nas redes sociais.
Outro tema citado por Wadson é a investigação envolvendo recursos previdenciários do município de Maceió.
A Polícia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da União, deflagrou em 10 de agosto a Operação Compliance 82, que investiga duas aplicações de recursos do regime próprio de previdência municipal realizadas em 2023 e 2024, totalizando R$ 97 milhões.
Segundo a PF, a investigação busca esclarecer o processo de credenciamento, cotação, análise de risco, governança e tomada de decisão que antecedeu os investimentos em letras financeiras emitidas por uma instituição privada. A apuração está em andamento e não significa, por si só, responsabilização de JHC.
Wadson faz questão de estabelecer essa ressalva.
Ele afirma que não pretende antecipar conclusões nem atribuir responsabilidades antes do encerramento das investigações da Polícia Federal.
O ponto de sua análise é outro: esses assuntos existem e precisam ser respondidos por quem pretende governar Alagoas.
“Debates e sabatinas não são favores”
Um dos pontos centrais do vídeo é a defesa do papel da imprensa durante uma eleição.
Para Wadson, entrevistas e debates não podem ser vistos pelos candidatos como uma concessão feita às emissoras ou aos jornalistas.
São mecanismos pelos quais o eleitor consegue comparar candidatos.
“Debates e sabatinas não são favores às emissoras, são instrumentos de prestação de contas”, afirma.
A lógica, ressalta ele, precisa valer para todos os candidatos.
Quem pretende administrar o Estado precisa explicar não apenas o que fará, mas principalmente como fará.
Isso significa responder sobre dinheiro, orçamento, cronograma, viabilidade das propostas, problemas administrativos, alianças políticas e qualquer outro assunto de interesse público.
Vídeo editado não responde pergunta difícil
Wadson também estabelece uma diferença entre comunicação eleitoral e prestação de contas.
Segundo ele, uma candidatura não pode se resumir à construção de uma imagem pública.
Vídeos cuidadosamente produzidos, cortes para Instagram, discursos previamente preparados e frases escolhidas pela própria campanha são ferramentas legítimas de comunicação eleitoral.
Mas não substituem entrevistas.
“Vídeos editados e frases cuidadosamente escolhidas não substituem respostas às perguntas difíceis”, resume o jornalista.
É justamente nesse ponto que a estratégia de evitar determinados espaços pode começar a produzir efeito contrário.
O candidato controla o vídeo que publica.
Não controla a pergunta que receberá numa entrevista.
E tampouco consegue controlar completamente a interpretação que a sociedade fará quando decide não aparecer.
O risco do “candidato-fujão”
É na parte final da análise que Wadson aponta o possível efeito eleitoral mais perigoso para JHC.
Na internet, explica, a ausência dificilmente permanecerá restrita a uma discussão sobre “estratégia de comunicação”.
O ambiente das redes trabalha com simplificações, apelidos, memes e rótulos.
E o candidato que repetidamente deixa de comparecer a entrevistas pode acabar sendo apresentado pelos adversários e até por parte do público como “candidato-fujão”.
Uma vez disseminado, esse tipo de rótulo é difícil de controlar.
A própria ausência desta terça-feira já repercute politicamente. A Gazeta informou oficialmente que JHC não compareceu à entrevista que abriria a série com os candidatos ao Governo.
Para Wadson, portanto, o cálculo eleitoral pode acabar se invertendo.
O que inicialmente poderia representar uma tentativa de proteger o candidato de uma pergunta incômoda pode provocar desgaste muito maior nas redes sociais do que uma resposta difícil durante uma entrevista.
Quem falta deixa os outros responderem por ele
A conclusão do jornalista resume o risco.
Em uma eleição disputada, evitar uma sabatina não significa apenas deixar perguntas sem respostas.
Significa também entregar aos adversários e ao próprio eleitor o poder de interpretar por que o candidato não apareceu.
E, nesse terreno, quem se ausenta perde o controle da narrativa que justamente tentava preservar.
JHC pode considerar mais seguro priorizar ambientes nos quais controla a comunicação.
Mas a política eleitoral tem uma regra difícil de contornar: a cadeira vazia também comunica.
E, como alerta Wadson Correia, se o candidato não explica sua ausência e não enfrenta as perguntas, outros acabarão explicando por ele.
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