Política

‘Que democracia é essa?’: Marcone Chaveiro diz ter sido processado por Raquel Lyra após cobrar auxílio-enchente; Veja Vídeo

Influenciador pernambucano e torcedor símbolo do Sport afirma que ação surgiu depois de críticas à condução do benefício para vítimas das chuvas; episódio reacende debate sobre judicialização da crítica política, fenômeno que já marca a campanha eleitoral em Alagoas

Redação 27/08/2026
‘Que democracia é essa?’: Marcone Chaveiro diz ter sido processado por Raquel Lyra após cobrar auxílio-enchente; Veja Vídeo
Marcone Chaveiro é processado por Raquel Lyra: "Não tenho dinheiro", disse ele

Conhecido pelo bom humor, pelas resenhas sobre futebol e pelo bordão “Aí dentro, papai”, o influenciador pernambucano Marcone Chaveiro apareceu nas redes sociais desta vez para falar de um assunto bem mais sério. Figura popular no Recife e em Olinda e um dos torcedores mais conhecidos do Sport Club do Recife, Marcone afirmou ter recebido um processo da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD).


Segundo o relato feito por ele em vídeo, a ação teria sido motivada pelas cobranças que vinha fazendo em relação ao Auxílio Pernambuco, benefício criado para atender famílias atingidas pelas fortes chuvas deste ano.


“Galera, isso aí é um processo que eu recebi da governadora Raquel Lyra. Gente, que democracia é essa?”, questionou Marcone mostrando a citação do TER pernambucano.

O influenciador sustenta que suas manifestações foram dirigidas à administração estadual e à situação das famílias que ainda reivindicavam o benefício, e não à vida pessoal da governadora.

“Eu falei do auxílio-enchente, que ela não pagou o povo, e disse que ela pagasse ao povo. Se ela pagar o povo, o povo deixa de falar dela, deixa de estar fazendo paralisação no meio da rua”, afirmou.


A cobrança feita por Marcone tem como pano de fundo uma controvérsia real em Pernambuco. O Auxílio Pernambuco foi criado após as chuvas de maio e estabeleceu pagamento único de R$ 2,5 mil para 3,5 mil famílias de baixa renda em 27 municípios. Ao longo de junho e julho, moradores realizaram protestos cobrando cadastramento e pagamento. Em julho, o Governo do Estado informou que as 3,5 mil famílias selecionadas haviam recebido o benefício.


O problema, entretanto, não terminou com o pagamento dessa cota. Reportagem publicada em 20 de agosto pela Marco Zero Conteúdo mostrou famílias de Olinda que sofreram perdas nas enchentes de 1º de maio e continuavam sem receber o auxílio. O próprio desenho do programa limitou o atendimento a 3,5 mil famílias, embora o número de atingidos e de pessoas cadastradas tenha sido superior.


Assim, a declaração de Marcone de que a governadora “não pagou o povo” representa a crítica política feita por ele. Os dados disponíveis mostram que houve pagamentos, mas também famílias atingidas que ficaram fora do benefício, situação que provocou protestos e cobranças públicas.

“Ela tem que aprender o que é democracia”


No vídeo, Marcone demonstra surpresa principalmente por considerar que sua manifestação fazia parte do direito de qualquer cidadão de questionar a atuação de quem ocupa um cargo público.
“Eu não falei dela, eu falei da gestão dela. Ela é política, ela é governadora. Ela tem que escutar, ela tem que aprender o que é democracia. Não é ditadura, não”, disse.
Em outro momento, afirmou que pessoas públicas precisam conviver com críticas e cobranças.
“Ela não tem que estar por aí processando ninguém, não”, declarou.
Marcone ainda recorreu ao humor que o tornou conhecido nas redes sociais para comentar a situação.
“Eu me achei muito importante receber um processo de uma governadora. Fiquei triste que eu não tenho dinheiro para dar a ela, mas a gente vai ver”, ironizou, antes de encerrar com seu conhecido “cuida”.
Marcone reúne centenas de milhares de seguidores e tornou-se uma das figuras populares ligadas ao futebol pernambucano, especialmente ao Sport. Neste ano, chegou a anunciar que concorreria a deputado estadual, mas desistiu da candidatura em agosto.
Até o momento, não foram localizados nas fontes públicas consultadas detalhes suficientes sobre o processo mencionado pelo influenciador — como número, pedidos formulados e conteúdo exato apontado pela governadora como ofensivo. Por isso, a existência e a motivação da ação são apresentadas nesta reportagem a partir do relato público de Marcone Chaveiro.

Um roteiro que Alagoas conhece bem


O episódio narrado por Marcone chama atenção também fora de Pernambuco porque lembra uma prática que ganhou dimensão incomum na atual disputa política de Alagoas: a crescente judicialização de críticas, reportagens e manifestações nas redes sociais.
No estado alagoano, jornalistas, veículos de comunicação, influenciadores, sindicalistas e responsáveis por páginas nas redes sociais têm sido levados à Justiça em ações relacionadas principalmente a conteúdos envolvendo o ex-prefeito de Maceió e candidato ao Governo, JHC (PSDB), e seu grupo político.
Levantamento divulgado em junho apontava 35 ações judiciais envolvendo jornalistas e veículos na justiça comum, boa parte delas relacionada à cobertura do caso dos investimentos do Iprev Maceió no Banco Master. No TRE já ultrapassa os 200 processos.
A movimentação não parou com o início da campanha. Nesta semana, a coligação de JHC apresentou novas medidas na Justiça Eleitoral envolvendo veículos, jornalistas e perfis que reproduziram críticas feitas durante a disputa.
A própria Justiça Eleitoral alagoana já estabeleceu limites para esse tipo de ofensiva. Em julho, ao extinguir uma representação contra um perfil que havia criticado JHC, o TRE-AL destacou que quem exerce função pública está submetido a grau mais elevado de escrutínio e crítica. Em outra decisão, um juiz eleitoral advertiu que a Justiça não deve assumir a função de “revisora editorial da imprensa”.

Crítica dura também faz parte da democracia


O debate não significa que a liberdade de expressão permita divulgar deliberadamente informações falsas ou promover ataques contra a honra de qualquer pessoa. A proteção constitucional não é absoluta.
Mas a jurisprudência eleitoral brasileira estabelece uma diferença importante entre ofensa ou mentira deliberada e a crítica política, mesmo quando esta é dura, incômoda ou contundente.
O Tribunal Superior Eleitoral reafirmou em decisões recentes que críticas políticas severas fazem parte da arena democrática e que a intervenção judicial deve ser excepcional quando não houver falsidade comprovada, grave descontextualização ou ataque ilícito à honra.
É exatamente nesse terreno que o episódio envolvendo Marcone Chaveiro deverá ser analisado quando forem conhecidos os fundamentos da ação.
Uma coisa é o direito de qualquer cidadão — inclusive uma governadora — recorrer ao Judiciário quando considera sua honra atingida. Outra, bem diferente, é transformar o processo judicial em resposta automática a cobranças sobre atos administrativos, políticas públicas e utilização do dinheiro público.
Em Alagoas, o excesso de ações desse tipo já colocou a liberdade de imprensa e de expressão no centro da campanha eleitoral. Agora, o desabafo de uma das figuras mais populares das redes pernambucanas mostra que o debate atravessa a divisa.
Se processar quem critica governos virar método de enfrentamento político, a pergunta feita de maneira simples por Marcone Chaveiro deixa de ser apenas um desabafo de internet e passa a merecer resposta institucional:
“Que democracia é essa?”