Política
JHC tenta escapar da sombra de Arthur, mas prazo final mantém Lira no centro do jogo
Depois de atas desenharem uma chapa fortemente condicionada pelo grupo de Arthur Lira e pelo PL, JHC movimenta os bastidores para demonstrar autonomia; especulação sobre candidatura ao Senado aumenta tensão a poucas horas do prazo para os registros
A política alagoana entrou nesta sexta-feira (14) nas suas horas mais imprevisíveis desde o encerramento das convenções partidárias.
E uma semana pode fazer uma diferença enorme.
Na edição impressa da Tribuna do Sertão que circulou na segunda-feira (10), a pergunta estampada era direta: quem manda na chapa de JHC?
A reportagem mostrou como o ex-prefeito de Maceió, depois de deixar o PL justamente em busca de maior autonomia política, terminou novamente sentado à mesa com Arthur Lira e com o partido do qual havia rompido meses antes.
Mais do que isso: as atas partidárias colocaram no papel uma arquitetura na qual Arthur Lira e o PL passaram a exercer enorme influência sobre a composição que deveria sustentar JHC na disputa pelo Governo de Alagoas.
Naquele momento, a imagem política era inevitável: JHC parecia novamente diante do “padrinho” cuja influência havia tentado deixar para trás.
Quatro dias depois, o cenário mudou.
Ou, pelo menos, JHC parece empenhado em demonstrar que mudou.
JHC QUER MOSTRAR QUE MANDA
A movimentação das últimas horas produz uma nova leitura do tabuleiro.
Se até o fechamento da edição impressa, no domingo, Arthur Lira aparecia como o grande articulador da aliança que colocava JHC no Governo, garantia ao PL a indicação da vice e preservava o próprio Arthur para o Senado, agora surgem sinais de que JHC tenta recuperar o controle político sobre seu destino.

É nesse ambiente que apareceu a mais explosiva das especulações: JHC poderia abandonar a candidatura ao Governo para disputar o Senado.
Há versões diferentes circulando.
O UOL publicou nesta quinta-feira (13) que JHC teria comunicado ao presidente Lula e à direção do PSDB a intenção de disputar uma cadeira no Senado. Já a revista Veja trata o movimento com maior cautela e informa que aliados admitem que JHC avalia essa possibilidade.
Até o fechamento desta reportagem, porém, não há declaração pública de JHC anunciando que será candidato ao Senado.
E esse detalhe é fundamental.
Por enquanto, portanto, o Senado deve ser tratado como aquilo que efetivamente é no terreno público: uma possibilidade que movimenta os bastidores e que ainda depende de definição política e formalização eleitoral.
Mas apenas o fato de a hipótese ter ganhado força já provoca uma mudança radical na relação de poder.
Porque, se JHC for para o Senado, deixa de ser o candidato a governador cuja chapa estava sendo desenhada sob forte influência de Arthur Lira e passa a disputar exatamente o mesmo cargo pretendido pelo ex-presidente da Câmara.
O afilhado, nesse cenário, não estaria pedindo a bênção ao padrinho.
Estaria disputando espaço com ele.
O PADRINHO PERDEU O CONTROLE?
Essa talvez seja a pergunta política desta sexta-feira.
Na semana passada, Arthur Lira parecia ter executado uma de suas mais sofisticadas articulações eleitorais.
Sua Federação União Progressista condicionou formalmente o apoio ao Governo ao nome de JHC.
Ao mesmo tempo, entregou ao PL a indicação do candidato a vice-governador.
Arthur permaneceu preservado para uma das vagas do Senado.
O PL formalizou exigências semelhantes.
E JHC, que havia saído daquele partido meses antes em busca de liberdade para montar sua chapa, parecia terminar novamente submetido a uma negociação na qual outros aliados determinavam partes fundamentais de sua candidatura.
Agora, JHC tenta transmitir outra imagem.
A de que ainda controla o próprio destino.
A de que pode mudar de cargo.
A de que pode redesenhar a própria chapa.
E, principalmente, a de que Arthur Lira não tem poder para determinar sozinho os rumos de sua candidatura.
Essa movimentação explica parte da temperatura política das últimas horas.
A ATA DE JHC LHE DEU A CHAVE
Há uma razão documental para que praticamente todas as possibilidades continuem abertas.
A ata da Federação PSDB/Cidadania não definiu nominalmente seus candidatos majoritários.
Em vez disso, entregou à Comissão Executiva da Federação, presidida por JHC, poderes para indicar os nomes para governador, vice-governador e Senado até o prazo final para o pedido de registro das candidaturas.
O documento foi além.
Conferiu poderes para modificar decisões tomadas na própria convenção, incluir ou excluir partidos da coligação, autorizar indicações de aliados e fazer os ajustes necessários à composição eleitoral.
Na prática, JHC ganhou uma poderosa ferramenta para estas últimas horas de negociação.
E amanhã será um dia decisivo.
O RELÓGIO MARCA 19 HORAS
Partidos, federações e coligações têm até 19 horas deste sábado, 15 de agosto, para requerer à Justiça Eleitoral o registro dos candidatos a governador, vice-governador, senador e respectivos suplentes, além dos cargos proporcionais.
É esse prazo que transforma as próximas horas num campo fértil para todo tipo de articulação.
Um detalhe jurídico merece ser registrado: 15 de agosto não é o prazo final absoluto para qualquer substituição de candidato. A legislação eleitoral prevê hipóteses de substituição posteriormente, observados os requisitos e os respectivos prazos. O que termina neste sábado é o prazo ordinário para os pedidos de registro das candidaturas escolhidas para disputar a eleição.
Politicamente, contudo, sábado representa uma fronteira.
Porque alguma configuração terá de ser apresentada.
E é exatamente por isso que telefones não param, reuniões se multiplicam e versões diferentes surgem a cada hora.
TUDO PODE ACONTECER. INCLUSIVE NADA
Existe ainda uma possibilidade que costuma ser esquecida quando os bastidores políticos entram em ebulição:
nada mudar.
JHC pode permanecer candidato ao Governo.
Arthur Lira pode continuar candidato ao Senado.
PL, Federação União Progressista e PSDB podem chegar a um entendimento.
A vice pode ser definida dentro do arranjo que vinha sendo construído.
E o desenho apresentado pelas atas poderá, com ajustes, sobreviver ao terremoto político desta semana.
Ou não.
JHC pode efetivamente decidir pelo Senado.
Nesse caso, será necessário encontrar outro nome para o Governo e reorganizar praticamente toda a engenharia da aliança.
E surgirá um problema ainda maior: como acomodar dois candidatos com peso eleitoral como JHC e Arthur Lira numa disputa em que Renan Calheiros já ocupa uma das principais posições do outro bloco político?
A simples possibilidade explica a tensão.
ARTHUR CONTINUA NO CENTRO
Há, entretanto, uma ironia em toda essa tentativa de JHC demonstrar independência.
Mesmo quando tenta escapar de Arthur Lira, Arthur continua sendo o personagem em torno do qual a movimentação é interpretada.
Se JHC permanece no Governo, a pergunta será quanto precisou ceder para manter Lira e o PL em sua coligação.
Se JHC vai ao Senado, a pergunta será se decidiu enfrentar politicamente Arthur.
Se surgir um terceiro candidato ao Governo, a pergunta será quem o indicou e quem conseguiu preservar mais espaço na nova composição.
Ou seja: mesmo quando a tentativa é demonstrar que o padrinho já não dá as cartas, é a reação do padrinho que ajuda a medir o tamanho da mudança.
Na matéria publicada segunda-feira, a questão era saber até onde JHC estaria disposto a ceder para reunir Arthur Lira e o PL em seu palanque.
Nesta sexta-feira, a pergunta mudou um pouco.
Agora é preciso saber até onde JHC está disposto a ir para demonstrar que não precisa mais pedir bênção a Arthur Lira.
As próximas horas poderão responder.
Ou poderão produzir mais perguntas.
Porque, até as 19 horas deste sábado, a política de Alagoas permanecerá com o tabuleiro aberto.
E, quando o poder está em jogo, tudo pode acontecer.
Inclusive nada.
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