Política
CDH: violência e falta de estrutura ameaçam atendimento à saúde indígena
Profissionais de saúde enfrentam condições precárias e diversas violências, conforme relato em audiência pública da CDH.
Os profissionais de saúde que atendem os povos indígenas são submetidos a condições precárias de trabalho e diversos tipos de violências. Os relatos foram apresentados nesta quinta (6) durante audiência pública promovida pela Comissão de Direitos Humanos do Senado (CDH).
A audiência ocorreu a pedido da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), presidente da CDH. Ela ressaltou que esses relatos tratam de casos que ocorrem em diversas regiões do país.
— Tais ocorrências não apenas colocam em risco a integridade física desses trabalhadores, mas também comprometem a continuidade da assistência prestada às comunidades indígenas, afetando o direito fundamental à saúde.
A senadora destacou que "é dever do Estado assegurar que esses profissionais desempenhem suas atividades em condições dignas, seguras e adequadas". Também afirmou que "a proteção daqueles que cuidam da saúde dos povos indígenas é requisito indispensável para o fortalecimento da política de atenção à saúde indígena e para a efetivação de direitos assegurados pela Constituição".
Além disso, Damares defendeu a continuidade desses trabalhadores nas comunidades, evitando assim a rotatividade de profissionais, o que é crucial após a conquista da confiança dos indígenas.
Assassinato
A morte do agente de saúde indígena Geovane Yanomami, executado a tiros em 17 de julho durante o exercício de sua função, foi lembrada por Joana Gouveia Mendes, presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimento Privado de Serviço de Saúde do Estado de Roraima.
Geovane Yanomami foi assassinado em meio a um conflito entre comunidades na região do Xitei, em Roraima.
Joana relatou que, além da violência física, esses funcionários enfrentam frequentemente casos de assédio moral e sexual, além da desvalorização profissional. Ela acrescentou que os servidores que atendem os indígenas “não medem esforços para desempenhar seu papel, muitas vezes arriscando as próprias vidas”.
— A impunidade deixa os trabalhadores frustrados. Além disso, eles sofrem com a falta de condições adequadas de trabalho, como alojamentos, equipamentos, materiais e remédios. Falta até mesmo estrutura para conservação de alimentos, o que compromete a alimentação desses profissionais. Muitos não querem mais entrar nesses territórios, principalmente após casos como o assassinato do Geovane — declarou.
Acesso
Um dos problemas apontados por Lurdelice Capitâ, coordenadora do Fórum de Presidentes de Conselhos Distritais de Saúde Indígena, foi a dificuldade de acesso às regiões a serem atendidas.
— Faltam voos e, em muitas regiões, o acesso só é possível por meio de embarcações. Faltam viaturas, faltam transportes e, vale lembrar, não se trata de uma equipe somente, mas de toda uma estrutura — salientou.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde no Estado de Tocantins, Manoel Pereira de Miranda, também abordou a questão. Ele contou que os profissionais de saúde indígena percorrem longas distâncias a pé em seu estado, pois os rios da região secam em alguns períodos do ano.
Precarização
As condições precárias de trabalho foram apontadas por vários participantes da audiência. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Chapecó (SC), Fabio Ramos Nunes Fernandes, frisou que tal situação provoca problemas de saúde física e mental.
Ao falar sobre a precarização, Graciete Mouzinho reiterou que os profissionais enfrentam insegurança, falta de comunicação, adversidades climáticas e longas distâncias percorridas a pé. Ela é presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Santas Casas e Entidades Filantrópicas do Amazonas.
— Esses anjos caminham longas distâncias carregando pesos sobre os ombros e sem água potável. A falta de transporte acarreta, inclusive, falta de proteína na alimentação dos trabalhadores e carência de hidratação, o que gera muitos casos de problemas renais. Além disso, acidentes, como explosões ocorridas nas áreas indígenas, muitas vezes nem sequer são relatados — alertou Graciete.
Diversidade indígena
A senadora Damares Alves apresentou dados do IBGE que indicam a existência de aproximadamente 1,7 milhão de indígenas no país, pertencentes a 391 povos.
Para a senadora, a diversidade étnica, cultural e linguística dessas comunidades exige políticas públicas “diferenciadas, sensíveis às especificidades de cada povo e comprometidas com o respeito às suas tradições e formas de organização social”.
Lurdelice Capitâ, do Fórum de Presidentes de Conselhos Distritais de Saúde Indígena, compartilhou opinião semelhante. Ela afirmou que "os profissionais de saúde indígena atuam em diferentes territórios, onde as culturas são variadas, e tudo isso precisa ser respeitado e considerado".
Segundo Lurdelice, faltam políticas públicas e recursos para o atendimento dos indígenas, mas também é necessário que as autoridades compreendam as dificuldades enfrentadas e busquem as soluções junto às próprias comunidades.
Participaram da audiência Mávia Mendes, diretora da Coordenação Região Centro-Oeste da Federação Nacional dos Enfermeiros (FNE), e Lucimary Santos Pinto, secretária-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde (CNTS).
Além do encontro desta quinta-feira, Damares anunciou que a CDH realizará um ciclo de debates sobre a rede de proteção, direitos humanos e desenvolvimento dos povos indígenas no Brasil.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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