Política

Com Alfredo vice de Flávio, Ronaldo Lessa vai colocar sua história no lixo ou abandonar de vez o projeto de JHC que espera pra convenção o "vice dos Bolsonaro"?

Vice-governador se autoproclamou candidato a vice na chapa oposicionista e garantiu apoio a Lula; entrada de Alfredo Gaspar na chapa presidencial bolsonarista aprofunda contradição e pode obrigar Lessa a escolher entre sua trajetória política e a aliança eleitoral

Redação 05/08/2026
Com Alfredo vice de Flávio, Ronaldo Lessa vai colocar sua história no lixo ou abandonar de vez o projeto de JHC que espera pra convenção o 'vice dos Bolsonaro'?
Ronaldo Lessa

A escolha de Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente da República na chapa de Flávio Bolsonaro criou um problema que ultrapassa as fronteiras da política nacional e desembarca diretamente no tabuleiro eleitoral de Alagoas.

E o nome que passa a ocupar o centro dessa encruzilhada é o do atual vice-governador Ronaldo Lessa (PDT).

Depois de romper politicamente com o grupo do governador Paulo Dantas e aderir ao projeto eleitoral de JHC, Lessa chegou a anunciar praticamente por conta própria o lugar que pretendia ocupar na composição oposicionista.

“Sou candidato a vice-governador”, declarou hoje (veja vídeo), na convenção do PDT.

Agora, porém, o cenário mudou radicalmente.

Alfredo Gaspar não é mais apenas um aliado local de Arthur Lira e um dos integrantes do bloco político que se aproximou de JHC. Ele passou a ocupar a vice de Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência da República.

E isso coloca Ronaldo Lessa diante de uma pergunta que dificilmente poderá ser evitada durante a campanha:

como um político que construiu praticamente toda a sua trajetória no campo da esquerda explicará sua permanência em um palanque que terá como uma de suas principais estrelas em Alagoas o candidato a vice-presidente da República do bolsonarismo?

Lessa disse que apoiaria Lula


A contradição se torna ainda maior porque o próprio Ronaldo Lessa estabeleceu publicamente sua posição na eleição presidencial.

Ao justificar sua aproximação com JHC, Lessa afirmou que apoiaria o presidente Lula e foi além: declarou acreditar que o próprio JHC caminharia na mesma direção.

“Eu disse a ele que eu vou apoiar o Lula. E eu quero que ele apoie o Lula”, afirmou Lessa.

Na mesma ocasião, o vice-governador sustentou que JHC estaria muito mais próximo de Lula do que de Flávio Bolsonaro ou daquilo que classificou como “extrema direita”.

Era maio.

Três meses depois, a realidade política é outra.

O candidato a vice-presidente de Flávio Bolsonaro é justamente Alfredo Gaspar, personagem diretamente envolvido nas articulações políticas que aproximaram o PL e o grupo de Arthur Lira do projeto eleitoral de JHC em Alagoas.

A pergunta, portanto, deixou de ser teórica.

Como caberão Lula e Flávio no mesmo palanque?

Ronaldo Lessa terá agora que explicar como pretende conciliar dois projetos presidenciais absolutamente antagônicos dentro da mesma construção estadual.

De um lado, Lessa diz votar em Lula.

Do outro, Alfredo Gaspar será candidato a vice de Flávio Bolsonaro e quer aliança com JHC.

E, no meio dos dois, estará JHC tentando administrar um palanque que poderá reunir personagens de campos nacionais completamente opostos.

Até quando essa engenharia eleitoral será sustentável?

É possível que a estratégia seja simplesmente estadualizar a eleição, fingindo que a disputa presidencial não existe. O próprio Lessa já defendeu anteriormente que a eleição alagoana não deveria ser nacionalizada.

Mas uma coisa era defender essa tese quando Alfredo Gaspar era candidato ao Senado.

Outra, completamente diferente, é sustentá-la agora que Alfredo estará literalmente na cédula presidencial como companheiro de chapa de Flávio Bolsonaro.

Não se trata mais de um aliado que simpatiza com Bolsonaro.

Trata-se do candidato a vice-presidente do bolsonarismo.

Quarenta anos de história política


A encruzilhada ganha dimensão ainda maior quando se observa quem é Ronaldo Lessa.

Ex-governador, ex-prefeito de Maceió, ex-deputado federal e atual vice-governador, Lessa construiu mais de quatro décadas de vida pública identificado com partidos e movimentos do campo progressista.

Foi adversário histórico de grupos conservadores de Alagoas e construiu parte significativa de sua biografia política em torno de posições de esquerda e centro-esquerda.

Por isso, sua aproximação com JHC já havia provocado críticas dentro do próprio campo político de onde saiu.

Um antigo aliado chegou a afirmar publicamente, após o rompimento, que Lessa havia “jogado sua história no lixo”.

Na ocasião, a declaração poderia parecer apenas o desabafo de quem perdeu um aliado.

Agora, ganha uma dimensão política muito mais delicada.

Porque Lessa terá que decidir até onde está disposto a caminhar para permanecer na chapa de JHC.

Até onde Lessa irá?


A questão não é se Ronaldo Lessa pode apoiar Lula enquanto participa de uma aliança estadual heterogênea. Evidentemente pode.

A política brasileira está repleta de coligações estaduais que não se reproduzem nacionalmente.

O problema é outro.

O que precisa ser respondido é se Lessa aceitará dividir o mesmo projeto eleitoral com um grupo no qual Alfredo Gaspar, agora candidato a vice-presidente de Flávio Bolsonaro, terá inevitavelmente protagonismo.

Alfredo precisará pedir votos para Flávio em Alagoas.

Lessa precisará pedir votos para Lula.

Se ambos estiverem no mesmo palanque estadual, qual será o discurso?

Quando Alfredo pedir votos para Flávio, Lessa ficará no palanque?

Quando Lessa defender Lula, Alfredo permanecerá ao seu lado?

E JHC pedirá voto para quem?

Para Lula, como Lessa chegou a assegurar?

Para Flávio, cuja chapa terá um alagoano como vice e um aliado de seu próprio agrupamento político?

Ou tentará atravessar toda a campanha sem dizer ao eleitor alagoano quem deseja ver na Presidência da República?

O dilema agora é de Lessa


Ronaldo Lessa acreditou que poderia construir uma ponte entre sua trajetória histórica e um novo agrupamento político em torno de JHC.

Até aqui, vinha sustentando que sua identidade política permaneceria preservada.

A escolha de Alfredo Gaspar para vice de Flávio Bolsonaro coloca essa tese à prova.

Não será mais suficiente dizer que as alianças estaduais são diferentes das nacionais.

Lessa terá diante dele um candidato a vice-presidente bolsonarista participando do mesmo campo político estadual ao qual decidiu aderir.

E será cobrado principalmente por aqueles que acompanharam sua trajetória.

Afinal, estamos falando de um político que durante décadas ocupou um espaço claramente identificado no espectro político alagoano.

Permanecer ou romper?


Talvez Ronaldo Lessa consiga encontrar uma fórmula política para permanecer ao lado de JHC e, simultaneamente, apoiar Lula.

Mas essa fórmula ficou muito mais difícil nesta quarta-feira.

A indicação de Alfredo Gaspar como vice de Flávio Bolsonaro empurra Lessa para uma decisão que, cedo ou tarde, terá de tomar.

Ou aceita conviver eleitoralmente com o bolsonarismo dentro do mesmo projeto estadual, assumindo o desgaste e as consequências dessa escolha para sua biografia política.

Ou estabelece um limite.

E esse limite poderá significar retirar definitivamente JHC de sua rota eleitoral.

Aos 76 anos e depois de mais de quatro décadas de vida pública, Ronaldo Lessa talvez esteja diante de uma das escolhas mais simbólicas de sua carreira.

Não se trata apenas de decidir em qual chapa estará em outubro.

Trata-se de decidir qual história política pretende contar quando a eleição terminar.

Ronaldo Lessa sustentará uma aliança na qual terá de conviver com o candidato a vice-presidente de Flávio Bolsonaro ou, diante da nova realidade, descartará de uma vez por todas JHC de sua rota política?

A resposta pertence a Lessa.

Mas, depois da escolha de Alfredo Gaspar, o silêncio também será uma resposta.

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