Política

Sem Aécio com alta rejeição na disputa ao Planalto, JHC perde o muro e terá que escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro

Presidente nacional do PSDB desistiu da disputa presidencial e deixou o partido sem candidatura própria; em Alagoas, legenda é comandada por JHC, que agora fica sem o álibi tucano para evitar uma definição nacional

09/07/2026
Sem Aécio com alta rejeição na disputa ao Planalto, JHC perde o muro e terá que escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro
Em foto de arquivo aparece Aécio Neves que desistiu de pré-candidatura a presidente ao lado de JHC. Este terá que sair da neutralidade presidencial. Na foto aparece ainda sua mãe, Eudócia Caldas

A desistência de Aécio Neves de disputar a Presidência da República em 2026 criou um problema político direto para o ex-prefeito de Maceió JHC, presidente do PSDB em Alagoas e pré-candidato ao Governo do Estado.

Até aqui, uma eventual candidatura de Aécio poderia funcionar como um “muro” confortável para JHC. Com o presidente nacional do PSDB na disputa pelo Palácio do Planalto, o tucano alagoano poderia dizer aos bolsonaristas que não apoiaria Flávio Bolsonaro porque seu partido tinha candidato próprio. Ao mesmo tempo, poderia dizer aos lulistas que também não apoiaria Lula pelo mesmo motivo: fidelidade partidária.

Agora, esse argumento caiu
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O presidente nacional do PSDB, deputado federal Aécio Neves (MG), informou que o partido não terá candidato próprio à Presidência em 2026. A declaração foi dada em entrevista ao Estado de S. Paulo e repercutida pela imprensa nacional, com a justificativa de que o partido pretende ganhar tempo para reconstruir um projeto competitivo de centro para 2030.

Em Alagoas, o impacto é imediato porque o comando estadual do PSDB está nas mãos de JHC. O ex-prefeito de Maceió foi filiado ao partido com aval de Aécio, assumiu a presidência estadual da legenda e também passou a ocupar a vice-presidência nacional tucana após deixar o PL em meio à reorganização da direita em Alagoas.

A situação é delicada porque JHC construiu parte de sua trajetória recente orbitando o campo bolsonarista, especialmente quando esteve no PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao migrar para o PSDB, tentou se reposicionar em uma faixa mais ampla do eleitorado, sem romper completamente com a direita e sem fechar as portas para setores que mantêm diálogo com o governo Lula.

Havia, ainda, um elemento de constrangimento político com o Palácio do Planalto. Em 2025, o presidente Lula indicou Marluce Caldas, procuradora de Justiça de Alagoas e tia de JHC, para uma vaga no Superior Tribunal de Justiça. Depois, Lula assinou a nomeação dela para o STJ. A relação familiar foi registrada pela imprensa nacional à época da indicação.

É nesse ponto que o “muro” parecia conveniente. Com Aécio candidato, JHC poderia evitar o desgaste de escolher entre dois polos nacionais: de um lado, Lula, presidente da República e responsável pela nomeação de sua tia ao STJ; do outro, Flávio Bolsonaro, nome lançado pelo bolsonarismo para disputar a sucessão presidencial de 2026. A pré-candidatura de Flávio foi anunciada como tentativa de manter o capital político do ex-presidente Jair Bolsonaro na disputa nacional.

Em foto de arquivo, JHC ao lado de Michele, quando o ex-prefeito de Maceió era filiado ao PL e flertava com o Bolsonarismo

Sem Aécio, porém, a pergunta passa a ser inevitável: para onde vai JHC?

Se caminhar com Flávio Bolsonaro, JHC tenta preservar a base de direita e o eleitorado bolsonarista de onde veio politicamente nos últimos anos. Mas assume o risco de se afastar do centro e de setores que poderiam enxergar sua candidatura estadual como excessivamente colada ao bolsonarismo.

Se se aproximar de Lula, JHC pode tentar explorar uma relação institucional com o governo federal e com segmentos mais moderados. Mas corre o risco de provocar reação dura no eleitorado de direita, especialmente entre bolsonaristas que não aceitam qualquer gesto de aproximação com o PT.

Se tentar permanecer neutro, poderá ser cobrado dos dois lados
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Aécio, quando assumiu a presidência nacional do PSDB, chegou a defender que o partido não apoiaria nem Lula nem um nome da família Bolsonaro em 2026. A posição indicava uma tentativa tucana de construir uma terceira via e fugir da polarização nacional.

Mas uma coisa era defender distância dos dois polos com candidatura própria no tabuleiro. Outra, bem diferente, é chegar à eleição presidencial sem nome nacional e com palanques estaduais precisando se organizar.

A desistência de Aécio também ocorre em meio a um cenário de desgaste eleitoral. Levantamento divulgado pelo Poder360 apontou o presidente nacional do PSDB como um dos nomes de maior rejeição entre pré-candidatos testados para a Presidência. Em pesquisa Nexus divulgada recentemente, Aécio apareceu como o mais rejeitado, seguido por Flávio Bolsonaro e Lula.

Ou seja: Aécio poderia ser um álibi político para JHC em Alagoas, mas não necessariamente um ativo eleitoral nacional. Agora, sem ele, o problema fica exposto. O PSDB alagoano não terá candidato a presidente para chamar de seu, e o seu principal nome local terá que explicar ao eleitor qual será seu palanque nacional.

A definição é importante porque a eleição para o Governo de Alagoas tende a ser atravessada pela disputa presidencial. A presença de Lula ou de Flávio Bolsonaro no palanque pode influenciar alianças, apoios, rejeições e a narrativa de campanha.

Ao lado de Lula que levou para Maceió obras e recursos e ainda um emprego para a tia do ex-prefeito Marluce Caldas: o de ministra do STJ

JHC tentou ganhar tempo. O PSDB tentou ensaiar um caminho próprio. Aécio recuou. E o muro, que parecia ser a estratégia mais segura, ficou mais baixo.

Agora, a pergunta que fica é simples e politicamente incômoda:

JHC vai com Lula, com Flávio Bolsonaro ou tentará vender uma neutralidade que talvez a eleição de 2026 não permita?