Política

Quem paga os ataques? Jornalista denuncia canal ligado à família Caldas por possível impulsionamento irregular

Canal com apenas quatro inscritos teria somado mais de 1 milhão de visualizações em vídeos de conteúdo negativo; denúncia aponta indício de propaganda eleitoral paga vedada pela legislação

Redação 07/07/2026
Quem paga os ataques? Jornalista denuncia canal ligado à família Caldas por possível impulsionamento irregular
Canal “Farol Digital” com 4 inscritos soma mais de 1 milhão de views em ataques a Paulo Dantas e Renan Filho e levanta suspeita eleitoral

Um vídeo publicado pelo Blog do Cadu Amaral levantou uma suspeita grave envolvendo a atuação digital de um canal no YouTube chamado Farol Digital, que teria publicado vídeos curtos com críticas e ataques políticos ao governador Paulo Dantas e ao senador Renan Filho, pré-candidato ao Governo de Alagoas pelo MDB.

Segundo a transcrição do vídeo, o ponto central da denúncia não é apenas a existência das publicações, mas o alcance considerado artificial dos conteúdos. O apresentador afirma que o canal possuía apenas quatro inscritos, havia sido criado em 30 de maio de 2026 e, mesmo assim, dois vídeos de teor negativo teriam alcançado, em apenas dois dias, 647 mil e 463 mil visualizações, somando mais de 1 milhão de acessos.

Para o autor do vídeo, a desproporção entre o tamanho do canal e o volume de visualizações seria um forte indício de que os vídeos foram impulsionados como anúncios no YouTube. Ele também aponta a ausência de curtidas e comentários como sinal de que o alcance não teria ocorrido de forma orgânica. Na avaliação apresentada, um canal recém-criado, com poucos inscritos e quase nenhuma interação, dificilmente chegaria a números tão altos sem tráfego pago.

A denúncia ganha contorno eleitoral porque os vídeos, segundo o apresentador, teriam conteúdo negativo contra adversários políticos de JHC, provável candidato ao Governo de Alagoas. O autor faz uma associação entre o nome “Farol Digital” e empresas de comunicação ligadas ao grupo político de JHC, como a Rádio Farol FM e a TV Farol, mas ressalva que a configuração de fraude dependeria de análise da Justiça Eleitoral.



Pela legislação eleitoral, o impulsionamento de conteúdo político na internet é permitido apenas dentro de regras específicas. A Resolução nº 23.610 do TSE estabelece que o impulsionamento só pode ser usado para promover ou beneficiar candidatura, partido ou federação contratante, sendo vedado o uso para propaganda negativa. A mesma resolução também proíbe a propaganda eleitoral paga na internet, salvo o impulsionamento devidamente identificado e contratado por partidos, federações, coligações, candidatos ou representantes.

O próprio Ministério Público Federal, em publicação de fevereiro de 2026, registrou que o impulsionamento de críticas em redes sociais e mensagens de “não voto” contra adversários é proibido na pré-campanha. Segundo o MPF, o TSE já aplicou multas em casos de propaganda eleitoral negativa antecipada, entendendo que conteúdo pago para atacar adversários não se enquadra na exceção legal permitida para impulsionamento.

A jurisprudência reunida pelo TSE também aponta que a propaganda antecipada negativa pode ser caracterizada quando há pedido explícito de não voto, desqualificação da honra ou imagem de pré-candidato, ou divulgação de fato sabidamente inverídico. O tribunal ainda registra entendimento de que o impulsionamento pago de conteúdo negativo, inclusive sob forma de crítica a adversário, não é permitido pela Lei das Eleições.

No vídeo, o apresentador compara o desempenho do Farol Digital com canais grandes do YouTube. Ele cita como exemplo um canal com cerca de 2 milhões de inscritos que, em vídeos publicados no mesmo intervalo, alcançaria números muito inferiores aos registrados pelo canal de quatro inscritos. Para ele, a comparação reforçaria a suspeita de que os conteúdos do Farol Digital estariam sendo usados como fonte de anúncios pagos.

A acusação, porém, ainda está no campo da suspeita pública levantada no vídeo. Não há, na transcrição analisada, informação sobre eventual representação formal já protocolada na Justiça Eleitoral, nem manifestação de JHC, do canal Farol Digital ou das empresas mencionadas. O autor do vídeo afirma que, “ao fim e ao cabo”, caberá à Justiça Eleitoral decidir se houve ou não fraude à legislação.

Caso a suspeita seja judicializada, a apuração deve se concentrar em três pontos: quem criou e administra o canal Farol Digital, se houve pagamento por impulsionamento dos vídeos e quem teria contratado ou financiado a eventual publicidade. Também poderá ser analisado se o conteúdo divulgado extrapola a crítica política e configura propaganda eleitoral negativa antecipada.

Vídeo em canal com 4 inscritos e que teve mais de 1 milhão de visualizações


O caso acende um alerta para a disputa de 2026 em Alagoas. A eleição ainda está em fase de pré-campanha, mas a guerra digital já mostra sinais de endurecimento. Se confirmada a utilização de dinheiro para ampliar artificialmente ataques contra adversários, a prática poderá ser enquadrada como violação às regras eleitorais e abuso no uso das plataformas digitais.

Outro lado: O espaço permanece aberto para manifestação de JHC, do canal Farol Digital, da Rádio Farol FM ou da TV Farol.