Política

Aliados de Flávio Bolsonaro divergem entre ataque a Lula e cautela no caso Wagner

Operação da PF contra líder do governo no Senado alimenta ofensiva do PL, mas parte da pré-campanha teme reavivar desgaste envolvendo o Banco Master

Estadao Conteudo 19/06/2026
Aliados de Flávio Bolsonaro divergem entre ataque a Lula e cautela no caso Wagner
Flávio Bolsonaro - Foto: Reprodução / Instagram

Aliados do senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) estão divididos sobre a melhor resposta política à operação da Polícia Federal (PF) realizada nesta quinta-feira, 18, que teve como alvo o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado.

Enquanto uma ala defende um ataque direto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na tentativa de associar o caso ao Palácio do Planalto, outro grupo prega moderação. O receio é que o tema reacenda desgastes que a pré-campanha do PL ainda tenta superar.

O principal ponto de preocupação são os áudios atribuídos a Flávio Bolsonaro nos quais ele teria pedido R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no caso Banco Master, para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A revelação provocou queda do senador em pesquisas de intenção de voto, ampliou a vantagem de Lula na liderança da corrida eleitoral e, segundo aliados mais cautelosos, pode voltar a ser explorada pela esquerda.

Horas depois de Wagner ser alvo de busca e apreensão na nona fase da Operação Compliance Zero, em mais um desdobramento das investigações sobre o Banco Master, o PL lançou a campanha “PTMaster”. A estratégia busca reforçar a narrativa de que haveria “mais um elo” entre o partido de Lula e o escândalo.

A PF investiga se o senador petista, apontado como “interlocutor relevante” de interesses do Master, recebeu pagamentos de propina de Vorcaro. Entre os elementos apurados estão um apartamento de R$ 2,5 milhões em Salvador e repasses de R$ 3,5 milhões a uma empresa ligada a um familiar. Agentes apreenderam US$ 55 mil e € 33,5 mil em espécie em endereços de Wagner.

Flávio Bolsonaro passou o dia comentando o caso em entrevistas, discursos e publicações nas redes sociais. Em postagem no X, antigo Twitter, afirmou que “escândalo envolvendo o PT é como a incompetência do governo Lula: não tem como esconder”. Ao longo do dia, fez outras publicações sobre o tema.

No lançamento de seu plano de propostas para a segurança pública, em São Paulo, Flávio declarou que “o PT da Bahia acaba de ser implodido pela Polícia Federal” e classificou a investigação como “um alento de que a impunidade vai ser combatida”. No fim da tarde, voltou ao assunto em entrevista à Jovem Pan News.

“Nós sempre soubemos que a origem de todo esse escândalo do Master era exatamente o PT da Bahia. É a origem, o cerne de todo esse esquema que desaguou na questão do Banco Master. Esperamos que a Polícia Federal traga à tona tudo isso que está sendo investigado”, declarou. Em seguida, voltou a defender a abertura de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para apurar suspeitas de corrupção envolvendo a instituição de Vorcaro.

Como mostrou o Estadão, Flávio não assinou três das cinco CPIs sobre o Master que poderia apoiar.

No fim da noite, o senador publicou um vídeo reagindo a uma declaração antiga em que Wagner negava relação entre o Master e o PT da Bahia. “Pode ter certeza, o Jaques Master não deve ser o único petista enrolado. Lula é Master e Master é Lula”, escreveu, em trocadilho com o nome do colega senador.

A ala mais cautelosa da campanha teme que a ofensiva exponha novamente fragilidades de Flávio no caso. Além da relação próxima entre o senador do PL e o banqueiro — em uma troca de mensagens, Flávio se referiu a Vorcaro como “irmão” —, outras lideranças de seu campo político também aparecem associadas às investigações, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL).

A pré-campanha de Flávio tenta, ainda, recompor a relação com Ciro Nogueira. O senador do PP estaria irritado com a insistência do presidenciável em pedir novas investigações sobre o Master e com a falta de solidariedade após uma operação da PF atingi-lo recentemente.

Mesmo diante das resistências internas, o PL aposta na associação entre o partido no poder e o caso Master, que se tornou uma espécie de “granada sem pino” no debate político. Depois de o PT criar o bordão “BolsoMaster” para vincular o episódio ao clã Bolsonaro, a legenda de Jair Bolsonaro lançou ao menos cinco publicações com a marca “PTMaster”.

“Eles dizem que não há ligação. Mas, a cada nova fase da operação, novos nomes ligados ao PT voltam ao centro das investigações. O caso ‘PTMaster’ é a prova de que, mesmo mudando os personagens, a corrupção sempre carrega um nome do partido”, publicou a sigla nas redes sociais.

A comunicação da pré-campanha de Flávio, porém, enfrenta um obstáculo adicional para fazer a mensagem chegar ao eleitorado: a Copa do Mundo. Com o início dos jogos e a estreia da seleção brasileira, o engajamento político nas redes caiu, e a solução tem sido tentar adaptar a narrativa ao clima esportivo.

“O Brasil já mandou o recado! Queremos a taça da Copa do Mundo. CPMI do Master. Jaques Wagner, o ‘galego’ de Lula, na cadeia!!”, publicou o PL na quinta-feira, tentando aproveitar o ambiente da Copa para pautar o debate político.