Política

Jornalista de O Globo apresenta ao país quem é João Caldas, pai de JHC, por trás da candidatura de Joaquim Barbosa; veja vídeo

Comentário do jornalista Bernardo Mello Franco colocou em contraste o passado político e judicial do presidente do DC com a imagem pública do ex-ministro do STF, associado ao combate à corrupção

Redação 23/05/2026
Jornalista de O Globo apresenta ao país quem é João Caldas, pai de JHC, por trás da candidatura de Joaquim Barbosa; veja vídeo
Jornalista Bernardo Mello Franco

A eventual candidatura de Joaquim Barbosa à Presidência da República pelo Democracia Cristã ganhou uma nova camada de controvérsia após comentário do jornalista Bernardo Mello Franco, de O Globo, nas redes sociais do veículo. Mais do que tratar apenas da entrada do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal no tabuleiro eleitoral de 2026, Bernardo voltou o foco para o personagem que opera a candidatura nos bastidores: João Caldas, presidente nacional do DC, ex-deputado federal por Alagoas e pai de JHC, ex-prefeito de Maceió e pré-candidato ao Governo de Alagoas.

No comentário, Bernardo apresentou a candidatura de Barbosa como uma espécie de invenção partidária de João Caldas. A leitura do jornalista é que o DC, após a aposentadoria política de José Maria Eymael — o eterno presidenciável do jingle mais grudento das eleições brasileiras — ganhou novo comando e passou a buscar outro personagem para ocupar a vitrine nacional. O partido, antes identificado quase exclusivamente com Eymael, hoje tem João Caldas como presidente nacional em exercício, conforme registro do próprio TSE.

A troca de rota foi brusca. No começo do ano, o DC havia lançado Aldo Rebelo como pré-candidato ao Planalto. Aldo não é um nome menor na política nacional. Alagoano, jornalista, escritor, ex-deputado federal por São Paulo em vários mandatos, ex-presidente da Câmara dos Deputados e ex-ministro em governos petistas, ele carregava uma biografia parlamentar robusta. A Câmara registra seus mandatos sucessivos como deputado federal e sua passagem pela presidência da Casa entre 2005 e 2007.

Mas, nas palavras atribuídas a João Caldas por Bernardo Mello Franco, Aldo teria sido tratado como o “perna de pau” retirado de campo para a entrada do “Neymar” que estava no banco. O “Neymar” do DC seria Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, relator do Mensalão e figura ainda associada por parte do eleitorado à pauta do combate à corrupção. O próprio comentário publicado nas redes de O Globo resume essa analogia futebolística usada por Caldas para justificar a substituição de Aldo por Barbosa.

A CNN Brasil já havia noticiado que o DC confirmou a pré-candidatura de Joaquim Barbosa no lugar de Aldo Rebelo por meio de nota assinada por João Caldas. Segundo a reportagem, Aldo reagiu nas redes sociais, repudiou a indicação do ex-presidente do STF e classificou a movimentação como uma “afronta” ao que entende por relações políticas.

O contraste explorado por Bernardo Mello Franco está justamente aí: de um lado, Joaquim Barbosa, apresentado pelo DC como símbolo de ética, autoridade institucional e reconstrução da confiança pública; de outro, João Caldas, dirigente partidário com passado marcado por investigações e condenação no escândalo que ficou conhecido como Máfia das Sanguessugas.

A Máfia das Sanguessugas foi um esquema nacional de desvio de recursos públicos destinados à compra de ambulâncias e equipamentos de saúde por meio de emendas parlamentares. Em 2006, a Agência Câmara noticiou as acusações contra João Caldas e também registrou sua defesa. À época, o empresário Luiz Antônio Vedoin afirmou que teria feito acordo com o então deputado para pagamento de percentual sobre emendas executadas por empresas ligadas ao esquema; Caldas negou as acusações, afirmou nunca ter firmado acordo com Vedoin e disse não ter recebido valores indevidos.

Anos depois, em 2018, o caso teve desdobramento judicial. Segundo reportagem do UOL, o juiz Paulo César Alves Sodré, da 7ª Vara Federal de Cuiabá, condenou João Caldas a dois anos e nove meses de reclusão, além de multa, em regime aberto, por suposta propina de R$ 6 mil no contexto da Máfia das Sanguessugas. A mesma reportagem informa que ele foi absolvido da acusação de ter recebido R$ 50 mil em vantagens indevidas e que a pena foi convertida em restritivas de direito.

Esse histórico também teve reflexos eleitorais. Em 2022, o Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas indeferiu o registro de candidatura de João Caldas ao cargo de suplente de senador. A decisão, tomada por maioria, barrou a candidatura no contexto da aplicação da Lei da Ficha Limpa.

No comentário de O Globo, Bernardo Mello Franco também relatou que, após a publicação dessas informações, João Caldas enviou ao jornalista certidões eleitorais retiradas em 2026, indicando que estaria apto, se quisesse, a disputar a eleição de outubro. O ponto é relevante: as certidões atuais, segundo o próprio relato jornalístico, seriam usadas por Caldas para sustentar que sua situação eleitoral estaria regularizada, mas não apagam o histórico político e judicial que agora volta ao centro do debate por causa da candidatura de Joaquim Barbosa.

É nesse ponto que a candidatura de Barbosa ganha contornos mais delicados. O ex-ministro do STF tornou-se conhecido nacionalmente como relator do Mensalão, processo que atingiu figuras relevantes da política brasileira e projetou sua imagem como magistrado duro, independente e associado ao enfrentamento da corrupção. Barbosa também foi o primeiro negro a presidir o Supremo Tribunal Federal, cargo que ocupou entre 2012 e 2014.

A pergunta política levantada pelo comentário de Bernardo é incômoda: como uma candidatura vendida sob o selo da ética e da anticorrupção nasce pelas mãos de um dirigente que já foi condenado em caso de corrupção e barrado pela Ficha Limpa em uma eleição recente?

João Caldas tenta responder a essa contradição apostando no capital simbólico de Joaquim Barbosa. Em entrevista à CNN, o presidente do DC afirmou que Aldo Rebelo “não se viabilizou”, disse que Barbosa se filiou ao partido em 2 de abril já com a ideia de disputar a Presidência e classificou a candidatura do ex-ministro como “fato consumado”. Também afirmou ter procurado dirigentes de partidos como PSD, Republicanos, MDB, PSDB e Podemos para tratar de articulações em torno do nome de Barbosa.

Aldo, por sua vez, não aceitou a substituição em silêncio. Disse à CNN que sua pré-candidatura estava mantida e afirmou que “não se faz política na clandestinidade”, numa crítica direta à forma como o processo foi conduzido dentro do DC. Segundo João Caldas, Aldo teria sido avisado por interlocutores de que não seguiria candidato caso não se viabilizasse eleitoralmente.

Na prática, o Democracia Cristã tenta trocar uma candidatura de perfil político tradicional, representada por Aldo Rebelo, por uma candidatura de forte apelo simbólico, representada por Joaquim Barbosa. O problema é que essa operação tem como fiador João Caldas, figura que Bernardo Mello Franco descreveu a partir de um passado controverso, marcado por escândalo, condenação e disputa em torno da própria elegibilidade.

A candidatura de Joaquim Barbosa, portanto, nasce sob um paradoxo. O nome escolhido remete à toga, ao Mensalão, à ética e à autoridade judicial. O articulador da escolha remete à velha política, aos partidos nanicos usados como instrumentos de barganha e a um histórico que contradiz justamente a bandeira moral que o DC pretende empunhar.

Para João Caldas, Barbosa é o “Neymar” que pode tirar o partido da irrelevância eleitoral. Para Bernardo Mello Franco, o dado central parece ser outro: antes de olhar apenas para o ex-ministro do STF, é preciso olhar para quem está tentando colocá-lo em campo.

Afinal, se Joaquim Barbosa é vendido como símbolo de combate à corrupção, a primeira grande contradição de sua pré-candidatura está no berço político escolhido para lançá-la.

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Vídeo incorporado de O Globo com comentário do Jornalista Bernardo Mello Franco