Política
Se Ciro Gomes for o presidenciável do PSDB, Alfredo Gaspar terá de explicar apoio a JHC sem desagradar o bolsonarismo
Com JHC já abrigado no PSDB e Alfredo Gaspar no comando do PL alagoano sob o guarda-chuva político de Flávio Bolsonaro, eventual aliança estadual colocaria frente a frente dois palanques nacionais de difícil convivência
A política alagoana pode estar diante de uma contradição de difícil acomodação. Se Ciro Gomes confirmar a candidatura à Presidência da República pelo PSDB, Alfredo Gaspar, hoje presidente do PL em Alagoas e nome alinhado ao campo bolsonarista, terá de responder a uma pergunta incômoda: como sustentar apoio a JHC no plano estadual sem entrar em choque com o eleitorado de direita que espera do PL fidelidade ao projeto nacional do partido?
A dificuldade não é teórica. Ela nasce de fatos políticos recentes e objetivos. Alfredo Gaspar deixou o União Brasil, filiou-se ao PL no fim de março e assumiu o comando da legenda em Alagoas em movimento anunciado ao lado de Flávio Bolsonaro. Na ocasião, o gesto foi apresentado como reforço ao campo da direita conservadora no estado.
Do outro lado, JHC já se deslocou para o PSDB e passou a orbitar uma legenda que tenta reconstruir musculatura nacional com movimentos de alto impacto. Um deles foi o convite público feito por Aécio Neves a Ciro Gomes para disputar o Palácio do Planalto em 2026. Ciro não fechou a porta: disse que recebeu o convite com boa disposição, mas que ainda vai pensar. Portanto, a candidatura ainda não está selada, mas deixou de ser mera especulação periférica e virou hipótese política real.
É aí que Alfredo Gaspar entra numa zona delicada.
Se houver composição estadual entre PL e JHC, Gaspar terá de vender ao seu público a ideia de que uma aliança local pode conviver com um palanque presidencial potencialmente adverso ao bolsonarismo. Em linguagem simples: teria de pedir voto, ou ao menos convivência política, com um candidato a governador filiado a um partido que pode lançar Ciro Gomes à Presidência, enquanto o PL trabalha nacionalmente noutra direção. Pelos sinais do noticiário político, Flávio Bolsonaro é tratado no entorno partidário como pré-candidato presidencial do PL para 2026, o que aumenta o tamanho dessa tensão.
Essa não seria uma contradição pequena nem fácil de explicar. O bolsonarismo, por definição eleitoral, costuma cobrar nitidez de alinhamento. E nitidez é justamente o que faltaria numa engenharia em que Alfredo Gaspar, dirigente do PL em Alagoas, se visse ao lado de JHC enquanto o PSDB de JHC pudesse subir ao palanque de Ciro Gomes no plano nacional.
Além disso, a relação entre o PL e o grupo de JHC nem sequer passou por uma pacificação plena. O rompimento recente produziu disputa de território, e o partido reagiu judicialmente contra vereadores que deixaram a legenda para acompanhar o ex-prefeito de Maceió. Isso significa que qualquer tentativa de recomposição não partiria de terreno neutro, mas de um ambiente de atrito ainda quente.
Nesse cenário, Gaspar teria basicamente três caminhos políticos, todos com algum custo.
O primeiro seria sustentar que a aliança em Alagoas é apenas estadual, separando o palanque local do nacional. Essa fórmula existe na política brasileira, mas costuma funcionar melhor quando as bases aceitam a convivência pragmática. No caso de um PL comandado por um nome recém-chegado ao partido com discurso de fortalecimento da direita, a separação entre os dois planos tende a encontrar resistência.
O segundo caminho seria condicionar qualquer aproximação a uma neutralização do problema presidencial, tentando empurrar a discussão para depois ou exigindo uma espécie de autonomia informal do palanque alagoano. O obstáculo é que, se Ciro for mesmo o nome do PSDB, essa neutralização fica muito mais difícil. JHC deixaria de ser apenas um governadoriável tucano e passaria a ser, inevitavelmente, parte de uma engrenagem nacional.
O terceiro caminho seria simplesmente recuar da aproximação, preservando coerência ideológica e identidade partidária. Mas isso também teria preço, porque significaria abrir mão de uma composição que, em tese, poderia ampliar musculatura eleitoral em Alagoas. Em outras palavras: para Gaspar, qualquer decisão terá custo político. Ou arrisca desgaste com a base bolsonarista, ou limita sua margem de articulação estadual. Essa é uma inferência política a partir dos fatos públicos já postos no tabuleiro.
Há ainda um componente simbólico forte. Alfredo Gaspar não chegou ao PL por uma transição burocrática, discreta ou sem marca ideológica. Chegou com o selo de Flávio Bolsonaro e com discurso de fortalecimento do campo conservador. Isso reduz sua liberdade para movimentos ambíguos. Quanto mais nítida for a associação do PSDB a Ciro Gomes, mais difícil será para Gaspar sustentar uma parceria com JHC sem ser cobrado pela própria trincheira.
No fim, a questão central é esta: o problema não está apenas em JHC ter de seguir ou não o presidenciável de seu partido. O problema está em saber se Alfredo Gaspar, como dirigente do PL e postulante ao Senado no campo da direita, conseguiria dividir o mesmo palanque com alguém que poderia estar vinculado nacionalmente a um projeto presidencial incompatível com o seu. Se Ciro Gomes confirmar a candidatura pelo PSDB, a conta política de JHC complica. Mas a de Gaspar também. E talvez até mais.
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