Política

Lideranças indígenas cobram criação de Comissão Nacional Indígena da Verdade na Câmara

Audiência pública denuncia invisibilidade das vítimas indígenas em relatórios oficiais de anistia e cobra reconhecimento formal de violações históricas.

09/04/2026
Lideranças indígenas cobram criação de Comissão Nacional Indígena da Verdade na Câmara
Lideranças indígenas cobram no Congresso reconhecimento e justiça por violações históricas. - Foto: Vinicius Loures / Câmara dos Deputados

Lideranças indígenas cobraram a criação da Comissão Nacional Indígena da Verdade durante audiência pública promovida pela Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados. O principal foco do debate foi a invisibilidade das vítimas indígenas nos relatórios oficiais de anistia.

O encontro, realizado na quarta-feira (8) a pedido do deputado Reimont (PT-RJ), destacou a "dívida insanável" do Estado brasileiro com populações vulnerabilizadas, especialmente povos indígenas e camponeses, cujos direitos foram sistematicamente violados para viabilizar grandes empreendimentos econômicos.

Durante a audiência, familiares e vítimas da repressão estatal e empresarial na ditadura militar relataram atrocidades ocorridas na abertura de rodovias e instalação de mineradoras.

Elda Diarroi (Kwtija Jiahui), do povo Jauí (AM), relatou que seu povo quase foi extinto durante as obras da BR-230, conduzidas pela empresa Paranapanema, restando apenas seis sobreviventes no território.

Cleudo Alves de Souza Tenharin, liderança do povo Tenharim do Amazonas, denunciou o uso de "bombas e venenos" pelo Exército para expulsar comunidades indígenas e facilitar a exploração mineral, além da disseminação de epidemias de sarampo e gripe trazidas pelas obras.

O ex-deputado federal e médico Gilney Amorim Viana, do Mato Grosso, criticou a ausência de reconhecimento formal dos indígenas como perseguidos políticos. Segundo ele, a Comissão Nacional da Verdade identificou mais de 8 mil indígenas mortos, mas "não reconheceu um indígena sequer" individualmente para fins de reparação.

No setor agrário, Rita de Cássia Vidal Vasquez, representante dos colonos da Gleba Sidapar (PA), descreveu torturas brutais cometidas por pistoleiros e forças estatais no maior conflito agrário dos anos 1980, incluindo casos de mutilação e assassinatos ocultados em covas rasas.

Empresas envolvidas

Representantes do Ministério Público e da sociedade civil enfatizaram que as violações não foram "acidentais", mas parte de uma política de Estado financiada por grandes empresas.

A subprocuradora-geral do Trabalho, Sandra Lia Simon, informou que investigações do Ministério Público do Trabalho (MPT) apontaram o envolvimento de empresas como Volkswagen, Itaipu, Petrobras, Paranapanema e Aracruz em práticas de trabalho escravo e remoções forçadas de indígenas.

O padre Ricardo Rezende Figueira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), reforçou que o projeto de ocupação da Amazônia foi um "programa de Estado" que beneficiou grupos financeiros enquanto promovia o terror no campo.