Poder e Governo

MP Eleitoral dá parecer favorável à união de federação e partido que pode interferir na cláusula de barreira

Para especialista, decisão que pode unir legendas Solidariedade, PRD e Avante em um só bloco não deveria acontecer depois do resultado das eleições

Agência O Globo - 31/10/2026
MP Eleitoral dá parecer favorável à união de federação e partido que pode interferir na cláusula de barreira

A Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) se posicionou favoravelmente à soma de votos da Federação Renovação Solidária, formada por Solidariedade e PRD, e do partido Avante, que ingressará no grupo. Caso a medida seja aprovada pela Justiça Eleitoral, a legenda passa a alcançar a cláusula de barreira nesta eleição. Especialistas criticam a medida.

Em seu parecer, o vice-procurador-Geral Eleitoral Alexandre Espinosa Bravo Barbosa afirma que a soma dos votos dos partidos não deve ser considerada para cálculos de quociente eleitoral, mas que isso não seria impeditivo na conta para a superação da cláusula de barreira.

"Na espécie, evidencia-se a convergência de vontades das partes envolvidas para a inclusão do Avante junto à Federação Renovação Solidária – composta pelo Partido da Renovação Democrática e pelo Solidariedade –, de modo que não se antevê, a priori, óbice para o acolhimento da nova composição federativa. A circunstância de o Avante ter disputado o pleito de 2026 em separado da Federação Renovação Solidária obsta o cômputo dos votos comuns para fins de obtenção do quociente eleitoral e partidário. Não há veto, porém, para que a soma dos votos obtidos pelos partidos federados possa ser considerada para atingimento da cláusula de desempenho", afirmou o procurador.

A PGE diz ainda que o fato de outros partidos não terem contestado o pedido "depõe em favor da tese" da Federação e cita a decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Nunes Marques, que aceitou um pedido da Federação Rede-PSOL adotando critério de arredondamento dos votos no cálculo da cláusula de barreira.

Ao superar os critérios de desempenho, os partidos passam a ter acesso a recursos do Fundo Eleitoral e a tempo de propaganda eleitoral na TV. As regras do pleito deste ano fixaram como critérios eleger ao menos 13 deputados federais, distribuídos por pelo menos nove unidades da Federação, ou a obtenção de ao menos 2,5% dos votos válidos nacionais para deputado federal e alcançar pelo menos 1,5% dos votos válidos em cada uma de, no mínimo, nove unidades da Federação.

Em pedido de registro de alteração da composição, a Federação Renovação Solidária argumenta que a junção não interfere diretamente no resultado das eleições, sem mudar a lista de eleitos ou suplentes.

O professor de Direito Constitucional Fernandes Neto, em entrevista à GloboNews, criticou o parecer. Segundo ele, a decisão deveria valer só a partir da eleição de 2030.

"Os partidos disputaram a eleição sabendo que seriam aferidos cada um pelo seu desempenho. Inclusive o Supremo, na ADI 7021, exigiu que a federação fosse registrada com a mesma antecedência dos partidos políticos justamente para evitar a vantagem ou desvantagem competitiva. Aceitar agora essa adesão depois do resultado, com os votos apurados, mudaria completamente as regras do jogo depois que ele terminou. Por isso eu até defendo a inclusão e acho que todos defendem a inclusão, mas apenas para o futuro. Ou seja, os efeitos de divisão do fundo partidário e do direito de tempo de rádio e TV possam ser feitos apenas após as eleições de 2030", opinou.

Neto destacou ainda a necessidade de dar prioridade à segurança jurídica ao analisar a questão:

"Essa decisão do TSE é importantíssima e pode gerar um precedente perigosíssimo para a segurança jurídica das eleições. Sob pena de gerar uma verdadeira confusão jurídica se passarem a fazer nesse país adesões já com base em resultados eleitorais", destacou.