Poder e Governo
PL rejeita acordo com Alcolumbre e lança Marinho como candidato
Partido com 29 senadores ameaça reeleição do presidente do Senado
A bancada do PL e senadores de partidos de oposição rejeitam um acordo para apoiar a reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP) como presidente do Senado. O partido do ex-presidente Jair Bolsonaro lançará na quarta-feira da próxima semana a candidatura de Rogério Marinho (PL-RN) à Presidência da Casa.
Com 29 senadores a partir de fevereiro do próximo ano, o PL possui mais de um terço das 81 cadeiras do Senado. Os parlamentares da legenda se reunirão na próxima semana para oficializar a candidatura de Marinho, que já recebeu o apoio de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial, e seu irmão, o senador eleito Carlos Bolsonaro (PL-SC).
A ex-ministra de Jair Bolsonaro, Tereza Cristina (PP-MS), também busca se viabilizar como candidata. Apesar da disputa interna, o discurso entre os integrantes da oposição é de unidade, com a intenção de chegar à reta final da eleição com um único nome para enfrentar Alcolumbre.
O líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ), defende que a oposição utilize a força de sua bancada para aumentar a influência na Casa e tentar reverter a relação entre o Congresso e o Judiciário.
“É hora de unidade. Se nos organizarmos corretamente, seremos fortes. Mais uma batalha. Incessante. Há chance de recuperar o mínimo equilíbrio entre os Poderes. Precisamos da maioria”, afirmou.
Para tentar esfriar a articulação da oposição, Alcolumbre buscou construir um acordo que representasse um afago ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A proposta envolvia uma negociação entre Congresso, governo e Poder Judiciário para criar uma medida que atenuasse a situação do ex-presidente, condenado por liderar uma trama golpista.
Embora não tenha ocorrido uma proposta fechada, foram discutidas alternativas como um indulto presidencial para libertar Bolsonaro, a aprovação de uma anistia ampla pelo Congresso ou a retomada da proposta de redução de penas, suspensa pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Alcolumbre conversou com senadores sobre a articulação, mas não chegou a apresentar a ideia a Lula.
A tentativa de aproximação encontrou, no entanto, resistência entre os parlamentares da oposição, que questionam a viabilidade das medidas e a capacidade de Alcolumbre em assegurar que um eventual entendimento seja cumprido. O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), ex-vice-presidente de Bolsonaro, destacou que o presidente do Senado não tem condições de assegurar uma solução para a situação judicial do ex-presidente.
“Alcolumbre não tem condições de oferecer isso”, disse Mourão.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que foi ministra dos Direitos Humanos no governo Bolsonaro, também rejeitou a possibilidade de vincular seu apoio à reeleição do presidente do Senado a uma negociação sobre a situação do ex-presidente.
“Não aceito isso. É inviável”, afirmou.
A desconfiança é alimentada pela experiência da eleição anterior para o comando do Senado. Em 2025, o PL apoiou Alcolumbre na expectativa de conseguir avanços na pauta da anistia, mas se deparou com a frustração de não conseguir aprovar uma medida que beneficiasse Bolsonaro e outros condenados por atos golpistas.
Entre os parlamentares eleitos, a rejeição à proposta é ainda mais enfática. O deputado Carlos Jordy (PL-RJ), que assumirá uma cadeira no Senado em fevereiro, declarou que um novo apoio a Alcolumbre significaria repetir um acordo sem garantias de cumprimento.
“Tem que ser muito otário para cair nessa conversa fiada de Alcolumbre. Senador que votar nele não tem compromisso com o resgate da independência e harmonia entre os Poderes”, afirmou Jordy.
Uma das principais bandeiras da oposição no Senado é o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do STF, considerado adversário político pelo bolsonarismo, devido aos processos que o atingem. O desgaste do magistrado aumentou após revelações de conexões com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Apesar da pressão, a percepção dos integrantes da oposição é de que Alcolumbre não atuará para afastar Moraes, de quem é aliado. A tentativa de aproximação com o bolsonarismo também é vista como uma maneira de reduzir a pressão sobre o ministro e evitar que a eleição para a presidência do Senado se torne uma disputa focada no confronto com o STF.
Disputa pelos votos do Centrão
Com os 29 senadores do PL e os três eleitos pelo Novo, que também rejeitam apoiar Alcolumbre, a candidatura de Marinho conta com uma base potencial de 32 votos. O número, no entanto, ainda é insuficiente em comparação ao grupo que o atual presidente do Senado pretende reunir. Os bolsonaristas apostam nas divisões internas dos partidos do Centrão para reduzir a vantagem do adversário.
Alcolumbre obteve o apoio da direção nacional da federação União-PP, mas a oposição conta com dissidências em ambas as legendas. Além da federação, o presidente do Senado busca uma aliança com o PT e outras siglas da base de Lula, como PSB, PDT e Rede, para se manter no cargo. Juntas, essas legendas formariam um grupo de 39 parlamentares.
Contudo, a situação ainda não é confortável para Alcolumbre. A bancada da federação União-PP, que contará com 11 senadores, está dividida. Mesmo com as orientações das direções partidárias, há parlamentares que resistem a apoiar sua reeleição, tais como Tereza Cristina e o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP).
Em um esforço para impedir que essas divergências comprometam sua candidatura, Alcolumbre começou a abordar individualmente os senadores em busca de apoio. Um dos que foram contatados foi o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), eleito para o Senado. Lira conversou com o presidente da Casa, mas ainda não revelou a quem apoiará.
Outro fator que pode favorecer Alcolumbre é o caráter secreto da votação para a presidência do Senado. Essa regra permite que parlamentares desobedeçam as orientações de seus partidos sem que seus votos sejam identificados, abrindo margem para apoios de integrantes da oposição que publicamente rejeitam sua reeleição. Aliados do atual presidente depositam suas esperanças nesse cenário para ampliar sua vantagem.
Além disso, também estão em disputa os votos das bancadas do Republicanos, Podemos e PSDB, que somam 16 parlamentares e ainda não se pronunciaram em apoio a nenhum dos grupos. A oposição confia nesse contingente para fortalecer a base de Marinho.
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