Poder e Governo

Nunes Marques e Mendonça se distanciam de Flávio após carta golpista

Ministros do STF tentam desvincular-se da contestação eleitoral feita pelo senador após derrota para Lula

Agência O Globo - 29/10/2026
Nunes Marques e Mendonça se distanciam de Flávio após carta golpista
Nunes Marques - Foto: STF

Indicados ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, os ministros André Mendonça e Nunes Marques têm buscado se distanciar de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após a derrota nas eleições presidenciais. A carta de teor golpista divulgada pelo senador, na qual ele contesta o resultado das urnas e se apresenta como o verdadeiro vencedor da disputa, provocou críticas até mesmo entre magistrados mais próximos a integrantes do bolsonarismo.

A avaliação nos bastidores do Supremo é que Flávio "perdeu a noção" ao divulgar o documento. A percepção é que a iniciativa do senador ultrapassou os limites de uma contestação política e colocou em xeque a legitimidade do processo eleitoral sem apresentar provas de irregularidades.

O desconforto se soma à manifestação pública do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Nunes Marques, que divulgou uma nota reafirmando a legitimidade do resultado eleitoral e defendendo o respeito à vontade expressa pelos eleitores nas urnas. Sem citar diretamente Flávio, o ministro afirmou que a Justiça Eleitoral cumpriu seu papel na condução do pleito.

"Ressalto o compromisso de toda a Justiça Eleitoral com a vontade soberana do eleitorado, que foi às urnas e legitimamente escolheu seus representantes", afirmou Nunes Marques.

Na mesma manifestação, o presidente do TSE reconheceu que houve instabilidade na reta final da votação, mas ressaltou que as medidas adotadas e o trabalho dos técnicos do tribunal permitiram concluir a apuração com segurança. O ministro também destacou que eventuais contestações devem seguir os canais institucionais.

"Informo que todos os questionamentos feitos dentro do devido processo legal serão analisados e respondidos", declarou.

As reações chamam atenção pelo histórico de proximidade dos dois ministros com o ex-presidente Jair Bolsonaro, responsável pela indicação de ambos ao Supremo. Nunes Marques foi o primeiro escolhido pelo então presidente para integrar a Corte, em 2020. Mendonça, que havia comandado o Ministério da Justiça e a Advocacia-Geral da União (AGU) no governo Bolsonaro, foi indicado no ano seguinte.

Embora não representem necessariamente um rompimento político com a família Bolsonaro, as reações evidenciam um distanciamento em relação à estratégia adotada por Flávio após a derrota eleitoral.

Como mostrou O GLOBO, a carta também provocou forte reação em outra ala do Supremo. Reservadamente, ministros classificaram o episódio como um "vexame" e demonstraram perplexidade com a iniciativa de Flávio de se declarar vencedor da eleição, apesar da derrota nas urnas. Na avaliação desses magistrados, o documento representa uma tentativa de deslegitimar o processo eleitoral e de alimentar um ambiente de tensão após o segundo turno.

O episódio também expõe a resistência à contestação feita pelo senador no âmbito da Justiça Eleitoral. Nos bastidores do STF e do TSE, ministros têm criticado o teor da carta e rejeitado as alegações de fraude apresentadas pelo candidato derrotado sem provas.

Na primeira versão da carta golpista, Flávio se declarou o "verdadeiro presidente eleito do Brasil". Posteriormente, alterou o texto e passou a se apresentar como "líder do Brasil", mas manteve os questionamentos ao processo eleitoral.

A carta foi divulgada nesta quarta-feira por Flávio Bolsonaro, que chegou aos Estados Unidos após ser derrotado por mais de 4 milhões de votos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições. A decisão do senador de deixar o país ocorreu após a determinação do ministro Alexandre de Moraes para que entregasse seus passaportes.