Poder e Governo
Carta de teor golpista de Flávio tem inconsistências e alegações falsas
Documento foi divulgado horas depois de o senador chegar aos Estados Unidos, descumprindo decisão do STF
A carta publicada nesta quarta-feira pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresenta uma série de informações falsas ou inconsistências que contrariam sua tese de teor golpista para se declarar "líder do Brasil". No documento, o parlamentar, que fugiu para os Estados Unidos, faz diversas alegações que já foram refutadas ou afastadas até mesmo por seus aliados.
A carta foi divulgada horas depois de o senador chegar aos EUA, descumprindo a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que o proibia de sair do Brasil e determinava a entrega de seus passaportes.
Carta: Flávio primeiro se declara 'presidente eleito do Brasil' e depois troca para ‘líder’
A primeira versão do texto, enviada por aliados, trazia um brasão antigo com a inscrição "Estados Unidos do Brazil" e um trecho em que Flávio se apresentava como "verdadeiro presidente eleito do Brasil". Após a repercussão, o senador trocou o brasão e retirou a autoproclamação, mas manteve a afirmação de que fala ao país "como o líder do Brasil".
Lula foi reeleito com 64,3 milhões de votos, 51,79% dos válidos, e teve a vitória proclamada pelo TSE no próprio domingo.
Flávio fala em fraude, mas PL reconheceu resultado.
Entre as alegações, Flávio Bolsonaro afirma, por exemplo, que houve fraude eleitoral na eleição do último domingo. O PL, partido de Flávio, reconheceu o resultado das urnas. Na segunda-feira, após apagar uma publicação nas redes sociais em que se recusava a dar respaldo à votação, o partido afirmou que reconhecia "o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral".
O reconhecimento não partiu apenas do PL. Republicanos e União Brasil, que apoiaram Flávio no segundo turno, também parabenizaram Lula e defenderam o respeito ao resultado. Além disso, Flávio cita Donald Trump como defensor da liberdade e agradece o apoio do presidente americano. Mas, um dia após o primeiro turno, quando Flávio terminou à frente de Lula, Trump elogiou o sistema eleitoral brasileiro e o comparou favoravelmente ao dos Estados Unidos.
Senador fala em virada impossível de Lula, mas números contradizem argumento.
A afirmação de Flávio de que houve fraude eleitoral também não é sustentada pelos argumentos apresentados pelo candidato. Inicialmente, Flávio fala em uma atuação ilegítima e ilegal do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), a quem chama de "ex-advogado do Lula".
Segundo Flávio, isso teria permitido que uma "impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno".
Entretanto, nenhuma das duas afirmações de Flávio Bolsonaro tem amparo nos dados eleitorais. No primeiro turno, 9,32 milhões de brasileiros já tinham votado em outros candidatos. Além disso, o total de votos válidos cresceu em mais 4 milhões. O total de eleitores à disposição dos candidatos chegava a 14 milhões. O argumento apresentado por Flávio desconsidera o perfil do eleitorado que votou no 2º turno: a abstenção entre eleitores de Lula pode ter diminuído ao mesmo tempo em que a abstenção dos eleitores de Flávio pode ter aumentado.
Flávio teve menos votos até mesmo que Lula em 2022.
Uma comparação básica demonstra que a votação de Lula não foi uma impossibilidade matemática, como afirma Flávio. Neste ano, o senador teve 59,8 milhões de votos, mais do que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, teve em 2022.
'Brazil', 'verdadeiro presidente', 'líder': As mudanças nas três cartas golpistas de Flávio em menos de uma hora
Em meio à crise provocada pela fuga de Flávio: Moraes autoriza visita de Valdemar Costa Neto a Bolsonaro
Porém, mesmo a votação de Flávio Bolsonaro neste ano, com um eleitorado maior, foi inferior à votação de Lula quatro anos atrás, quando o presidente teve 60,3 milhões de votos. Ou seja, a votação de Flávio permaneceu inferior até mesmo à votação que o petista já teve há quatro anos. Mesmo na eleição realizada há quatro anos, Jair Bolsonaro também teve um crescimento expressivo entre o primeiro e o segundo turno, conquistando 7 milhões de votos a mais.
Impacto da prorrogação foi irrisório.
A atuação de Cristiano Zanin, criticada por Flávio Bolsonaro, também não teve efeito prático algum na eleição. Conforme levantamento publicado pelo próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apenas 34 mil pessoas votaram, o equivalente a apenas 0,8% da votação de Lula e de Flávio Bolsonaro.
No documento, Flávio não cita que a sua campanha, no dia da eleição, fez um pedido para que a votação fosse prorrogada.
O detalhamento dos horários reforça o efeito mínimo que teve a decisão de Zanin. Dos 34 mil votos registrados após as 17h, 29 mil ocorreram nos cinco primeiros minutos, indicando que a maioria dos votos foi dada por eleitores que já estavam na fila no horário de encerramento e que, pela legislação eleitoral, teriam direito a votar de qualquer forma. Mesmo no cenário extremo em que todos os votos registrados após as 17h tivessem ido para Lula e fossem desconsiderados, a vantagem do petista continuaria acima de 4,39 milhões de votos.
A prorrogação foi motivada por relatos de redução na frota de ônibus em cidades como Salvador e São Paulo, dificultando o deslocamento de eleitores. Após a decisão de Zanin, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, determinou que apenas as seções que ainda estivessem abertas seguissem funcionando até às 19h.
Senador cita 'golpe', mas ignora vitórias do PL e aliados.
No documento, Flávio justifica sua fuga afirmando que o Brasil viveria o "manual clássico de golpe". Entretanto, essa afirmação também é impossível de se conciliar com o resultado da própria eleição. No primeiro turno, seu partido, o PL, elegeu a maior bancada da Câmara dos Deputados e, no Senado, elegeu a segunda maior bancada desde a redemocratização. Boa parte dos senadores eleitos pelo PL defenderam o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Além disso, o PL foi o partido que mais elegeu governadores no primeiro turno, com seis.
Falta de liberdade de expressão não se sustenta após campanha.
No documento, Flávio também faz afirmações que classificam o Brasil como um "regime de exceção" e afirmam que o objetivo dos seus adversários seria "silenciar quem discorda". A afirmação, contudo, desconsidera que durante toda a eleição, Flávio não fez qualquer tipo de afirmação sobre isso.
Durante a campanha, o próprio candidato se recusou a participar de debates, mas, no segundo turno, participou de dois diretos com o atual presidente Lula. Além disso, todos os candidatos, incluindo Flávio Bolsonaro, participaram de sabatinas e realizaram campanha normalmente tanto nas redes sociais quanto presencialmente.
Fuga clandestina.
No documento, Flávio também afirma que não fugiu do país, mas o próprio texto contradiz essa afirmação. No início da carta, Flávio agradece ao presidente da Argentina, Javier Milei, e ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela ajuda para sair do país.
Flávio deixou o país por meio da fronteira terrestre, sem passar por um posto da Polícia Federal no final da noite de terça-feira e usando seu passaporte italiano, não o documento brasileiro.
Crimes investigados.
Apesar de ter dito que não cometeu crimes, desde antes do resultado da eleição, Flávio já era alvo de pelo menos dois inquéritos da Polícia Federal que apuram práticas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Flávio é investigado pela prática de crimes na produção da cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro. Para a realização do filme, o senador pediu R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso em Brasília. Além disso, ele também é alvo de investigação por sua ligação com o advogado Willer Tomaz, suspeito de envolvimento no escândalo do INSS.
Governador de SP: Tarcísio diz 'entender indignação' de Flávio após carta golpista, mas cobra 'respeito ao resultado' e 'responsabilidade'
A fuga: Como Flávio passou na fronteira? Quem o ajudou? Ele pode ser extraditado? Veja perguntas e respostas
O inquérito sobre o filme "Dark Horse" tramita no STF desde julho e está sob relatoria do ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro. Já a investigação envolvendo Willer Tomaz chegou ao Supremo em 8 de outubro, como desdobramento de uma apuração da PF no Rio Grande do Sul sobre evasão de divisas e lavagem de dinheiro ligada a plataformas de apostas, e foi distribuída por sorteio a Moraes. Segundo a PF, a quebra do sigilo telemático do advogado revelou e-mails em que Flávio aparece cadastrado como "usuário master" da conta bancária de uma empresa de Willer, além de registros de viagens pagas e de uma relação de proximidade entre os dois.
Exemplo de Jair Bolsonaro desconsidera descumprimento de liminares.
No documento, Flávio também fala que o plano seria seguir o "roteiro da perseguição", que incluiria apreensão do passaporte e, posteriormente, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar, julgamento de fachada e, finalmente, condenação política. A sequência descreve o que aconteceu com seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Entretanto, Flávio ignora que o endurecimento da situação do ex-presidente ocorreu em paralelo a descumprimentos das determinações do Supremo Tribunal Federal.
Em agosto de 2025, por exemplo, Moraes converteu as medidas cautelares de Jair Bolsonaro em prisão domiciliar após concluir que o ex-presidente havia usado perfis de aliados, entre eles o do próprio Flávio, para publicar mensagens nas redes sociais, o que estava proibido. Na decisão, o ministro registrou que Flávio apagou uma publicação para tentar ocultar a irregularidade. Em novembro do mesmo ano, a prisão preventiva foi decretada após a tornozeleira eletrônica do ex-presidente ser danificada. Em julho de 2026, as restrições da prisão domiciliar foram endurecidas após Jair escrever uma carta de apoio à pré-candidatura do filho, divulgada nas redes, e Flávio foi proibido de visitar o pai até depois do primeiro turno.
Mesmo no julgamento da trama golpista, em que foi condenado, Jair teve direito normal à defesa e o próprio processo contou com voto divergente do ministro Luiz Fux.
Suprema Corte aparelhada.
Apesar de criticar o fato de que a maioria do Supremo Tribunal Federal tenha sido indicada por presidentes do PT, as principais críticas de Flávio Bolsonaro recaem sobre o ministro Alexandre de Moraes, que foi indicado pelo ex-presidente Michel Temer.
Além disso, Flávio não menciona que o presidente e o vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral durante as eleições eram os ministros Kassio Nunes Marques e André Mendonça, indicados por Jair Bolsonaro.
Em outro ponto do documento, Flávio fala que a oposição estaria controlada pela Suprema Corte. Contudo, essa afirmação desconsidera que, neste mandato, a oposição votou e obteve a vitória ao recusar a indicação de Jorge Messias ao Supremo.
Pedido de apreensão partiu da PF.
Flávio afirmou na carta que, "sete minutos após" o resultado, o ministro Alexandre de Moraes "pôs em andamento a máquina de perseguição". Embora a referência aos sete minutos seja verdadeira, o pedido de entrega do passaporte foi feito pela Polícia Federal, e não pelo ministro, que decidiu a favor no dia seguinte. Antes disso, três deputados já haviam solicitado a apreensão do passaporte.
O pedido da Polícia Federal foi justificado por três elementos. Primeiro, o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, publicou um vídeo recomendando que Flávio deixasse o país em caso de derrota. Além disso, os investigadores citaram o poder econômico do senador e a existência de uma estrutura no exterior que permitiria sua permanência longa.
Comparação com Venezuela ignora diferenças.
No documento, Flávio tentou comparar a situação do Brasil com as acusações de fraude na Venezuela durante o regime de Nicolás Maduro. As evidências apresentadas pela oposição venezuelana eram muito mais sólidas do que os argumentos de Flávio.
Na Venezuela, ao contrário do Brasil, não houve divulgação dos resultados por seção, e as atas de votação apresentadas pela oposição contrariavam o resultado oficial. No Brasil, os boletins de cada urna são públicos, e Flávio não apontou irregularidades em nenhum deles.
Observadores atestaram normalidade.
A carta pede à comunidade internacional que "não normalize" o que acontece no Brasil. As eleições foram acompanhadas por sete missões internacionais de observação credenciadas pelo TSE. A da Organização dos Estados Americanos (OEA), a maior já enviada ao país, com 91 observadores, destacou em seu relatório preliminar a organização e a capacidade técnica da Justiça Eleitoral no primeiro turno.
Mais lidas
-
1DO PLANALTO AO COLINHO
“Papai Trump”: Flávio vira alvo de memes após saída do Brasil; veja vídeo de IA
-
2POLÍTICA
Veja os resultados das eleições neste início da apuração
-
3ELEIÇÕES
Acompanhe minuto a minuto o 2º turno das eleições no Brasil 2026
-
4LULA LÁ
Paulista tomada por multidão; estimativas falam em 2 milhões no ato do presidente Lula; veja vídeo
-
5POLÍTICA
Marco Rubio articulou saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, diz aliado