Poder e Governo
De Ramagem a Eduardo: ida de Flávio para os EUA amplia lista de bolsonaristas que saíram do país em meio a investigações
Irmão do senador vive nos Estados Unidos sob o argumento de que é perseguido pelo Judiciário brasileiro; ministro Alexandre de Moraes determinou apreensão do passaporte do parlamentar logo após a vitória de Lula no último domingo.
Com a informação sobre a ida de Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos, o senador amplia o histórico do bolsonarismo de viagens definitivas para o exterior em meio a complicações com a lei. Familiares e militantes ligados ao campo adotaram estratégias parecidas quando confrontados pela Justiça brasileira.
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O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), por exemplo, mora nos Estados Unidos desde fevereiro do ano passado alegando supostas perseguições sofridas no Brasil. A também ex-parlamentar Carla Zambelli (PL), o blogueiro Allan dos Santos, o ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL) e o ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques (PSD), usaram justificativas semelhantes para justificar a opção por uma vida no estrangeiro.
Já o pai de Flávio, Jair Bolsonaro (PL), atualmente em prisão domiciliar após ser condenado pela trama golpista, chegou a viajar para os EUA após ser derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022. Em outra ocasião, após a Polícia Federal (PF) confiscar seu passaporte por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) — medida da qual Flávio também seria alvo —, Bolsonaro chegou a passar dois dias na Embaixada da Hungria, em meio a especulações sobre uma eventual saída do Brasil.
Eduardo Bolsonaro
Fora do Brasil desde fevereiro do ano passado, Eduardo Bolsonaro recebeu em julho um Green Card do governo Trump. Ele entrou nos Estados Unidos com um visto de turista, o que lhe permitia seguir em solo americano por cerca de seis meses. O ex-parlamentar alegava supostas perseguições do Judiciário brasileiro.
Para driblar as limitações do visto que possuía até então, o bolsonarista dizia à época que pretendia solicitar asilo político à gestão Trump, já que esta seria uma forma de conseguir o green card. À época, Jair Bolsonaro defendeu que o filho "é muito mais útil para o Brasil lá fora do que aqui dentro".
A previsão de aliados era a de que o herdeiro do ex-presidente retornaria ao Brasil em julho ou agosto deste ano, próximo às eleições, para disputar o Senado por São Paulo ou compor uma chapa à Presidência com o apoio do pai, o que acabou não ocorrendo.
Desde então, Eduardo teve o mandato parlamentar cassado por faltas e perdeu o cargo público como escrivão da Polícia Federal. Em junho, ele foi condenado pelo STF a 4 anos e 2 meses de prisão por tentar interferir no processo sobre tentativa de golpe. O ex-deputado foi acusado, por exemplo, de articular medidas junto ao governo dos EUA para pressionar autoridades brasileiras, como o tarifaço e sanções contra o próprio Alexandre de Moraes.
Carla Zambelli
A ex-deputada federal Carla Zambelli (PL) também deixou o Brasil no ano passado após ser condenada pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). Em maio de 2025, ela foi sentenciada a dez anos de prisão e à perda do mandato como parlamentar por ter envolvimento em invasões hackers aos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Pressa na penitenciária feminina de Rebibbia, em Roma, aguardava o julgamento dos pedidos de extradição até maio, quando a Corte de Cassação anulou a decisão da Corte de Apelação que autorizou a extradição dela. A instância superior entendeu que o caso não foi julgado de maneira imparcial pelo STF.
Em julho deste ano, a Corte de Cassação começou a analisar o segundo pedido de extradição, este relacionado à condenação da ex-deputada por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal. Zambelli foi condenada por um caso ocorrido em 2022, na véspera das eleições presidenciais. Na ocasião, a parlamentar, apoiadora do então presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro, perseguiu um homem pelas ruas de São Paulo com uma arma em punho, após ter supostamente sido provocada.
Allan dos Santos
O blogueiro bolsonarista Allan dos Santos adota a mesma estratégia e mora nos Estados Unidos com ordem de prisão em aberto emitida pela Justiça brasileira. No ano passado, ele foi indiciado pela PF por desobediência, incitação ao crime, difamação e injúria. As acusações teriam como base, segundo um relatório encaminhado ao STF, "mensagens falsas e ofensivas, a confirmação da manipulação do conteúdo, os insultos proferidos, a criação sistemática de novos perfis para burlar ordens judiciais e conteúdos de incitação". Os elementos, recolhidos como provas, constituiriam um "robusto conjunto de indícios de autoria e materialidade", afirma o documento produzido pela PF.
O relatório também afirma que "as manifestações de Allan dos Santos, principalmente no contexto de 'milícia digital', têm o objetivo de incitar, publicamente, a prática de crimes por terceiros, a exemplo de ataques a instituições e a seus membros".
Além disso, Allan teve a prisão decretada pelo ministro Alexandre de Moraes em 2021, atendendo a um pedido da PF, por suspeita de atuação em organização criminosa, crimes contra honra e incitação a crimes, preconceito e lavagem de dinheiro. Em 2025, foi decretada uma nova prisão por obstrução de Justiça.
Em setembro, Alexandre de Moraes determinou o arquivamento de uma das investigações que envolvia Allan. A decisão atendeu a um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), que considerou insuficientes as provas para enquadrar os fatos investigados como obstrução à investigação de organização criminosa e incitação ao crime. O arquivamento desse procedimento, entretanto, não revogou o mandado de prisão expedido em 2021.
Alexandre Ramagem
O ex-deputado federal Alexandre Ramagem foi condenado no ano passado, em julgamento da trama golpista realizado pela Primeira Turma do Supremo, a uma pena de 16 anos pelos crimes de organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Ramagem, entretanto, foi para os EUA poucos dias antes do julgamento.
O delegado da PF coordenou a equipe de segurança de Bolsonaro logo após a vitória eleitoral em 2018. No cargo, ele se aproximou do então presidente eleito e de sua família. Em julho de 2019, ele foi nomeado diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência, cargo no qual permaneceu até abril de 2022.
De acordo com a PF, a fuga e a permanência do ex-parlamentar nos EUA tiveram participação central da família do garimpeiro Rodrigo Martins de Mello, conhecido como Rodrigo Cataratas. Ele, a mulher Priscila de Mello e o filho Celso Rodrigo de Mello são apontados como responsáveis por viabilizar moradia, suporte financeiro e obtenção de documentos falsos para Ramagem no país. O objetivo seria “ludibriar as autoridades americanas”, inclusive para a emissão de carteira de motorista.
A investigação também traçou a rota de saída do país. Ramagem deixou o Brasil por Roraima, cruzando a fronteira pelo município de Bonfim em direção à Guiana, país onde Cataratas mantém negócios. De lá, seguiu para os Estados Unidos. A PF aponta que o esquema contou com estrutura organizada para garantir a fuga e a permanência clandestina no exterior.
Silvinei Vasques
O ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Silvinei Vasques foi preso em dezembro de 2025 no Aeroporto Internacional de Assunção, no Paraguai, em uma tentativa de fuga, após romper a tornozeleira eletrônica. Ele tentava embarcar em um avião que iria a El Salvador, na América Central. Silvinei foi detido com um passaporte original que não condizia com as suas informações.
A Suprema Corte havia condenado Vasques a 24 anos e seis meses de prisão pela participação na trama golpista dez dias antes da tentativa de fuga. Segundo a denúncia da PGR, ele integrava o chamado "núcleo dois" do plano golpista, acusado de usar a máquina pública para interferir nas eleições de 2022 e manter Jair Bolsonaro no poder.
O bolsonarista já havia sido preso antes, em agosto de 2023, em virtude da atuação ao ordenar bloqueios da PRF em rodovias no segundo turno das eleições de 2022. Conforme investigações, a medida visava dificultar o trânsito de eleitores na Região Nordeste, onde o presidente Lula obteve votação expressiva. Atualmente, Silvinei cumpre pena em Brasília.
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