Poder e Governo

Mapa da campanha presidencial: Sudeste concentra 70% dos compromissos dos candidatos enquanto Norte é deixado de lado

Flávio e Lula rivalizam em ‘distância percorrida’, Cury tem maior número de agendas em igrejas e Caiado foca nas entidades privadas; levantamento feito por O GLOBO considera os primeiros 30 dias de campanha

Agência O Globo - 18/09/2026
Mapa da campanha presidencial: Sudeste concentra 70% dos compromissos dos candidatos enquanto Norte é deixado de lado
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Os candidatos à presidência visitaram 18 das 27 unidades da federação do Brasil nos primeiros 30 dias de campanha eleitoral, entre 16 de agosto e 15 de setembro, mostram dados analisados por O GLOBO. Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Lula (PT), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) realizaram juntos mais de 300 compromissos no período, entre comícios, entrevistas, motociatas, visitas a entidades religiosas e a equipamentos públicos.

As informações foram coletadas e tabeladas pela reportagem por meio dos comunicados enviados pelas assessorias de imprensa de cada candidato pelo WhatsApp. Os dados mostram que os candidatos focaram, sobretudo, na região Sudeste do país, que concentra 70% dos compromissos durante o período analisado.

A região Norte, até o dia 15 de setembro, foi visitada apenas por Flávio, que esteve no Amazonas e no Pará. Lula visitou o estado do Amapá no dia 17 de agosto, mas o compromisso foi parte da agenda presidencial. Para o levantamento, foram considerados apenas os eventos públicos de campanha dos candidatos.

Flávio, Lula e Renan foram os que visitaram o maior número de estados até o momento, tendo ido a dez unidades da federação cada.

No período, Augusto Cury foi o que esteve no maior número de compromissos religiosos, como igrejas evangélicas e eventos desse segmento. Caiado, por sua vez, esteve com mais foco em visitas a entidades privadas como associações de montadoras de veículos e eventos de bancos e instituições financeiras, enquanto Renan Santos concedeu mais coletivas de imprensa, participou de entrevistas e sabatinas e foi o segundo candidato que mais esteve no Nordeste, depois de Lula. O petista teve o menor número de compromissos e focou em especial em comícios.

Em um cálculo ilustrativo feito por O GLOBO para entender o quanto cada candidato percorreu pelo país até o momento, Flávio acumula mais de 20.000 quilômetros, considerando as distâncias em linha reta entre os compromissos divulgados pela assessoria do candidato. Na sequência, aparece Lula, com 17.000 quilômetros.

Abaixo, clique no nome dos candidatos para ver os compromissos de cada um pelo Brasil:

Entre o governo e a campanha

Lula teve 14 compromissos de campanha, o menor número entre todos os candidatos à presidência considerados no levantamento. Ele apostou principalmente em comícios, que representaram mais da metade dos compromissos e foram realizados em estados do Sul, Nordeste e Sudeste.

O petista tem dividido seu tempo entre compromissos de governo e de campanha. A busca pela reeleição acaba se concentrando sobretudo às sextas-feiras e finais de semana. A equipe tem dado preferência aos locais em que o presidente encontra um palanque local robusto, seja de candidatos do próprio partido ou de legendas aliadas.

Lula foi o que mais esteve no Nordeste. Por lá, ele encontra situação mais confortável, dado o histórico de preferência nos estados da região em candidatos do PT. No Sul, os atos de campanha foram ao lado de candidatos do PDT aos governos do Rio Grande do Sul e do Paraná, fruto de alianças pensadas para unir a esquerda em prol de um palanque mais forte para Lula.

No Sudeste, que teve 42% dos compromissos de Lula, o petista enfrenta uma situação desafiadora. Em São Paulo, seu apadrinhado ao governo estadual, Fernando Haddad (PT), enfrenta uma estagnação nas pesquisas e dificuldades perante o adversário bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos), que tenta a reeleição.

Já em Minas, o presidente tenta fortalecer a candidatura de Patrus Ananias (PT), que aparece empatado em segundo lugar nas pesquisas com Alexandre Kalil (PDT) — ambos atrás de Cleitinho Azevedo (Republicanos). Historicamente, os dois estados são considerados chave para garantir a eleição presidencial pela quantidade de eleitores. Já no Rio, ele apoia Eduardo Paes (PSD), que, por sua vez, expõe a aliança com parcimônia em sua campanha, ainda que negue esconder o petista.

Flávio em busca do carimbo do Norte

Flávio Bolsonaro foi o único que esteve como candidato na região Norte do país nos primeiros 30 dias de campanha. Ele visitou os estados do Amazonas e do Pará, em 11 e 14 de setembro, onde realizou comícios, visitou a fábrica da Honda e também fez motociata.

O candidato do PL tenta reverter a derrota que seu pai, Bolsonaro, sofreu nos estados da região em 2022, quando Lula se saiu melhor. No Amazonas, Flávio tem dificuldades para emplacar Maria do Carmo (PL) ao governo estadual, em uma disputa que tem Omar Aziz (PSD) e Roberto Cidade (União) empatados na liderança, segundo pesquisas mais recentes.

A avaliação de aliados é que, como Jair foi mais bem votado que o petista em Manaus, Flávio teria potencial para se sair melhor nesta eleição no estado.

No Pará, a eleição ao governo está acirrada e a disputa presidencial tem ficado em segundo plano. O PL de Flávio indicou a vice Ellayne D’Almeida (PL) na chapa de Dr. Daniel (Podemos), que enfrenta Hana Ghassan (MDB), que por sua vez tem um vice do PT, Dirceu Ten Caten, na chapa. Tanto Lula quanto Flávio pouco têm aparecido nos materiais de campanha dos candidatos, em um pleito mais focado em temas locais.

Na visita ao estado, Flávio acenou sobretudo à pauta do desenvolvimento econômico — com exploração de minérios e madeira — e turismo do Pará, mencionando as “riquezas ao povo paraense” e a “regularização da terra”, mas também prometeu combater a “exploração ilegal de madeira, ouro e minérios”. Em 2022, Lula foi mais votado que Bolsonaro nos dois turnos no estado.

Cury e o eleitorado religioso

Candidato do Avante, o escritor e psicanalista Augusto Cury concentrou 75% dos compromissos no estado de São Paulo. No período analisado, o candidato foi o que teve a maior proporção de compromissos em entidades religiosas. Ele esteve na igreja Z’Ele Church, na Zona Leste de São Paulo, foi a um festival católico realizado no Autódromo de Interlagos, também na capital paulista, e participou de uma reunião com a Federação Israelita paulista, além de ter encontrado lideranças da Assembleia de Deus, Ministério Belém, na Zona Leste da capital paulista, entre outros eventos.

No dia 3 de setembro, quando esteve na Assembleia de Deus, denominação evangélica mais conservadora, o escritor disse estar próximo dessa fatia do eleitorado “há décadas”. No encontro, Cury ouviu do pastor José Wellington, o presidente da igreja, que os livros do escritor são usados pelos pastores “há anos”. Cury possui uma coletânea de livros dedicados a Jesus Cristo.

Candidato a vice na chapa do escritor, o ex-deputado federal Júlio Delgado (Avante) diz que na reta final da campanha, Cury deve visitar regiões que ainda não deu tanta atenção, como o Sul e o Nordeste.

— As entidades religiosas são uma coincidência em função dele ser convertido, frequentar a igreja, a esposa dele ser muito cristã e evangélica, não teve nenhuma orientação de pesquisa — diz Delgado.

Renan Santos de olho no Nordeste

Renan foi o candidato com o maior número de compromissos na cidade de São Paulo. Pouco mais da metade dos compromissos do candidato foram concentrados na capital paulista, onde participou sobretudo de entrevistas ou sabatinas. Foram 20 somente na cidade e trinta e três, mais de uma por dia, desde o início da campanha.

Renan aparece entre os presidenciáveis que visitaram mais estados do país nos primeiros 30 dias de campanha, com compromissos em dez estados diferentes, assim como Flávio e Lula. Depois do petista, foi o que mais esteve na região Nordeste, onde se dividiu entre a Paraíba, Alagoas, Pernambuco, Ceará e Maranhão, tendo rodado mais pela região que Lula.

No Nordeste, Renan apostou em agendas que poderiam repercutir na mídia local, como quando esteve em João Pessoa, na Paraíba, e usou uma retroescavadeira para retirar entulhos do que seria uma barricada do crime organizado no bairro do Grotão. Para a reta final da campanha, o candidato deve rodar por sete estados, para fortalecer candidaturas locais do partido Missão, em um ônibus.

— São estados em que temos chapas competitivas. A gente vai fazer região Sudeste e Sul. É sem parar. E as paradas serão estratégicas, somente para fazer eventos e live praticamente 24 horas — diz a coordenadora da campanha do candidato, a vereadora Amanda Vettorazzo.

Zema e Caiado trocam estados natais por SP

Romeu Zema teve mais compromissos em São Paulo do que em Minas Gerais, onde era governador até o início deste ano, assim como Ronaldo Caiado, que renunciou ao governo de Goiás. O candidato do Novo está entre os que mais concentraram os compromissos no Sudeste, com quase 70% dos compromissos em estados da região.

Na capital paulista, Zema priorizou temas que são o foco de sua campanha. Para além de entrevistas e debates, participou de um encontro com motoboys na região central, esteve ao lado de empreendedores da Rua 25 de Março e com aposentados que foram vítimas do golpe do INSS na Bela Vista. Também encontrou mulheres com familiares viciados em jogos de aposta, em uma igreja no Jardim Paulistano.

Depois de Cury, ele foi o que mais visitou entidades religiosas. Esteve em cinco igrejas ao longo da campanha, a maioria católicas. No primeiro dia de campanha, participou de uma missa na cidade de Montes Claros, em Minas Gerais. Inaugurou a participação na corrida presidencial na cidade do norte mineiro por considerar a região um “modelo” das propostas de desenvolvimento que defende para o país.

Em 23 de agosto, Zema visitou ainda uma missa na Igreja da Penha, no Rio de Janeiro, encontrou lideranças religiosas em Porto Alegre, no dia 28, e esteve em espaços católicos no Ceará, tendo visitado o santuário do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, e uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, no Crato.

Caiado, nos primeiros 30 dias de campanha eleitoral, concentrou 57% dos compromissos em SP. Goiás teve apenas 16% das agendas do candidato. Em terras paulistas, Caiado concedeu ou participou de ao menos 17 entrevistas e visitou dez eventos de entidades privadas, como a Conferência Anual do Santander e a visita à diretoria da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores.

Goiás, no entanto, foi o único estado em que o candidato realizou carreatas, logo no início da campanha, quando percorreu cinco cidades no entorno do Distrito Federal. Apesar de ter passado mais tempo no Sudeste, Caiado foi o que teve a maior fatia de compromissos no Centro-Oeste, com 22% das agendas na região, mas todas em Goiás.

O candidato do PSD foi o que visitou o menor número de estados até o momento, tendo circulado, além de SP e GO, por Rio de Janeiro, Distrito Federal e Rio Grande do Sul.