Poder e Governo

Novas mensagens de Vorcaro sobre filhos de Nunes Marques e Fux embaraçam julgamento do caso Master

Sessão começou em clima de tensão e acusações entre magistrados que discutem se autorizam investigação sobre Moraes

Agência O Globo - 15/09/2026
Novas mensagens de Vorcaro sobre filhos de Nunes Marques e Fux embaraçam julgamento do caso Master
Daniel Vorcaro - Foto: © telegram SputnikBrasil / Acessar o banco de imagens

No dia do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a relação do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, do Banco Master, a divulgação de novas conversas extraídas do celular do banqueiro revelou novas relações dele com pessoas próximas a mais dois integrantes da Corte. A sessão, nesta terça-feira, foi iniciada em clima de tensão e acusações entre os magistrados, que discutem se autorizam ou não uma investigação sobre Moraes.

Entre as novas mensagens estão diálogos de Vorcaro com um ex-diretor do Master tratando sobre pagamentos ao advogado Kevin Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques. Outra conversa mostra uma suposta relação entre Vorcaro e Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux.

Em nota, o escritório de Kevin negou ter recebido qualquer dinheiro de Vorcaro e do Banco Master. Já o escritório de Rodrigo Fux afirmou que nunca advogou, prestou serviços ou recebeu recursos de Vorcaro ou de empresas ligadas ao grupo.

Filho de Nunes Marques

Em uma mensagem, de julho de 2025, o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó Netto, pergunta a Vorcaro se deveria manter o repasse de "500 mil mês" ao advogado. O ex-controlador do Master respondeu com "kkkk".

Em outro diálogo sobre o assunto, um mês depois, Rennó cita que está faltando um pagamento à "consult". "Dos pagamentos está faltando a consult. Aqui", diz Rennó, respondendo a uma mensagem de Vorcaro com o nome e contato de Kevin Marques. "Esse aí. Único 'meu' que faltou", acrescentou ele.

Reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, publicada em março deste ano, mostrou que a Consult Inteligência Tributária, uma empresa de consultoria, fez pagamentos de R$ 281,6 mil a Kevin.

Em nota, a assessoria do advogado afirmou que ele nunca prestou serviços ao Master nem recebeu dinheiro de Vorcaro, mas recebeu R$ 281,6 mil da Consult, "empresa à qual prestou serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa". "A atuação profissional do advogado Kevin Marques em favor da Consult não tem qualquer relação com o Supremo Tribunal Federal", diz o texto.

Também em nota, o ministro Kassio Nunes Marques afirmou que "nunca votou a favor do Banco Master e que o filho nunca recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro".

'Viagem de 10 dias'

Outra mensagem encontrada no celular de Vorcaro, de dezembro de 2024, cita nominalmente o ministro Kassio Nunes Marques.

O dono de uma agência de viagens de luxo, Leo Serrano, mostra a Vorcaro o print de um pedido do ministro para ajudá-lo a organizar uma viagem de 10 dias para a Europa ou para o Peru.

"Preciso de sua ajuda para formatar uma viagem de uns 10 dias, entre 8 e 18 de janeiro, para 5 pessoas. De preferência com guias e motoristas de vans que falem português e espanhol. Inicialmente imaginei Viena, com bate e volta nas cidades próximas como Bratislava, Budapeste, Graz ou Salzburgo", diz o texto atribuído ao ministro.

Quinze dias depois, Serrano enviou uma mensagem contando a Dani (Daniel Vorcaro) que "aquele Kássio que pediu viagem pra aquele grupo em janeiro sumiu". A defesa de Serrano afirmou que a viagem não foi contratada nem realizada. Questionado, Nunes Marques não se manifestou sobre esse ponto.

Filho de Fux

Outra mensagem apreendida no celular de Vorcaro mostra que, em novembro de 2024, o banqueiro pediu ajuda ao advogado Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, do STF, para tratar de um "caso" sem dar detalhes sobre o que queria, como mostrou o blog da colunista Bela Megale.

Após o pedido, há registro de uma videoconferência e, em seguida, Vorcaro enviou um documento para análise. Os dois, então, passaram a combinar novos encontros no Rio de Janeiro e em Brasília.

A sequência das mensagens mostra que Vorcaro e Rodrigo conversam sobre festas, viagens, Carnaval, almoços e charutos.

Em nota, o escritório de Rodrigo Fux disse nunca ter recebido pagamentos ou celebrado contratos com Vorcaro e que os contatos se trataram de uma "tentativa de aproximação comercial" por parte do banqueiro, mas que "jamais se concretizou".

Clima hostil no STF

A divulgação das mensagens ocorreu no dia do julgamento que analisa se há elementos para que seja aberta uma investigação sobre mensagens que mostram Vorcaro pedindo orientações a Moraes na véspera de sua prisão, em novembro do ano passado.

Na semana passada, os ministros Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e o próprio Moraes pediram acesso à íntegra do conteúdo do celular de Vorcaro, que está em posse da Polícia Federal. As cópias foram enviadas a eles na noite do domingo.

Um dos argumentos dessa ala, aliada a Moraes, é que o julgamento sobre suspeitas de envolvimento de Moraes com Vorcaro deveria incluir também outros magistrados que tiveram relação com o banqueiro.

Leia a íntegra da nota de Rodrigo Fux sobre as mensagens de Vorcaro:

"1) Nunca advogou a favor de Daniel Vorcaro ou do Banco Master (controladas, subsidiárias, qualquer empresa do grupo, fundos de investimentos relacionados, etc.);

2) Nunca fez qualquer proposta de trabalho e jamais celebrou qualquer contrato ou manteve relação comercial com Daniel Vorcaro ou com Banco Master (controladas, subsidiárias, qualquer empresa do grupo, fundos de investimentos relacionados, etc.);

3) Nunca recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou do Banco Master (controladas, subsidiárias, qualquer empresa do grupo, fundos de investimentos relacionados, etc.);

4) Jamais foi contratado para atuar em processos que se encontrassem em vias de remessa ao Supremo Tribunal Federal, muito menos para atuar em processos que já se encontrassem em trâmite na Corte;

5) A despeito do tom informal dos diálogos vazados, o que houve foi uma tentativa de aproximação comercial por parte de Daniel Vorcaro e seus sócios. Uma tentativa apenas, mas que, conforme ressaltado, jamais se concretizou. E que se deu mais de um ano antes de qualquer notícia envolvendo fraudes ou implicação criminal do banqueiro".