Poder e Governo
PF cruzou horários e registros para concluir que mensagens eram para Moraes
Ministro contesta a perícia que identificou seu contato em envios feitos segundos após capturas de tela
Questionada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a conclusão da Polícia Federal de que o magistrado era o interlocutor de mensagens enviadas por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, mesmo após elas terem sido apagadas, foi possível após o cruzamento de uma série de informações no celular do banqueiro. Os investigadores analisaram horários de capturas de tela, registros de abertura de aplicativos, logs de envio pelo WhatsApp e dados da agenda do celular de Vorcaro para concluir que textos escritos pelo banqueiro em um bloco de notas eram, em seguida, enviados ao magistrado.
A metodologia, detalhada em um relatório de 218 páginas, foi contestada pelo magistrado nesta terça-feira. Em manifestação enviada ao presidente da Corte, Edson Fachin, Moraes afirmou que a associação do conteúdo a ele se baseia em “mera suposição”.
A divergência ocorre no dia do julgamento da investigação envolvendo Moraes. Em sua manifestação, o ministro sustenta que 47 das 52 notas apresentadas pela PF não foram localizadas nas conversas do WhatsApp de Vorcaro e que, por isso, não haveria comprovação de que os textos foram efetivamente enviados. Segundo Moraes, “90,4% do conjunto é inferência”.
“Dessa maneira, temos textos escritos em um ‘bloco de notas’ que não correspondem a nenhuma mensagem efetivamente comprovada como enviada. Aqui não é que não correspondem a eventual texto enviado, mas sim nem se aponta se uma mensagem foi realmente enviada. O relatório não aponta a existência dessas mensagens no WhatsApp de Daniel Vorcaro. Trata-se de mera suposição”, escreveu Moraes.
O relatório da PF, porém, descreve como os investigadores buscaram reconstruir o caminho percorrido pelos textos mesmo nos casos em que o conteúdo não permaneceu armazenado nas conversas do WhatsApp. A análise foi realizada a partir dos dados extraídos de um iPhone 17 Pro apreendido com Vorcaro em novembro do ano passado, durante a Operação Compliance Zero. O material foi examinado com ferramentas forenses, entre elas o Indexador e Processador de Evidências Digitais (IPED).
Segundo a corporação, Vorcaro adotava um padrão de comunicação: escrevia textos no aplicativo de notas do iPhone, fazia uma captura de tela e, na sequência, abria o WhatsApp e enviava uma mensagem. Para reconstituir esses movimentos, a PF cruzou os horários de abertura e fechamento dos aplicativos, das capturas de tela e dos envios registrados pelo sistema operacional.
A perícia encontrou ainda, em uma pasta temporária do aparelho, arquivos em PDF com conteúdo idêntico ao exibido no bloco de notas. Segundo a PF, esses arquivos eram gerados automaticamente pelo sistema no momento em que o conteúdo era manipulado e ajudaram a estabelecer a cronologia das ações.
A análise mostrou uma sequência que se repetia: depois de produzir a captura de tela, Vorcaro abria o WhatsApp e, poucos segundos depois, fazia um envio. Segundo o relatório, a primeira interação no aplicativo após os prints era, “em regra”, uma mensagem para um número que, na agenda extraída do próprio aparelho, estava salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA” e corresponde ao contato do ministro.
Em um dos exemplos apresentados pela PF, em 30 de outubro de 2025, Vorcaro fez uma captura de tela às 16h32min31s. Cinco segundos depois, abriu o WhatsApp. Às 16h33min03s, o sistema registrou o envio de uma mensagem para o número identificado pela PF como o telefone de Moraes — 32 segundos depois do print. O aplicativo foi fechado três segundos depois.
Cinco mensagens foram encontradas no WhatsApp.
A PF não afirma ter recuperado no banco de dados do WhatsApp o conteúdo de todas as 52 notas como mensagens armazenadas na conversa com Moraes. Nos casos em que isso não ocorreu, a atribuição foi feita a partir da correlação entre os diferentes registros encontrados no aparelho.
Moraes se apoia justamente nessa diferença para contestar a conclusão. O ministro afirma que não seria possível assegurar que a mensagem registrada como enviada pelo WhatsApp continha exatamente o texto capturado segundos antes nem afastar a possibilidade de o mesmo conteúdo ter sido enviado a outras pessoas. Também sustenta que não há como saber se as mensagens foram apagadas antes da abertura ou se chegaram a ser visualizadas pelo destinatário.
O relatório da PF, por outro lado, aponta que cinco das 52 notas foram efetivamente localizadas nas conversas do WhatsApp. Para os investigadores, esses casos corroboram o método usado para atribuir as demais mensagens a partir do cruzamento entre metadados e arquivos temporários.
“Importa ressaltar que as últimas 5 (cinco) notas foram efetivamente localizadas nas conversas do aplicativo WhatsApp, o que confirma a consistência da metodologia empregada — a análise dos metadados em cotejo com os arquivos temporários originados das capturas de tela”, diz o documento.
Na manifestação encaminhada ao STF, Moraes cita essas cinco mensagens para argumentar que mesmo elas não permitiriam atribuir necessariamente a ele o conteúdo das notas. O ministro menciona informações divulgadas anteriormente segundo as quais os mesmos textos teriam sido enviados a outros destinatários e acusa o relatório de ignorar esse elemento.
Moraes também ressalta que não há no material mensagem de sua autoria que indique conhecimento prévio da operação policial, favorecimento ao Banco Master ou atuação em benefício de Vorcaro.
Além de questionar a análise feita pela PF, o magistrado sustenta que a própria produção do relatório foi ilegal. Ele acusa o ministro André Mendonça de ter determinado de ofício uma investigação contra um integrante do STF sem pedido da Polícia Federal ou da Procuradoria-Geral da República e sem autorização do plenário da Corte. A manifestação foi apresentada no procedimento conduzido por Fachin, que convocou uma sessão extraordinária do Supremo para esta terça-feira.
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