Poder e Governo

Cezinha de Madureira é alvo da PF e foi presidente da bancada evangélica

Deputado do PL foi vice-líder do governo, mas foi preterido na formação do palanque de Flávio Bolsonaro em SP

Agência O Globo - 14/09/2026
Cezinha de Madureira é alvo da PF e foi presidente da bancada evangélica
Cezinha de Madureira - Foto: Bruno Spada / Câmara dos Deputados

Alvo de uma operação da Polícia Federal nesta segunda-feira que investiga suspeitas de tráfico de influência em tribunais superiores, o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) é um dos nomes mais antigos e influentes da articulação política da Assembleia de Deus no Congresso. Ligado à cúpula do Ministério de Madureira, o parlamentar já presidiu a Frente Parlamentar Evangélica e foi vice-líder do governo Jair Bolsonaro na Câmara.

Cezinha está no segundo mandato como deputado federal por São Paulo. Antes de chegar à Câmara, em 2019, foi deputado estadual. Nascido em Ipiaú, na Bahia, mudou-se para São Paulo na década de 1990 e construiu sua trajetória política a partir da ligação com a Assembleia de Deus Ministério de Madureira, uma das principais denominações pentecostais do país.

O deputado é próximo do bispo Samuel Ferreira, presidente executivo da igreja, e se consolidou como um de seus principais representantes no meio político. A ligação com a denominação foi incorporada até ao nome usado nas urnas. Quando chegou à Câmara, Cezinha atribuiu sua eleição ao apoio da igreja.

O espaço conquistado entre os evangélicos levou Cezinha à presidência da Frente Parlamentar Evangélica em 2021, durante o governo Bolsonaro. Mesmo após deixar o comando formal do grupo, continuou participando das principais articulações internas da bancada. Na disputa pela presidência da frente para o biênio 2025-2026, por exemplo, esteve entre os nomes com interlocução nas negociações entre as diferentes alas do segmento.

Cezinha também construiu uma relação próxima com o bolsonarismo. Durante o governo Jair Bolsonaro, integrou a base do então presidente e foi escolhido vice-líder do governo na Câmara em 2022. Naquele ano, apoiou a tentativa de reeleição de Bolsonaro e participou das articulações políticas em torno da candidatura de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo.

A aproximação ocorreu enquanto Cezinha ainda estava no PSD, legenda pela qual foi eleito para seus dois mandatos na Câmara. O parlamentar deixou o partido de Gilberto Kassab e se filiou ao PL neste ano, passando a integrar formalmente a legenda de Jair e Flávio Bolsonaro.

A entrada no partido, no entanto, não se traduziu em maior espaço na campanha presidencial de Flávio. Cezinha foi um dos nomes preteridos na montagem da chapa ao Senado em São Paulo, apesar de um acordo costurado anteriormente por Jair Bolsonaro com o bispo Samuel Ferreira. A negociação previa que a Assembleia de Deus Ministério de Madureira teria espaço na disputa, com Cezinha ou Marco Feliciano. Com outras candidaturas ganhando prioridade, o compromisso não avançou e provocou insatisfação entre lideranças evangélicas. O escolhido do partido acabou sendo o presidente da Alesp, André do Prado, um aliado do presidente do PL, Valdemar Costa Neto.

O episódio reduziu o engajamento de Cezinha no projeto presidencial de Flávio. À época da montagem dos palanques, aliados já apontavam que o deputado havia migrado do PSD para o PL atraído pelo acordo construído com Bolsonaro e que a perda de espaço na chapa paulista deveria afastá-lo da pré-campanha. O desgaste também atingiu Feliciano, que chegou a cobrar Flávio publicamente durante um culto sobre a falta de “reciprocidade” da família Bolsonaro com os evangélicos.

Apesar da ligação com o governo anterior, Cezinha também manteve canais de diálogo com o campo governista após a vitória de Lula. Durante a transição, participou de conversas com integrantes do novo governo e buscou se colocar como uma ponte com o segmento evangélico.

Nesta segunda-feira, Cezinha foi alvo de mandados de busca e apreensão em uma operação da PF que apura suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo a corporação, integrantes do grupo investigado teriam negociado com terceiros o pagamento de valores expressivos condicionados ao resultado de processos em curso, a pretexto de influenciar decisões judiciais.

A PF ressaltou que não há elementos que indiquem a participação de integrantes do Poder Judiciário nos fatos investigados.