Poder e Governo
Operador de Vorcaro era conhecido como ‘pioneiro nas Bahamas’, diz PF em investigação sobre Dark Horse
Antônio Carlos Freixo Júnior, o ‘Mineiro’, tem histórico na montagem de estruturas offshore no país caribenho e confirmou ter transferido US$ 12,3 milhões para fundo ligado ao financiamento do filme
A Polícia Federal afirmou ao Supremo Tribunal Federal que Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, era descrito como “pioneiro nas Bahamas” em razão de estruturas offshore que teria montado no país caribenho. A informação consta de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) citado pela PF ao pedir a abertura de uma investigação específica sobre o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Cumpre ressaltar que Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como 'Mineiro', não é um intermediário financeiro de perfil convencional. O RIF nº 144413 destaca que Freixo é descrito publicamente como 'pioneiro nas Bahamas' em razão de estruturas offshore que teria montado naquele país, tradicionalmente considerado um paraíso fiscal”, escreve a corporação em documento incluído nas investigações relacionadas ao filme.
A referência ao histórico de Freixo nas Bahamas aparece na representação da PF justamente quando os investigadores detalham a estrutura financeira usada para os aportes no filme. O empresário é ligado à Entre Investimentos e Participações e, em delação, disse que realizou sete remessas para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, que totalizaram US$ 12,3 milhões em 2025.
O fundo fica sediado nos Estados Unidos, é administrado por Paulo Calixto, próximo do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e foi usado para o financiamento de “Dark Horse”.
Freixo confirmou as transferências em seu acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República. Segundo o relato do delator, os pagamentos foram realizados a pedido de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
A trajetória de Freixo com estruturas offshore nas Bahamas é anterior à operação envolvendo o filme. Na representação, a PF afirma que ele “não é um intermediário financeiro de perfil convencional” e destaca sua atuação no país caribenho. O documento não aponta que a existência dessas estruturas, por si só, configure crime, mas usa o histórico para contextualizar o perfil de Freixo e sua participação na estrutura financeira sob investigação.
A conexão com Vorcaro também é anterior ao “Dark Horse”. Ao explicar por que considera relevante a escolha da Entre Investimentos para as remessas, a PF afirma que Freixo e Vorcaro mantinham um relacionamento financeiro consolidado, com histórico de operações compartilhadas. Para os investigadores, portanto, a utilização da empresa não teria ocorrido de maneira aleatória.
O caminho identificado pela PF para os recursos do filme, contudo, não passa pelas Bahamas. As transferências investigadas foram feitas da Entre Investimentos, no Brasil, para o Havengate, nos Estados Unidos.
A movimentação internacional de Vorcaro nas Bahamas, porém, também é alvo de uma frente distinta de investigação. Como mostrou O GLOBO, um relatório do Coaf incorporado ao inquérito sobre as fraudes do Banco Master aponta que o banqueiro movimentou US$ 89,6 milhões, cerca de R$ 455 milhões, em transações financeiras nas Bahamas entre janeiro de 2024 e dezembro de 2025.
O relatório reúne operações envolvendo Vorcaro, a Mosaic Financial, uma corretora de valores mobiliários registrada nas Bahamas, e outras empresas. As movimentações foram consideradas suspeitas por diferentes razões, entre elas possível corrupção, origem suspeita dos fundos, transações sem propósito econômico aparente e operações envolvendo jurisdição estrangeira de alto risco.
No caso do filme, a PF encontrou no celular de Vorcaro um contrato que previa investimento total de US$ 24 milhões na produção. O valor seria dividido em 14 parcelas. Segundo a representação, as remessas posteriormente identificadas entre a Entre e o Havengate tinham valores praticamente correspondentes às parcelas previstas no contrato.
Em uma das conversas analisadas pelos investigadores, Vorcaro orientou que um pagamento relacionado ao filme fosse realizado “via Entre” - uma referência, segundo a PF, à Entre Investimentos. Poucos dias depois, foi localizado um comprovante de uma transferência de US$ 2 milhões da Entre para o Havengate, com a indicação de que o pagamento era destinado ao filme.
O documento em que constam os relatos foi assinado pela Polícia Federal em 8 de julho de 2026 e nele pedia ao STF a instauração de uma investigação separada para os achados descritos “com a finalidade de apurar a eventual prática de crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e delitos correlatos no contexto do financiamento transnacional da produção cinematográfica Dark Horse”.
Flávio Bolsonaro, que teve conversas em que pede dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar a cinebiografia do pai, é investigado no Supremo.
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