Poder e Governo
Paes promete fim da influência política na segurança e critica 'dedo podre' de Bolsonaro no Rio
Ex-prefeito do Rio encerrou série de sabatinas O GLOBO, Extra, Valor e CBN e afirmou que as polícias estarão sob o comando da Secretaria de Segurança
Único político eleito quatro vezes prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes tenta agora superar duas derrotas amargas. Ele disputa pela terceira vez o Palácio Guanabara em uma vantagem nas pesquisas que começa a encolher. O candidato do PSD encerrou ontem a série de sabatinas de O GLOBO, Extra, Valor e CBN, atacando o principal rival, Douglas Ruas (PL), como integrante de uma turma de “delinquentes” que comandou o estado nos últimos anos. No entanto, o ex-prefeito também precisou explicar alianças controversas do presente e do passado.
Sobre a relação com o ex-governador Sérgio Cabral — condenado na Operação Lava-jato por corrupção —, afirmou que era de independência e não a de “empregado” ou “filhinho de papai”. Foi assim que tentou classificar Ruas, atual presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), que foi secretário de Cláudio Castro (PL), alvo de investigações da Polícia Federal, e entrou na política pelas mãos do pai, Capitão Nelson (PL), prefeito de São Gonçalo.
Em relação a aliados recentes, como o ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis (MDB), que também foi secretário de Castro, Paes afirmou na sabatina que está sempre em busca de novos apoios, da esquerda à direita. Ele admitiu composição política para formar um eventual governo, mas sem negociar postos-chave. Questionado sobre a presença reduzida de Lula em sua campanha, respondeu que “todo mundo sabe” de seu apoio à reeleição do presidente, mas ressaltou que os dois “não pensam igual em tudo”.
Em uma hora e meia de conversa com os apresentadores da CBN Bianca Santos e Leandro Resende, o colunista do GLOBO Bernardo Mello Franco, o editor de Política do GLOBO e do Extra, Thiago Prado, e o chefe da Sucursal Rio do Valor, Francisco Góes, Paes também foi cobrado por contrariar a promessa da campanha de 2024 de completar o quarto mandato.
— Quando você olha um estado nas circunstâncias em que está, quando vejo Rodrigo Bacellar (ex-presidente da Alerj, preso por suspeita de ligação com o crime organizado), um bandido, candidato a governador, e quando tenho um vice da qualidade do Eduardo Cavaliere (que assumiu a prefeitura em março), mudei minha decisão — tentou justificar Paes, insistindo que Ruas é um plano B do PL. — Saí e não me arrependo. E quero vencer as eleições.
Embora não detalhe muito a política de segurança que pretende adotar se for eleito, o ex-prefeito prometeu uma “polícia sem política”. Ele quer reunificar o comando das polícias Civil e Militar numa Secretaria de Segurança. Crítico do discurso da violência como problema “social”, argumentou que a crise do Rio é “de segurança pública” e prometeu, se eleito, iniciar uma retomada de territórios por São Gonçalo, berço político de Ruas.
Em vários momentos da entrevista, no estúdio da Redação do GLOBO, no Centro do Rio, o ex-prefeito da capital acenou com propostas para as cidades da Região Metropolitana e do interior. Nos transportes, Paes prometeu dar início à Linha 3 do metrô, para ligar o Rio a Niterói e São Gonçalo, com um túnel sob a Baía de Guanabara. Antes, no entanto, afirmou que, se for eleito, pretende levar a linha 2 até a Praça XV, de onde saem as barcas. A sabatina foi a última de uma série que também ouviu Douglas Ruas (PL), William Siri (PSOL) e Anthony Garotinho (Republicanos) em transmissões ao vivo na rádio CBN e nas plataformas digitais dos jornais O GLOBO, Extra e Valor.
Relações políticas: Ruas em grupo ‘delinquente’ e ‘independência’ de Cabral
Na sabatina, Paes insistiu em associar Ruas a um grupo de “delinquentes”, em referência aos problemas na Justiça de Cláudio Castro e alguns de seus aliados, como Bacellar. Sucessor do ex-presidente da Alerj preso, Ruas foi secretário de Castro até março. Paes foi perguntado pelos entrevistadores sobre a diferença na relação que manteve com Sérgio Cabral, de quem também foi secretário e aliado em disputas eleitorais. O candidato do PSD respondeu que nunca foi “empregado” de Cabral, tampouco “filhinho de papai”, rótulo que vem tentando emplacar contra o candidato do PL, filho de Capitão Nelson (PL), prefeito de São Gonçalo.
— Fui secretário dele (Cabral) por um ano. Fui candidato a prefeito, venci as eleições com apoio dele, mas não era uma candidatura “ungida”. O que se vê agora é um projeto político que começa na eleição do (ex-governador Wilson) Witzel, a quem Douglas Ruas já serviu. Tem um projeto de Witzel, Cláudio Castro, e o plano deles era o Rodrigo Bacellar (como candidato a governador neste ano) — afirmou. — Eu não era um empregado dele (Sérgio Cabral) como prefeito do Rio, mas passei alguns anos respondendo por essa relação. Tinha uma relação de independência, uma aliança para governar o Rio, mas as práticas são muito distintas.
O ex-prefeito criticou em vários momentos o governo de Castro e figuras como Bacellar, que está preso no âmbito de uma investigação que apura o elo de políticos com o Comando Vermelho. Questionado sobre acenos que fez ao ex-chefe da Alerj, como chamá-lo de “meteoro” em um evento, alegou que não tinha ideia das suspeitas:
— O sujeito estava de fato (crescendo como) um meteoro. Não sabia que era um meteoro do Comando Vermelho.
Paes foi levado a examinar nomeações controversas que fez na prefeitura, como os ex-secretários Chiquinho Brazão, condenado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, e Lucinha, investigada por ligação com milícias. Segundo ele, as escolhas aconteceram antes de denúncias contra eles.
— Não coloquei nenhum desses personagens como candidato a prefeito ou governador, nunca tiveram protagonismo. Chiquinho Brazão foi indicação do partido, não havia nada que desabonasse a conduta dele naquele momento. No próprio caso da Marielle, o envolvimento do irmão dele havia sido descartado em determinado momento — disse. — A primeira coisa que fiz quando surgiu a suspeita: exonerar o sujeito.
Nacionalização da eleição: Lula e Flávio na campanha do Rio: ‘Não preciso de muleta’
Ainda sobre suas alianças políticas, Paes deixou claro que não tem interesse em nacionalizar a eleição do Rio. Perguntado sobre o apoio à reeleição de Lula, o ex-prefeito afirmou que é grato ao presidente pelo apoio que teve do governo federal na Prefeitura do Rio e que sua relação com o petista é conhecida, negando escondê-lo para evitar perder votos de bolsonaristas. O PT integra a sua coligação, mas frisou:
— Não penso tudo igual ao Lula.
O candidato do PSD evitou detalhar que papel o presidente terá em sua campanha reta final até a votação. Afirmou que prefere se dedicar ao debate dos temas do estado, mas alfinetou a família Bolsonaro no estado, citando o apoio do clã a Wilson Witzel em 2018 e Castro em 2022. O primeiro sofreu impeachment, e o segundo é alvo de investigações sob suspeita de corrupção.
— No mínimo, Bolsonaro tem um dedo podre para o Rio de Janeiro — disse. — Enganaram os eleitores em 2018 com o Witzel, que dizia que era candidato do Bolsonaro, com aquela cara meio de sicário, de matador de aluguel.
O ex-prefeito acusou Ruas de tentar repetir o método, associando-se ao presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) como uma “muleta” na eleição, ao contrário do que seria, na sua visão, a relação dele próprio com Lula:
— O Douglas Ruas precisa de uma muleta e está usando o Bolsonaro. Meu candidato a presidente do Brasil chama-se Lula, mas não é Lula quem vai governar o estado do Rio.
Governo Couto: elogios ao interino e críticas aos ‘delinquentes’, incluindo Ruas
Outro tema abordado na sabatina foi o governo interino do desembargador Ricardo Couto e todo o processo de judicialização que levou à permanência do presidente do Tribunal de Justiça até agora. Embora tenha sido beneficiado pela “neutralização” da máquina estadual, que saiu das mãos do PL, o ex-prefeito negou ter proximidade com Couto ou ter trabalhado juridicamente para esse desfecho. Paes disse ter defendido eleição direta para o mandato-tampão após a saída de Castro e ter chegado a preparar sua pré-campanha.
— É uma situação inusitada que precisa ser esclarecida. A cadeia sucessória se rompeu. Castro foi cassado por corrupção, o vice dele (Thiago Pampolha) foi coagido, deram cargo (no Tribunal de Contas) para ele preparar a entrada do Bacellar, o terceiro da linha sucessória, que foi preso por ligações com o Comando Vermelho — elencou. — Não são coisas normais da política. É tudo fruto das armações de um grupo de delinquentes que levou o crime para dentro do estado, e um deles é o Douglas Ruas. São todos sócios da violência, do crime organizado.
Paes aprovou medidas de Couto, mas disse que “falta muita coisa”. Ele afirmou que, se for eleito, vai limitar a 5% o percentual de funcionários com cargos comissionados na máquina estadual, em alinhamento ao que fez recentemente na Prefeitura do Rio.
Ainda na discussão sobre judicialização da política, o ex-prefeito criticou o fato de Anthony Garotinho (Republicanos), mesmo inelegível, ainda ter acesso a instrumentos da campanha, como entrevistas e horário eleitoral de rádio e TV. Horas depois, a candidatura do ex-governador foi cassada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), mas ainda cabe recurso ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Segurança pública: promessa de acabar com a influência política
Principal tema da eleição fluminense, a segurança apareceu em vários momentos da sabatina. Paes prometeu “tirar o crime de dentro do Palácio Guanabara”, acabar com a influência de políticos na área e repaginar a Secretaria de Segurança, que voltaria a unificar os comandos das polícias Civil e Militar. Ele não descarta, caso eleito, incluir a Secretaria de Administração Penitenciária sob o mesmo guarda-chuva.
— É como tem que ser, é a integração das forças. Qualquer pessoa que tem o mínimo de noção sabe que, quando ninguém manda, não tem como cobrar resultado — afirmou.
No seu eventual governo, apontou, a política de retomada de territórios dominados pelo crime começaria pelo Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, reduto de Douglas Ruas. Mas disse que a escolha não tem a ver com isso:
— São Gonçalo tem 40%, quase 50% do seu território tomado pelo crime organizado, pelo poder paralelo. É um dos casos mais graves, até pela posição geográfica: Baía de Guanabara, BR-101 — explicou. — A capital chama mais atenção, e não estou minimizando a situação, mas imaginar que uma cidade de quase 1 milhão de habitantes tem metade de seu território paralelo… É por ali que vamos começar.
O político do PSD questionou, ao analisar as características da criminalidade no Rio, o “lugar-comum” de que o principal problema seria a falta de serviços sociais em áreas conflagradas.
— O Rio tem um problema de segurança pública. Quando foi pacificada a Vila Kennedy, o lugar-comum era de que tinha que entrar com serviços sociais, de que o estado tem que entrar. A Vila Kennedy tem escolas, os serviços públicos estão lá. Não é tão chique quanto o Leblon, mas tem serviços públicos.
Ele se colocou a favor da redução da maioridade penal, tema que voltou à tona no debate nacional e que o separa das siglas aliadas, como o PT:
— Totalmente a favor. Se pode votar para presidente, pode escolher quem vai governar o estado, quem vai ser o prefeito da sua cidade, parto da premissa de que já tem capacidade de tomar suas próprias decisões — alegou, minimizando o fato de ter sido contra a ideia no passado.
Perguntado sobre a classificação das organizações criminosas brasileiras como “narcoterroristas” pelos Estados Unidos, chamou o debate político sobre os movimentos de Donald Trump, frequentemente associado ao bolsonarismo, de “baboseiras”. No mesmo sentido, disse ver perda de tempo em discussões ideológicas que não se traduzem em medidas práticas para governar um estado como o Rio. A ideia de castração química para condenados por estupro, por exemplo, defendida por políticos de direita, ele afirmou nem conhecer direito.
— Essas baboseiras de Trump não enchem a barriga de ninguém, não resolvem o transporte, não melhoram o Ideb (índice de qualidade da educação) — disse. — Eu quero ser governador do estado. Quero assumir para mim o problema. Não empurro com a barriga problema que é da minha responsabilidade. Se der certo, palmas para o Eduardo Paes. Se não der, (serei) mais um incompetente.
Transporte: do fim do Riocard ao sonho da linha 3 do metrô
Na área de transportes, Paes afirmou ver como viável a escavação de um túnel sob a Baía de Guanabara para a extensão do metrô até São Gonçalo, um projeto antigo que nenhum governador conseguiu tirar do papel.
— Nós vamos dar início às obras da Linha 3 do metrô, vamos fazer com os trens da SuperVia o mesmo que fiz com o BRT, vamos acabar com o Riocard e licitar a bilhetagem eletrônica. E reduzir a passagem dos ônibus intermunicipais — garantiu.
Antes da linha 3, apontou, é preciso estender a linha 2 até a Praça XV, no Centro da capital, de onde saem barcas para Niterói. O ex-prefeito avaliou que é preciso baixar a tarifa do metrô do Rio, hoje a mais cara do país, mas disse que só saberia avaliar como no cargo.
O ex-secretário da pasta no governo Castro, Washington Reis, apoia Paes e indicou sua irmã Jane Reis (MDB) como vice da chapa do PSD. O candidato não respondeu se reconduziria o ex-prefeito de Duque de Caxias à função. Sobre outra pasta, a de Saúde, negou que o presidente estadual do PP, Dr. Luizinho, conhecido pela influência na área há vários anos, tenha pedido espaços no eventual futuro governo, mas afirmou que gostaria de ter apoio dele.
Economia: aumento de receitas e revisão em concessões
Paes celebrou o fato de a Prefeitura do Rio ter conquistado nota máxima da agência Fitch Ratings, que mede o risco de crédito de entes públicos. Apesar do alto endividamento do Estado do Rio, ele afirmou que é possível ajustar as contas estaduais para retomar capacidade de investimentos em projetos como a ampliação do ensino integral na rede de ensino e a criação do que ele chama de ginásios tecnológicos.
Para sanear as contas, afirmou que é preciso começar “pelo óbvio”, aumentar receitas e reduzir despesas, mas não detalhou em que áreas cortaria. Ele classificou a renegociação da dívida do Rio com a União por meio do Propag como um “avanço”, mas insuficiente.
No universo das concessões, afirmou que não ficará ameaçando romper contratos, mas apontou a necessidade de auditar alguns deles “para ver se não teve roubalheira”.
— No caso da Cedae, da Águas do Rio, o que estou vendo é um aumento absurdo de tarifa, principalmente no interior do estado, e isso vai ter que ser revisto — disse. — O pedágio da Via Lagos é um escândalo.
O fornecimento de gás, hoje nas mãos da Naturgy, não será renovado “em hipótese nenhuma”, comentou:
— Farei uma nova licitação, até porque tem um potencial enorme.
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