Poder e Governo
PF avalia que delação pode turbinar pedido de cooperação aos EUA sobre fundo que repassou dinheiro para Dark Horse
Medidas podem abastecer inquérito sob relatoria do ministro André Mendonça que mira em Flávio Bolsonaro e apura os supostos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção
Com pouco avanço desde a abertura do inquérito, em julho, a investigação que foca nas suspeitas envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, no financiamento do filme Dark Horse, deve ganhar novo fôlego a partir da delação do operador do mercado financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, o "Mineiro". Uma das medidas que a Polícia Federal (PF) pretende adotar, por exemplo, é um pedido de cooperação internacional aos Estados Unidos para mapear o fluxo de dinheiro envolvendo o fundo Havengate e a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Como mostrou o GLOBO, o inquérito sob relatoria do ministro André Mendonça que apura os supostos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, afirma que o senador não foi um mero "terceiro", mas um "interlocutor direto" de Vorcaro na negociação sobre o financiamento do filme Dark Horse. Entre os pontos que a investigação visa esclarecer estão a "função desempenhada" pelo fundo Havengate no financiamento do filme, assim como os "beneficiários finais" dos valores remetidos ao exterior.
É nesse contexto que o pedido de cooperação é discutido. A possibilidade foi aventada desde o pedido de abertura da investigação, já que não há como a PF acessar os dados do fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos. Interlocutores afirmam que não é possível, por exemplo, que Mendonça emita uma ordem direta para a quebra de sigilo do fundo, uma vez que ele não está sob jurisdição brasileira.
Assim, para que a Polícia Federal possa obter as informações, precisa encaminhar um pedido que deve passar pelo gabinete do ministro do STF e pelo Ministério da Justiça antes de ser remetido aos EUA.
Os investigadores avaliam, contudo, que para formalizar um pedido às autoridades americanas, é preciso levantar mais indícios sobre a prática criminosa nos repasses do Havengate. Isso porque uma medida de quebra de sigilo bancário deve ser aprovada por um juiz federal dos Estados Unidos, e é aí que a delação de Mineiro pode ajudar.
Uma solicitação formal de cooperação costuma ser feita pelo Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), órgão vinculado ao Ministério da Justiça responsável por operacionalizar pedidos dessa natureza. O DRCI, então, faria a tramitação junto ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ), com base no tratado de assistência jurídica mútua em matéria penal firmado entre os dois países.
A cooperação entre Brasil e Estados Unidos costuma ser fluida, sobretudo em investigações que envolvem crime organizado e lavagem de dinheiro. No entanto, como a apuração envolve a atuação do clã Bolsonaro em território dos EUA, ainda é uma incógnita se as autoridades americanas irão cooperar.
As discussões iniciais sobre um eventual pedido de cooperação no caso Dark Horse giravam em torno das dificuldades relacionadas à construção da solicitação. Os investigadores destacavam que, para montar um pedido robusto a ser encaminhado aos EUA, é necessário coletar um conjunto mais amplo de indícios de crimes para que, só então, se possa tentar convencer as autoridades americanas a fornecerem o detalhamento dos repasses.
Nesse sentido, interlocutores ressaltam que esse compartilhamento depende do entendimento e critérios dos representantes do país norte-americano, que podem ser distintos daqueles traçados pelos brasileiros. Em ocasiões recentes, investigadores enfrentaram dificuldades em tentativas de cooperação internacional, como na tentativa de intimação do blogueiro Paulo Figueiredo, aliado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, em um caso onde ele é acusado de coação.
Desde julho, os investigadores começaram a realizar diligências no inquérito, requisitando informações das empresas envolvidas na produção do filme para tentar mapear o caminho do dinheiro utilizado para custear o longa.
Ao defender a abertura de inquérito sobre os repasses de Vorcaro ao filme Dark Horse, a Procuradoria-Geral da República (PGR) apontou que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro "orientou" a gestão dos recursos do longa nos Estados Unidos. O órgão ainda classificou de "aporte ilícito" o dinheiro enviado por Vorcaro ao projeto audiovisual.
Segundo a PGR, Eduardo coordenou a administração do dinheiro nos Estados Unidos, onde reside desde março de 2025. Desde então, ele tem se mobilizado junto à Casa Branca para articular ações que possam pressionar o Supremo a revogar a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Assim, os investigadores procuram verificar, por exemplo, se os recursos financiaram a aproximação do clã Bolsonaro com integrantes do governo do ex-presidente americano Donald Trump, por meio de escritórios de advocacia e lobistas que atuam em Washington.
Até o momento, aliados de Flávio Bolsonaro têm sustentado que não há ilegalidades nos repasses, argumentando que se trata de dinheiro privado. Também afirmam que, ainda que se reconheçam repasses ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, estes estariam relacionados a pagamentos pelos serviços prestados na produção do filme.
É nesse cenário que a delação de Mineiro pode ser crucial para que os investigadores elaborem o pedido de cooperação internacional. Dono da Entre Investimentos e Participações, o empresário indicou o caminho dos repasses feitos ao fundo sediado no Texas. Ele confirmou à PGR ter realizado ao longo do ano passado sete transferências bancárias para o fundo Havengate, totalizando US$ 12,3 milhões (cerca de R$ 69 milhões no câmbio da época) a pedido de Vorcaro.
Em sua delação, Mineiro relatou que recebeu mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro do fim de 2024 ao início de 2025 para realizar os pagamentos ao fundo americano. Ele afirmou aos procuradores que não sabia que o montante seria utilizado na produção do longa. O empresário também relatou ter sido contatado por Paulo Calixto, responsável pelo fundo e advogado de Eduardo Bolsonaro.
Pedido de compartilhamento pendente
Interlocutores ressaltam que a investigação sobre o caso Dark Horse, que tramita sob a relatoria de Mendonça, está em fase inicial. Até o momento, a PF não apresentou nenhum pedido de diligência a ser deferido pelo ministro do STF. Isso não significa, necessariamente, que o inquérito esteja paralisado, uma vez que a PF pode realizar diversas diligências por conta própria. De outro lado, as ações mais substanciais necessitam de um aval da Justiça.
Um pedido que está pendente de apreciação, por exemplo, é de compartilhamento de informações da investigação da Polícia Civil de São Paulo. Esta solicitação, feita pela Polícia Federal, está com a Procuradoria-Geral da República para emissão de parecer.
Em decisão recente, o ministro Flávio Dino, do STF, determinou que o material produzido pela Polícia Civil seja remetido a seu gabinete. A avaliação entre os investigadores é que será preciso compreender para onde o material será enviado e, possivelmente, o compartilhamento das informações entre gabinetes.
Recentemente, Mendonça compartilhou mensagens do senador Weverton Rocha, apreendidas durante a investigação sobre o Banco Master, com o inquérito sobre suposta obstrução à investigação de um assassinato ocorrido em 2022 no Maranhão.
Outra linha de apuração sobre o caso Dark Horse, que está sob relatoria de Dino, teve desdobramentos nesta quinta-feira, com a abertura de uma operação que cumpriu 49 mandados de busca e apreensão. Essa investigação apura o suposto desvio de emendas parlamentares para a produtora do filme. O deputado federal Mário Frias (PL-SP) e a empresária Karina Gama foram alvo das diligências. Frias destinou R$ 2 milhões em emendas em 2024 ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina. Os valores foram pagos em fevereiro e outubro de 2025.
Mais lidas
-
1ESTADO DE SAÚDE
Chiara Ferragni passa mal por causa de altitude durante viagem ao Peru
-
2ESPORTE
Palmeiras domina ranking de vendas mais caras do Brasil com cinco entre as 12 maiores
-
3CONCURSO
RJ terá concurso para Secretaria de Planejamento e Gestão com 60 vagas de nível superior
-
4MOBILIDADE
Prefeitura inicia obras de R$ 46,9 milhões para ampliar ponte e criar terceira faixa na Ayrton Senna, na Barra da Tijuca
-
5CINEMA
Randy Quaid critica Tom Cruise por escalação em Dias de Trovão 2