Poder e Governo

Em sabatina, William Siri cita 'confusão' na esquerda com apoio de Lula a Paes e chama Ruas de 'pupilo' de Castro

Candidato do PSOL ao governo do Rio também alfinetou Freixo, seu antigo aliado; Garotinho e Paes serão os próximos entrevistados

Agência O Globo - 10/09/2026
Em sabatina, William Siri cita 'confusão' na esquerda com apoio de Lula a Paes e chama Ruas de 'pupilo' de Castro
William Siri - Foto: Reprodução / Instagram

William Siri, postulante do PSOL ao governo do Rio de Janeiro, acena ao eleitorado de esquerda como alternativa às duas candidaturas mais bem posicionadas atualmente nas pesquisas. Na segunda sabatina da série dos jornais O GLOBO, Extra e Valor e da rádio CBN com os concorrentes ao Palácio Guanabara, ele combateu ontem tanto Eduardo Paes (PSD), que concorre com o apoio das outras principais legendas de esquerda (PT, PSB, PDT e PC do B), quanto Douglas Ruas (PL), nome da sigla de Jair e Flávio Bolsonaro. Siri admitiu dificuldades na campanha devido ao isolamento do PSOL fluminense, mas defendeu a reeleição de Lula, mesmo sem ser correspondido: o petista apoia Paes e tem no ex-prefeito seu principal cabo eleitoral no Rio.

Com 1% na pesquisa Quaest divulgada anteontem, Siri disse ainda esperar atrair eleitores que rejeitam a direita, mas têm reservas aos quatro mandatos de prefeito de Paes, a quem fez oposição como vereador. Ele chegou seis minutos atrasado à sabatina e não perdeu a oportunidade de culpar o ex-prefeito pelo trânsito pesado que disse ter enfrentado entre sua casa, em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, e a Redação do GLOBO, no Centro.

Aos 34 anos, em seu segundo mandato na Câmara de Vereadores da capital, o psolista buscou se afastar de Paes ao mesmo tempo em que enfileirou ataques a Ruas, atual presidente da Assembleia do Rio (Alerj), e a aliados dele. Siri reforçou a associação do candidato do PL ao ex-governador Cláudio Castro (PL), condenado à inelegibilidade pela Justiça Eleitoral e alvo de três operações da Polícia Federal (PF) nos últimos meses por suspeitas de corrupção, e ao ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União), preso por suspeita de ligação com o crime organizado. No entanto, provocado pelos entrevistadores, admitiu que seu partido errou ao apoiar a reeleição unânime de Bacellar à frente da Assembleia, em 2025.

Em pouco menos de 90 minutos, o vereador foi ouvido por Bianca Santos e Leandro Resende, apresentadores da CBN; Bernardo Mello Franco, colunista do GLOBO; Thiago Prado, editor de Política do GLOBO e do Extra; e Francisco Góes, chefe da Sucursal Rio do Valor. Diante da frágil situação fiscal do Estado do Rio, Siri foi questionado sobre como obteria recursos para propostas como reajustes e contratação de professores e policiais, expansão de hospitais e ocupação social de territórios dominados pelo crime, além da reestatização de serviços públicos, do saneamento básico aos transportes — com tarifa zero. Sem dar valores, prometeu cortar incentivos fiscais e cargos comissionados, além de eliminar perdas com a corrupção que atribuiu à gestão de Castro. Elogiou medidas saneadoras do governo interino do desembargador Ricardo Couto, mas disse que são “apenas 10%” do que faria.

Siri defendeu manter o Rio no Propag, que refinancia a dívida com a União, mas disse que renegociaria termos, confiando na reeleição de Lula. Na segurança, ele afirmou que manteria o uso do veículo blindado conhecido como “caveirão” em algumas circunstâncias, mas defendeu a combinação de ações sociais e policiais nas favelas.

Siri foi o segundo entrevistado na série de sabatinas com os principais candidatos ao Palácio Guanabara, que começou anteontem com Douglas Ruas (PL). Anthony Garotinho (Republicanos) é o entrevistado de hoje, e amanhã é a vez de Eduardo Paes (PSD). As entrevistas, com transmissão ao vivo na rádio CBN, nos canais do YouTube e demais plataformas digitais de O GLOBO, Extra e Valor, começam sempre às 10h30 e têm 90 minutos de duração.

Encolhimento do PSOL: foco no Legislativo e luta para bater cláusula de barreira

Embora tenha mantido o discurso de que espera avançar ao segundo turno e minimizado o baixo desempenho em pesquisas de intenções de voto, Siri disse na sabatina que “falta estrutura” ao PSOL na atual disputa ao governo. Ele acusou adversários de obterem “recursos de corrupção” para suas campanhas, e reconheceu que o foco atual de seu partido é eleger deputados federais para cumprir a cláusula de barreira. Com 16 deputados na federação com a Rede, o PSOL corre risco de não atingir o desempenho mínimo (13 vagas ou 2,5% dos votos válidos em ao menos um terço dos estados) exigido pela legislação eleitoral deste ano para manter acesso ao fundo partidário e ao tempo de propaganda em rádio e TV.

Siri argumentou, por exemplo, que a escolha de lançar o deputado federal Glauber Braga à reeleição, em vez de ao governo estadual, como ele desejava, foi “fundamental” para o plano do PSOL de bater a cláusula. Siri também sinalizou que a própria candidatura ao governo faz parte de uma estratégia para tentar projetar nomes ao Legislativo:

— A gente tem de ser inteligente. O PSOL está se consolidando para cumprir a cláusula de barreira. Ter uma candidatura (ao governo) reforça o nosso programa.

O candidato foi lembrado pelos entrevistadores de que seu desempenho nas pesquisas reflete um encolhimento do partido no Rio. O PSOL disputou o segundo turno para a Prefeitura do Rio em 2016 com Marcelo Freixo e chegou em terceiro lugar na corrida estadual em 2018, com 10% dos votos para Tarcísio Motta. Nos pleitos municipais de 2020 e 2024, teve menos de 5% na capital. E na disputa estadual de 2022, o PSOL abriu mão de candidatura própria para apoiar o ex-correligionário Marcelo Freixo, à época no PSB. Hoje candidato a deputado federal pelo PT, Freixo apoia Paes.

‘Vida difícil’ na esquerda: defesa de Lula apesar de Paes

Siri disse ver “contradições” em integrantes da esquerda que apoiam Paes, como Freixo, cujo impacto da saída do PSOL minimizou:

— Freixo tem suas contradições, que vai ter que carregar, por estar apoiando Paes. Ele, como professor, sabe que Paes jogou bomba em professores.

Ao analisar as dificuldades nas últimas eleições, Siri disse que a sigla precisa adotar uma linguagem “mais popular” e apontou como um dos problemas um “certo preconceito da esquerda em dialogar com o povo evangélico”, segmento ao qual pertence. Embora tenha se apresentado como alguém na esquerda capaz de fazer a “conexão” com os evangélicos, Siri também acusou pastores alinhados ao bolsonarismo de “se utilizar da religiosidade para ganhar poder e muito dinheiro”.

Durante a sabatina, Siri foi estimulado a explicar seu desempenho limitado nas pesquisas. Ele disse ter tempo para atrair a atenção dos eleitores, mas admitiu que isso passa pela falta de apoio dos outros principais partidos de esquerda, que se aliaram a Paes no Rio. Em vários momentos ele pediu votos para Lula. Questionado sobre o fato de apoiar a reeleição do presidente enquanto o petista sobe no palanque do Paes, o candidato do PSOL respondeu que “a vida é difícil”, e buscou acenar ao eleitorado identificado com a esquerda. Ele acusou Paes, filiado a um partido de centro, de sistematicamente atrair o apoio da esquerda e depois contrariar princípios caros a este campo, como a defesa de servidores públicos e políticas de acesso à moradia.

— Imagina eu ter que apoiar no primeiro turno alguém que faz com que a cidade do Rio, após (ter sido) quatro vezes prefeito, tenha vários bairros da Zona Sul aumentando o aluguel em mais de 100% em um intervalo de dois anos? É uma lógica de cidade articulada pela especulação imobiliária — atacou Siri, referindo-se aos mandatos do rival do PSD como prefeito. — Ele assinou uma carta-compromisso dizendo que ia dar reajuste todos os anos (aos servidores), e não deu.

Apesar de afirmar que o apoio de Lula a Paes gera “confusão” na esquerda, Siri defendeu o petista porque “não dá para ter Flávio Bolsonaro” no Planalto:

— É o cara que teve a mãe e a esposa do Adriano da Nóbrega em seu gabinete, um cara que era o chefe do Escritório do Crime. Precisamos derrotá-lo. Paes vem com a possibilidade de acabar com isso, e por isso (atrai) boa parte do campo progressista. Mas tenho certeza que, no médio e curtíssimo prazo, (essas pessoas) vão se arrepender.

Dubiedade na segurança: possível uso de ‘caveirão’, mas não de armas em helicópteros

Concorrendo por um partido que costuma ser crítico a operações policiais em favelas, Siri defendeu na sabatina uma política de segurança de “retomada do território” dominado por facções criminosas, mas “de forma diferente” do atual modelo de enfrentamento. Ele admitiu, no entanto, que, como governador, manteria elementos de operações que já foram combatidos pela esquerda, como o uso do veículo blindado conhecido como “caveirão”. Segundo Siri, “em alguns momentos não tem como não usar” esse tipo de veículo para a proteção de policiais. Por outro lado, o candidato do PSOL insistiu que o governo estadual deveria proibir o uso de armas letais a partir de helicópteros da Polícia Militar em operações. Ele argumentou que esse tipo de ação é “aterrorizante para as famílias” que vivem em áreas de conflito.

Questionado sobre a proposta de seu partido de “desmilitarização da PM”, Siri afirmou que o modelo ideal seria um policiamento civil ostensivo, como a Polícia Rodoviária Federal e os que existem em outros países, mas reconheceu que um governador não tem poder de mudar algo que está na Constituição. No Palácio Guanabara, Siri diz que reunificaria as secretarias de Polícia Civil e Polícia Militar em uma Secretaria de Segurança. No entanto, argumentou que não é possível “desarticular o crime” sem a classe política.

— A operação vai acontecer, mas o governador precisa fazer as políticas paralelas. A primeira questão é desarticular o crime. Drogas e armamentos não são fabricados nas comunidades. Vamos começar asfixiando a entrada de munições e drogas — afirmou. — Quem está vendendo essa arma é quem está no poder hoje.

Críticas à Alerj: menção a investigados e mea-culpa por apoio a Bacellar

Em diferentes momentos da entrevista, Siri criticou parlamentares da Assembleia Legislativa do Rio que são investigados por envolvimento com o crime organizado e procurou vinculá-los ao rival Douglas Ruas, candidato do PL, que é o atual presidente da Alerj. O psolista referiu-se a Ruas como “pupilo” de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Casa preso e cassado após operação da PF apontar indícios de atuação dele em favor do Comando Vermelho. Antes de o PL lançar Ruas, Bacellar era o favorito para receber o apoio do partido e do ex-governador Cláudio Castro para a sucessão estadual deste ano.

— Se a PF não fizesse a Operação Unha e Carne, Bacellar seria o governador, o Comando Vermelho estaria governando o Rio de Janeiro — disse Siri. — Ruas é o pupilo do Castro e também do Bacellar, que era o operador político do Comando Vermelho. Ele (Ruas) é o representante dessa corja política.

Questionado sobre o apoio do PSOL à reeleição de Bacellar à presidência da Alerj, no início de 2025, antes de sua prisão, Siri afirmou “não ter dúvida que o partido errou”, mas evitou dizer se faria diferente. Argumentou que o apoio deu ao partido o comando de comissões relevantes da Assembleia que ajudaram na defesa de causas como a valorização de servidores públicos.

— Não digo que valeu a pena, mas é a forma como a política hoje é organizada — disse. — Todo mundo erra, mas nossa essência permanece.

Siri, por outro lado, frisou que seu partido votou “de forma unânime” pela manutenção da prisão de Bacellar, e criticou partidos aliados de Ruas e Paes por darem votos à revogação da prisão.

Promessas com verba incerta: de reabertura de Cieps a tarifa zero nos transportes

Em diferentes momentos da sabatina, Siri se esquivou de precisar o montante necessário para colocar algumas de suas promessas de pé, e onde obter os recursos, dada a situação fiscal delicada do Estado do Rio. O candidato do PSOL recorreu a frases como “fechar o ralo da corrupção” e cortar cargos no Executivo, mas disse que o aumento de arrecadação com essas medidas depende de estudos mais aprofundados. Sua principal ideia é um corte de 30% em renúncias fiscais, mas não de forma linear. Olhando caso a caso de empresas beneficiadas, Siri projeta um aumento de arrecadação da ordem de R$ 7 bilhões com a medida.

O candidato do PSOL argumentou que a tarifa zero no sistema estadual de transportes, por exemplo, poderia ser atingida “em parceria” com um quarto governo Lula. Ele também afirmou que a promessa de colocar, no primeiro ano de governo, 30 Centros Integrados de Educação Pública (Cieps) em tempo integral envolveria a construção de algumas unidades e a reestruturação de outras “em áreas mais conflagradas”.

— São locais que precisam do Estado pleno. A retomada dos territórios também vai passar pela educação — afirmou Siri, dizendo que os recursos viriam de “uma reforma” no modo de governar. — Havia contratos no Rio Metrópole (autarquia estadual), por exemplo, feitos para roubar R$ 30 milhões, R$ 50 milhões. Dinheiro tem.

Siri também defendeu a manutenção do Rio no Propag, embora tenha dito que “sempre é possível melhorar os juros” da dívida estadual com a União, sugerindo uma renegociação do programa. Ele negou ainda que suas propostas comprometam o equilíbrio fiscal do estado, e defendeu “arrumar a casa” sem medidas de “austeridade”.

— O regime de recuperação fiscal de 2017 foi de extrema austeridade, e o que mudou? Arrumar a casa é continuar com o pente-fino em cargos comissionados, cortar renúncias fiscais.

Reestatizações: promessa de retomar operação pública da Cedae e dos trens

Siri defendeu que a Cedae, cujos serviços de saneamento foram concedidos à iniciativa privada em 2021, seja “reestatizada”. E minimizou o impacto fiscal e uma eventual insegurança jurídica desta medida. O candidato afirmou que o atual contrato de concessão é “oneroso” e “danoso” por ter elevado os custos da tarifa à população.

Ao argumentar a favor da medida, Siri disse que os recursos da concessão da Cedae foram desviados para um esquema de contratação de cabos eleitorais a favor do ex-governador Cláudio Castro, no que ficou conhecido como “caso Ceperj” — e que levou à condenação de Castro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O candidato do PSOL defendeu também a reestatização dos serviços de trens, barcas e metrô, começando pelo espólio da Supervia, antiga concessionária de trens metropolitanos que foi substituída neste ano pela TrensRJ:

— Hoje, para ter a manutenção e gerir a antiga Supervia, dá cerca de R$ 860 milhões por ano. (É possível custear) Cortando as renúncias fiscais, com a lógica de acabar com a corrupção, e também redesenhar o orçamento. Vamos reestatizar, só que não é de uma hora para a outra.

O vereador fez referências várias vezes na sabatina à sua experiência de vida como algo que o credencia para governar com um olhar voltado para as periferias. Criado na Baixada e hoje morador de Campo Grande, na Zona Oeste da capital, Siri disse “sentir na pele” o sucateamento dos trens, e lembrou até já ter “passado perrengue” por falta de banheiro nas estações.

Os problemas de mobilidade na capital e no estado também foram citados por Siri como justificativa para ter chegado com alguns minutos de atraso à sabatina de ontem. Disse ter saído por volta das 8h de casa, em Campo Grande, mas que o engarrafamento na Avenida Brasil, agravado pela chuva, o impediu de chegar ao Centro às 10h30. E culpou Paes pela falta de soluções de mobilidade para aliviar o trânsito após quatro mandatos na prefeitura.