Poder e Governo
Lula busca ministros do STF e articula saída para crise na Corte
Presidente acredita que Edson Fachin deve liderar resolução do conflito interno
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva procurou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para tratar da crise enfrentada pela Corte, agravada pelo vaivém de decisões sobre a permanência de Andrei Rodrigues na direção-geral da Polícia Federal.
Lula compartilha com ministros mais próximos a impressão de que o presidente da Corte, Edson Fachin, precisa tomar as rédeas do conflito interno e decidir de forma a arrefecer a tensão entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes. As conversas ocorreram com ao menos dois magistrados.
De acordo com interlocutores, Lula avalia que Fachin pode perder força internamente se demorar a tomar alguma decisão. A ala do STF mais próxima a Lula é formada por Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Flávio Dino e Alexandre de Moraes, grupo que se opõe a André Mendonça. Ao mesmo tempo, aliados afirmam que Lula acredita que uma solução precisa partir do próprio Supremo.
O embate ganhou novos contornos a partir de terça-feira, quando Mendonça afastou Andrei da chefia da PF.
Já no fim da tarde, as decisões de ambos os colegas foram publicadas, mas com a manutenção de Andrei no cargo.
Antes do despacho, tanto Lula quanto auxiliares do presidente manifestaram reservadamente que a demora de Fachin em tomar uma atitude acirra o antagonismo entre os ministros.
Em outra tentativa para estancar a crise, o ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, conversou novamente nesta quarta-feira com Fachin e fez um apelo para que ele decidisse sobre o recurso apresentado na véspera contra o afastamento de Andrei.
O argumento era que, mesmo após a ordem de Dino revertendo a decisão de Mendonça, um outro ministro poderia fazer um novo despacho determinando a saída do diretor-geral da PF, o que conturbaria ainda mais o ambiente.
No argumento apresentado por Messias ao presidente do Supremo, a decisão do presidente da Corte servirá para restabelecer a ordem institucional e reafirmar sua autoridade entre os colegas.
Ao analisar o cenário conturbado na Corte, Lula teme que a crise do STF traga um efeito eleitoral direto para sua campanha e tem compartilhado com interlocutores que a sociedade perde com o Judiciário sob suspeita.
Um descrente frequente de Lula diz que o presidente deseja focar sua campanha e discutir temas que dialoguem com o cotidiano da sociedade, afastando a contaminação da crise institucional da pauta eleitoral. Segundo ele, o petista deseja que a resolução da crise ocorra o quanto antes para concentrar-se no embate com seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Pesquisas eleitorais divulgadas nos últimos dias, como a da Quaest, indicando um empate numérico entre Lula e Flávio no segundo turno, acenderam um sinal de alerta no entorno do presidente da República.
Conforme duas pessoas que integram a equipe do petista, a linha que deverá ser adotada pela campanha é que todos os sigilos das investigações devem ser retirados, tal como a publicação do próprio Lula nesta quarta-feira nas redes sociais em reação à crise.
No texto, o presidente defendeu a "quebra completa" do sigilo das investigações relacionadas ao caso do Banco Master, "seja quem for, doa a quem doer", criticou o que classificou como "vazamentos seletivos que impactam a disputa eleitoral" e declarou que o povo "precisa de explicações e medidas imediatas".
A campanha petista vê um ato deliberado de André Mendonça para construir uma narrativa favorável a Flávio Bolsonaro (PL), seu principal adversário. Mendonça foi indicado pelo pai do presidenciável, Jair Bolsonaro, em 2021.
O secretário de comunicação do PT, Éden Valadares, divulgou um vídeo também nesta quarta-feira em que afirma que há uma tentativa de intromissão no processo eleitoral brasileiro e acusa Mendonça, ainda que sem citá-lo nominalmente, de usar a crise como instrumento eleitoral para barrar as investigações sobre Flávio.
“A situação política no Brasil é muito grave. O que eram suspeitas se confirmam em evidências e precisamos denunciar e reagir agora. A crise institucional que se instala no Supremo Tribunal Federal está sendo transformada em instrumento eleitoral pelo ministro relator do caso do Banco Master ao barrar as investigações sobre Flávio Bolsonaro, ao ser parcial nas apurações sobre o banqueiro Daniel Vorcaro e ao negar ao Brasil a verdade sobre o escândalo do Dark Horse”, afirmou Valadares.
A ideia, conforme relatos, é que a militância e parlamentares governistas adotem um tom mais duro em relação à postura de Mendonça, reforçando a relação de Vorcaro com Flávio Bolsonaro e a do senador com o ministro do Supremo. Nessa linha, alguns políticos publicaram em suas redes sociais questionando o fato de Mendonça ter afastado o diretor da Polícia Federal que mandou prender o banqueiro.
Mensagens desse tipo foram divulgadas em grupos de WhatsApp ligados ao PT que surgiram na campanha de 2022 e retornaram nesta ano para reforçar a presença digital de Lula e fazer frente ao bolsonarismo. Em um deles, uma mensagem incentiva a militância a “falar sobre as atitudes do ministro André Mendonça no caso envolvendo a blindagem de Flávio Bolsonaro e defender que as instituições cumpram seu papel com independência”.
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