Poder e Governo

Em meio à crise do caso Master, Gilmar Mendes propõe mudar regimento do STF para retirar delegados da PF e militares de gabinetes do Supremo

Ministro busca afastar servidores da PF e Forças Armadas dos gabinetes para evitar conflitos de interesse.

Agência O Globo - 05/09/2026
Em meio à crise do caso Master, Gilmar Mendes propõe mudar regimento do STF para retirar delegados da PF e militares de gabinetes do Supremo
Gilmar Mendes - Foto: Reprodução / Agência Brasil

Em meio à crise do caso Master, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes propôs uma emenda no regimento interno da Corte para retirar delegados da PF e militares de gabinetes de ministros do Supremo. O texto da proposta foi protocolado neste sábado.

A proposta acrescenta o seguinte parágrafo ao regimento do STF:

"É vedada a nomeação ou a designação de militares das Forças Armadas e de servidores integrantes das carreiras policiais previstas no art. 144 da Constituição Federal, ainda que licenciados ou cedidos, para cargo em comissão ou função comissionada nos Gabinetes dos Ministros, salvo para o exercício de atividade de segurança, devidamente informada pela Chefia de Gabinete à Secretaria do Tribunal, sendo vedada a participação na instrução de inquéritos ou processos e em atividades de assessoramento jurídico".

O texto também determina que o presidente do Supremo - na conjuntura atual, o ministro Edson Fachin - providencie o "imediato retorno" de servidores da PF e das Forças Armadas que se encontram nessa situação.

A avaliação de Gilmar é que a presença de integrantes da PF nos gabinetes pode criar uma relação inadequada entre investigadores e ministros responsáveis pela condução dos inquéritos. Nos bastidores, um dos questionamentos levantados durante a atual crise é sobre o grau de influência que policiais cedidos podem exercer sobre a condução das apurações.

Atualmente, quatro delegados da Polícia Federal estão cedidos ao Supremo, de acordo com o Portal da Transparência do STF. Dois trabalham em gabinete de Mendonça (Graziela Machado e Thiago Marcantonio), um de Alexandre Moraes (Fábio Shor) e um atua na área de segurança da Corte (Raphael de Mello Batista).

Os delegados cedidos pela Polícia Federal aos gabinetes atuam como assessores dos ministros, prestando apoio técnico sobretudo na análise de investigações criminais sob a relatoria dos magistrados. Embora não sejam responsáveis por presidir os inquéritos conduzidos pela corporação, auxiliam os gabinetes na análise de relatórios, diligências e outros elementos produzidos nas apurações.

O tema já havia provocado tensão entre o STF, a Polícia Federal e o governo nos últimos meses. Em junho, o Ministério da Justiça enviou ofícios a mais de 50 órgãos públicos solicitando a devolução de policiais federais cedidos para reforçar o efetivo da corporação no combate ao crime organizado. O Supremo, porém, ficou fora da lista. À época, a justificativa apresentada por integrantes do governo foi evitar prejuízos a investigações em andamento.

A possibilidade de retirada dos delegados já havia causado preocupação especialmente no gabinete de Mendonça. Thiago Marcantonio atua como assessor do ministro desde 2025 e auxilia o magistrado em processos relacionados tanto às fraudes no Banco Master quanto às investigações sobre desvios no INSS. A movimentação do governo para recuperar policiais cedidos chegou a ser interpretada por integrantes da PF e do STF como uma tentativa de atingir a estrutura montada pelo relator para conduzir essas apurações.

A discussão ressurge agora em um contexto mais delicado. Mendonça e a cúpula da Polícia Federal vêm acumulando divergências sobre a condução das investigações, que se aprofundaram depois que o ministro determinou à corporação que identificasse interlocutores de Vorcaro mencionados no material apreendido. Um desses interlocutores era o ministro do STF Alexandre de Moraes.